9 Madalena Narrando

2171 Palavras
Eu sempre achei que nada mais pudesse me surpreender na vida. Depois de tantos anos ao lado de Eduardo, de tantas perdas silenciosas, de tanta rotina… eu acreditava que já tinha esgotado meus limites. Mas naquele fim de tarde, quando a televisão mostrou o nome dele, o rosto dele, a verdade dele… Tudo dentro de mim se rasgou, eu fiquei parada, simplesmente parada, olhando para aquela tela exposta na minha sala, enquanto as palavras surgiam como tiros, fraude, morte, encobrimento, traição, filha biológica escondida, corrupção… Eu não entendi de imediato. Senti minha pele arrepiar, meu coração falhar, como se o corpo quisesse me avisar antes da mente:é real. Virei para ele, esperando negação, sinceridade, qualquer coisa, mas quando ele abriu a boca, eu reconheci a voz que eu tinha escutado por anos…Fria. Calculista, tentando me convencer, tentando me dobrar, achando que poderia me manipular como sempre. Como sempre, ali, diante da televisão, da nossa história exposta, ele tentou se justificar, e foi quando a verdade que eu carregava adormecida dentro de mim acordou: Eduardo nunca me pertenceu, ele nunca me amou, eu só fui… conveniência. Senti um arrepio na hora em que ele disse — naquele tom de possessão que sempre me incomodou, mas que eu preferia fingir não ouvir — que eu “sempre seria dele”. Foi nojento, como se meu corpo, minha existência, minha vida… fossem propriedade. Me deu vontade de gritar, de arrancar a pele, de sumir, me senti suja como ele pode fazer isso. E no meio daquele caos, da dor que rachava o chão que eu pisava, veio a parte mais c***l, a revelação sobre Catharina, ela é sim minha filha ,minha menina, a que eu sempre sonhei em ter. Meu pedacinho de milagre que Deus me deu quando a vida me disse que eu não podia gerar um bebé, quando tirou meu filho de mim eu não chorei por mim, chorei por ela, chorei pela Lais, que não pode crescer com a gente, sentindo o amor da sua familia. Chorei por elas, por saber que elas foram usada como segredo, como arma, elas não tiveram culpa. Nunca teve, e jamais terá, mesmo que o sangue dela venha de uma traição. Eu a amo mais que tudo, e ali, ouvindo o homem que destruiu minha fé dizer que fez tudo “para proteger a família”, eu só conseguia pensar, que família? Porque eu nunca tive uma, eu só estive… ao lado dele, eu tentei falar, tentei entende,tentei achar um fio que justificasse tudo. Mas quanto mais ele falava, mais eu me lembrava do peso que carrego: Eu não pude ter filhos, porque ele não quis, porque ele me boicotou, tirou isso de mim, porque ele fez escolhas com meu corpo sem me contar. Eu sempre achei que era “coisa da vida, mas hoje, eu sei que a vida nunca foi a vilã. Foi ele, e senti dor física quando isso caiu em mim,não pela infertilidade em si… Mas por saber que fui enganada até nisso. Quando Catharina entrou com Enzo, e os outros vieram atrás — Rayane, Pietro, Taylor meu coração se partiu mais uma vez. Porque eu consegui ver nos olhos deles o mesmo choque que estava no meu,a sala virou tribunal, e eu estava do lado das vítimas. Eduardo tentou se defender, tentou me olhar como se eu ainda fosse dele. Como se minha dor tivesse menos valor. Eu senti vontade de sumir, quando as autoridades chegaram e levaram ele, eu fui tomada por algo estranho, não era alívio, não alegria.ão ódio. Só… silêncio, um silêncio pesado, dolorido, e frio,as pessoas começaram a falar comigo. Perguntar se eu estava bem, se eu precisava de algo, e eu só respondi: — Eu estou bem, eu estou calma, estou tranquila, mas só eu e meu coração de verdade sabe como está, tudo que eu falava era mentira. Mas Catharina está grávida, gravidez de risco, minha menina precisa de paz, de calmaria. Eu podia quebrar depois, na frente dela, não, eu pedi para Enzo levá-la para descansar. Ele é um bom homem,eu confio nele. Mas ela não quis sair, me abraçou como se quisesse segurar meus pedaços, então eu disse que estava tudo bem,sorri, finjindo que estava bem, sempre finjo bem. O resto foi indo embora, o Pietro soltou meu ombro devagar, já o Taylor me olhou como quem pede desculpa por algo que não fez. Rayane segurou minha mão e disse que eu não estava