Eu ainda lembro exatamente do dia em que a Victoria foi para a França,não porque tenha sido algo dramático aos olhos de quem via de fora, mas porque dentro de mim algo se quebrou de um jeito silencioso e definitivo. Ela disse que ficaria um tempo com a Jasmine, a prima que tinha decidido morar lá, e eu tentei agir como se fosse apenas mais uma viagem. Sorri. Desejei boa estadia. Disse que sentiria saudades. Tudo o que um homem covarde costuma fazer quando sabe que está perdendo algo e mesmo assim não tem coragem de lutar.
Nos primeiros dias, eu me mantive ocupado. Treinos, reuniões, compromissos com aliados, conversas intermináveis sobre territórios, rotas e acordos que nunca parecem terminar. A Itália sempre foi meu refúgio e minha prisão ao mesmo tempo. Desde os dezenove anos, moro aqui, respirando esse ar pesado de alianças perigosas, da Ndrangheta sempre observando cada passo meu, da Máfia Russa mantendo laços que parecem firmes, mas que eu sei que podem se romper a qualquer deslize. Mesmo assim, nenhuma dessas pressões me incomodava tanto quanto a ausência dela.
Foi por isso que decidi ligar. Uma chamada de vídeo. Algo simples. Ou pelo menos era o que eu pensei. Quando a tela se acendeu e o rosto da Vick apareceu, meu coração acelerou do mesmo jeito que sempre fazia. Ela estava diferente. Não fisicamente, mas havia algo novo no brilho dos olhos, uma leveza que eu não reconhecia como minha. Conversamos sobre coisas banais no começo. O frio da Rússia, o apartamento da Jasmine, as diferenças culturais. Até que, sem aviso, ele apareceu atrás dela.
Arthur.
Eu senti meu corpo inteiro enrijecer. A imagem dele ali, confortável demais, próximo demais, foi como um soco direto no estômago. Eu tentei manter a compostura, mas por dentro a raiva subiu quente, conhecida, antiga. Arthur sempre foi um problema para mim. Não importa quantas vezes digam que somos aliados, que ele é homem de confiança do Dom, que sua mente estratégica vale mais do que dezenas de soldados armados. Eu nunca gostei dele. Nunca confiei. Nunca engoli aquele ar de superioridade, como se ele estivesse sempre um passo à frente de todos nós.
Arthur sempre se achou mais inteligente do que os outros. E talvez fosse. Mas inteligência não dá o direito de desrespeitar ninguém, muito menos a mim. Desde que éramos mais novos, ele nunca me tratou como o herdeiro que sou. Sempre com comentários atravessados, olhares avaliadores, aquela postura de quem julga silenciosamente. Como se eu tivesse que provar meu valor o tempo todo. E o pior de tudo era meu pai.
Dom Matheu nunca fez questão de esconder as comparações. Arthur isso. Arthur aquilo. Arthur resolve. Arthur pensa. Arthur antecipa. Eu cresci ouvindo que precisava ser mais como ele. Mais frio. Mais calculista. Mais distante. Talvez por isso eu tenha desenvolvido essa rivalidade silenciosa, essa necessidade absurda de mostrar que eu era mais do que um sobrenome herdado.
Ver Arthur tão próximo da Victoria despertou tudo isso de uma vez. Ciúme, raiva, medo. Perguntei o que ele estava fazendo ali, tentando soar casual. Ela respondeu com naturalidade, dizendo que ele estava ajudando a Jasmine com algumas questões de segurança. Segurança. Sempre essa desculpa. Sempre esse papel de salvador que ele adora vestir.
Depois que a ligação terminou, eu não consegui pensar em mais nada. Passei a noite em claro, andando de um lado para o outro, com a imagem dos dois juntos martelando na minha cabeça. No dia seguinte, liguei de novo. Dessa vez, fui direto. Pedi para ela voltar. Disse que sentia falta dela. Que precisava dela aqui. Que a Itália era a casa dela.
Ela recusou.
Não houve discussão. Não houve gritos. Apenas uma negativa calma, firme, que doeu mais do que qualquer briga. Ela disse que precisava daquele tempo. Que estava se encontrando. Que eu precisava entender. E eu entendi. Entendi que minha indecisão tinha custado caro demais.
Os meses passaram lentamente depois disso. Meses em que eu me afundei ainda mais no trabalho, tentando ignorar a ausência dela. Meses em que as notícias que chegavam da Rússia sempre traziam o nome dele junto. Arthur isso. Arthur aquilo. Arthur auxiliando. Arthur presente. Eu me odiava por cada pensamento possessivo, por cada ataque de raiva silenciosa, mas não conseguia evitar. Eu sabia que tinha perdido espaço. E pior, sabia que a culpa era minha.
Quando ela voltou para a Itália, não foi por mim. Foi pela família. Laís e Catharina tinham brigado de forma feia, e a situação saiu completamente do controle. Catharina acabou no hospital, e a família inteira se mobilizou. Assim que soube, não pensei duas vezes. Fui até lá.
O hospital sempre me trouxe lembranças ruins. Cheiro de desinfetante, corredores silenciosos demais, aquela sensação de impotência que nenhum poder no mundo consegue apagar. Quando entrei no quarto, Vick estava lá. Mais madura. Mais distante. Ela sorriu ao me ver, um sorriso educado, gentil. Não aquele sorriso que antes me desmontava por inteiro.
Conversamos. Ela perguntou como eu estava. Eu perguntei como tinha sido a viagem. Falamos de Catharina, da recuperação, da família. Tudo certo demais. Cordial demais. Em nenhum momento houve aquele silêncio carregado de expectativa que sempre existiu entre nós. Em nenhum momento vi aquele olhar apaixonado que ela costumava ter quando me encarava, como se eu fosse o único homem no mundo.
Esse olhar não era mais meu.
Eu percebi isso quando Arthur entrou no quarto. Eles começaram a discutir, como sempre. Trocas de farpas, ironias, provocações disfarçadas de desprezo. Para qualquer pessoa de fora, parecia apenas antipatia mútua. Mas eu vi. Vi nos olhos dela algo que nunca mais vi quando me olhava. Intensidade. Presença. Atenção total.
Ali, parado, eu entendi. Não adiantava mais negar. Eu tinha perdido. Perdi a mulher que amei em silêncio por anos, por medo, por covardia, por me esconder atrás de promessas que nunca tive coragem de quebrar. Eu deixei que o tempo decidisse por mim. E o tempo decidiu contra.
Saí do hospital com o peito pesado, mas com uma certeza clara pela primeira vez. Eu não ficaria assim. Não ficaria preso à culpa para sempre. Se perdi Victoria, foi porque falhei. E falhas ensinam. Doem. Marcam. Mas também moldam.
Eu ainda sou Murilo. Herdeiro da Máfia Alemã. Aliado da Ndrangheta. Respeitado pela Máfia Russa. Filho de Dom Matheu. Mas, acima de tudo, sou um homem que aprendeu tarde demais que o amor não espera por quem hesita.
E essa lição, eu não vou esquecer.
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