sozinha, e eu só agradeci, mesmo sabendo que a solidão já tinha me abraçado por dentro. Eles foram para o quarto de Catharina, eu fiquei ali sozinha, eu subi as escadas devagar, sentindo cada músculo pesar. Quando cheguei no meu quarto…Nosso quarto…Olhei ao redor e senti nojo. Eu respirei fundo, não chorei, não ainda, não toquei na cama, não sentei. Eu fui até o armário e comecei a tirar tudo dele, camisas,ternos, relógios,perfumes, gravatas, sapatos, tudo. Sem pensar, sem parar, joguei em sacos, em malas, em caixas, não senti pena, não senti apego, era como arrancar espinhos da pele. Arrastei tudo para frente da porta, abri, tirei cada maldita coisa para fora, empurrei com a força que só a dor dá. Mandei mensagem para a empregada,peça para alguém jogar tudo fora, ou pegar, não me importa, fechei a porta, aí sim, chorei. Entrei no banheiro, abri o chuveiro,e deixei a água cair quente demais, eu precisava que queimasse. Eu queria que tirasse o cheiro dele da minha pele,o toque dele da minha história, a sujeira dele da minha alma. A água tentou, mas não conseguiu, então eu chorei,chorei até doer a garganta, até minhas pernas falharem, até faltar ar. Quando saí, ainda chorava, vesti uma camisola, simples, confortável,tirei a roupa de cama, era como rasgar passado, coloquei outra, branca, limpa, nova. Fui até a cômoda, peguei um remédio para dor de cabeça, a dor não era só na cabeça, mas não existia remédio para o resto, deitei. Senti o colchão estranho, grande demais, vazio, fechei os olhos,e finalmente…Afundei no sono, não porque estava em paz. Mas porque o corpo apagou antes que a alma entendesse tudo o que aconteceu,eu sempre imaginei que a dor mais profunda que uma mulher poderia carregar na alma era a de perder um filho. Mas, naquela manhã, descobri que existe outro tipo de morte —a do coração quando a verdade o atravessa sem piedade. Eu estava na sala, arrumando tranquilamente algumas flores recém-chegadas do jardim, quando o telefone começou a tocar sem parar. Ao mesmo tempo, ouvi o som da televisão aumentar, sozinho, como se o próprio destino quisesse que eu escutasse o que estava por vir. — Senhora… a senhora precisa ver isso… — murmurou a funcionária, pálida, virei-me devagar, com um pressentimento frio percorrendo minha espinha. A apresentadora dizia o nome do meu marido, Eduardo Salvatore, com a voz pesada, quase sombria. “Novas denúncias envolvendo o empresário Eduardo Salvatore ganham a mídia internacional. Informações revelam desvio de patrimônio, acidentes supostamente provocados, adultério e ocultação da paternidade da jovem Catharina… Meu corpo travou, o vaso escorregou da minha mão, despencando no chão e se estilhaçando em dezenas de pedaços, era como se meu coração tivesse ido junto. A mimha funcionária correu até mim, mas eu ergui a mão, tentando respirar. — Não… eu… preciso ouvir… O mundo girou, as imagens, documentos, testemunhos… tudo passando na tela como se fosse uma peça c***l escrita sobre a minha vida, a voz do jornalista ecoava que Eduardo havia escondido que Catharina era sua filha biológica com outra mulher. Que traição, mentiras, dinheiro sujo e segredos estavam envolvidos, minhas mãos tremiam, meu peito ardia, de repente, o telefone fixo começou a tocar de novo. Depois o meu celular, depois o da sala, crescia, invadia, sufocava, parecia que o mundo inteiro queria arrancar algo de mim. Mas eu estava paralisada, eu o amava, por tantos anos… eu o amei, e agora…Tudo ruía debaixo dos meus pés. A porta da sala se abriu bruscamente, eu não precisei olhar — reconheceria os passos deles mesmo no inferno,era Catharina, ao lado de Enzo, Rayane, Pietro e Taylor. Minha filha veio direto até mim, de olhos marejados, enquanto eu continuava estática diante da televisão. — Mamãe… — a voz dela falhou ao se abaixar para me abraçar. — Eu vim assim que soube… Toquei seu rosto com delicadeza, tentando sorrir, mas minha boca não respondeu, ela estava grávida… e aquela lembrança entrou em mim como uma luz fraquíssima. — Eu estou bem, meu amor… — menti, com a voz trêmula. Mas então a porta da sala bateu novamente, e eu o vi, o Eduardo, andando em minha direção como se nada estivesse errado, como se o caos não estivesse queimando o mundo lá fora. — Eu posso explicar — ele começou. Eu me ergui devagar, sustentada por algo que eu nem sabia que tinha, não era força,era necessidade. — Explicar? — sussurrei. — Você tem explicação para destruir vidas inteiras? — Eu fiz o que achei necessário para proteger você… para proteger nossa família. A sala ficou silenciosa, todos observavam. — Proteger…? — Minha voz ganhava cor. — Mentindo? Traindo? Escondendo uma filha que eu teria amado desde o primeiro dia? Meu olhar foi até Catharina, que chorava, apoiada por Enzo, uma lágrima minha escapou. — Você tirou de mim o direito de ser mãe dela desde o início… — sussurrei. Ele franziu o cenho, irritado com a pressão dos olhares, seu tom mudou — sempre mudava quando se sentia encurralado. — Você precisava entender… eu fiz o melhor que pude! Aquela mulher era uma ameaça. Ela queria me destruir. Catharina era fruto de algo que nunca deveria ter acontecido! Foi como se me cortassem por dentro. — Ela é um MILAGRE! — eu gritei, as lágrimas finalmente caindo. — Uma vida que você teve a ousadia de esconder enquanto me fazia acreditar que eu não podia exercer a maternidade! Enquanto eu chorava noites inteiras desejando um filho… A sala estava cheia de silêncio e desespero, eu sabia que Pietro e Taylor escutavam cada palavra presos em sua própria dor — porque Eduardo também havia destruído partes da história deles. — Eu… — ele tentou falar, mas eu ergui a mão. — Você… tirou isso de mim. E ainda teve coragem… de me ver implorar a Deus por algo que você já tinha gerado com outra. E pelo qual nunca me contou. Ele recuou, mas não por culpa —por orgulho ferido. — Madalena… — sua voz desceu, ameaçadora, íntima. — Você sempre será minha. Com ou sem filhos, meu corpo inteiro arrepiou, não de amor. De medo. Rayane avançou um passo, mas Pietro segurou seu braço, o olhar fixo em Eduardo, como se prometesse que nada aconteceria à força, Catharina chorava ainda mais, e eu senti meu coração despedaçar por ela. Mesmo assim…Eu não a culpava, nunca culparia. Ela também era vítima, eu inspirei fundo, ergui o rosto e falei firme: — Nunca mais fale assim comigo. Ele soltou um meio sorriso, debochado, mas não teve tempo de responder,o interfone tocou. E minutos depois, a polícia entrou, Eduardo hesitou, mas Pietro, Taylor e Enzo estavam ali, prontos, firmes, protegendo-nos. Quando ele foi levado, não olhou para trás.Nem eu fiz A casa ficou em silêncio quando a porta se fechou. Silêncio e poeira de memórias quebradas. Todos estavam preocupados comigo, mas eu sorri com o pedaço de força que restou, pousando a mão na barriga de Catharina. — Meu amor, você precisa descansar. Essa casa não é lugar para você agora. — Eu não vou te deixar, mãe… — ela insistiu. Mas eu segurei suas mãos, e olhei dentro de seus olhos para falar com ela — Você precia manter calma, e agora se preocupar só com as crianças minha filha Por favor meu amor vá descansar, ela chorou, mas concordou. Enzo a levou para seu quarto para dormir. Rayane, Pietro e Taylor se despediram com promessas de voltar pela manhã. Fiquei sozinha,não…sozinha não.Sob os restos de uma vida inteira. Respirei fundo e caminhei até meu quarto, cada fotografia, cada perfume, cada roupa…cada objeto gritava o nome dele.Então eu agi. Tirei tudo, comecansdo pelos quadros, roupas, relógios…empurrei para sacos, malas, caixas,joguei tudo no corredor. Liguei para a empregada, e logo ela já me respondeu. — Peça para alguém pegar isso. Podem jogar fora. Ou levar para doação.Só… tirem da minha casa. Minha voz falhou na última frase, entao fui ao banheiro. Tirei a roupa, entrei no chuveiro, a água quente bateu nas costas e foi ali, só ali,que meu corpo cedeu. Desabei, e chorei até não restar voz. Deixei que cada lágrima levasse um pouco do peso da mentira, da traição,da dor. Demorou muito até eu sair, só de toalha, ainda trêmula, vesti uma camisola leve. Troquei a roupa de cama —Como se pudesse, com isso, remover os fantasmas. Tomei remédio para dor de cabeça, e deixei meu corpo ir relaxando e assim acabei dormindo. NÃO DEIXEM DE COMENTAR E TEM DE VOTAR COM BILHETE LUNAR.
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