13 Eduardo Narrando

1261 Palavras
Nove meses. É estranho como o tempo pode ser um inimigo silencioso quando a gente está preso. Aqui dentro, os dias não passam; eles se arrastam, se repetem, se misturam, até virarem uma coisa só. Eu já não conto mais pelas marcas na parede, nem pelo calendário que um dia tentei manter. Conto pelas dores no corpo, pelas cicatrizes novas e pelas lembranças que insistem em não me deixar em paz. Nove meses desde que tudo desmoronou. Eu continuo preso. E aprendi rápido que, se eu quisesse sair daqui vivo, precisaria fazer o que nunca imaginei: pedir ajuda a alguém que odeia minha família tanto quanto eu odeio o que fizeram com a minha vida. O ódio aproxima mais do que qualquer laço de sangue. Às vezes, é o único idioma que duas pessoas conseguem falar sem mentir. Essa pessoa também quer vingança. Quer ver o sobrenome da minha família no chão, pisoteado, exposto, do jeito que fizeram comigo. No começo, achei que era loucura confiar em alguém assim. Depois entendi que loucura seria não aceitar. Dentro dessas paredes, quem anda sozinho morre rápido. Foi assim que tudo começou. Passei a pagar os guardas. Um por um. Não todos, só os certos. Os que fecham os olhos na hora certa, os que avisam quando algo está para acontecer, os que garantem que minha comida não venha batizada, que minha cela não vire um palco de execução improvisada. Privilégios. Essa é a palavra bonita. Aqui dentro, privilégio significa continuar respirando. Não foi fácil. Dinheiro some rápido quando você está preso. Favor custa caro. Silêncio custa mais ainda. Mas eu fiz. Fiz porque eu não ia morrer ali. Não daquele jeito. Não antes de acertar as contas com quem merece. Eu já sei a verdade. Ruan está vivo. Meu filho está vivo. E Madalena… ela também. Pietro enganou a todos. Criou uma história tão bem montada que até eu, por um tempo, quase acreditei. Quase aceitei que tinha perdido tudo. Quase deixei a dor me consumir de vez. Mas não. A verdade sempre encontra um jeito de sangrar para fora. Quando eu descobri, foi como levar um soco e um abraço ao mesmo tempo. A alegria de saber que eles vivem se misturou com uma fúria que eu nunca tinha sentido antes. Pietro brincou com a morte. Com a minha sanidade. Com o luto de um pai, de um marido. Isso não vai ficar assim. Nunca ficaria. E do mesmo jeito que eu não aceito o que ele fez, eu também não aceito o fim do meu casamento com Madalena. Não aceito. Podem ter rasgado papéis, feito acordos, inventado versões. Nada disso muda o que existe entre mim e ela. Nada apaga o que a gente construiu, o que prometemos um ao outro, o que vivemos. Eu sei que ela sofreu. Sei que tentou seguir em frente. Sei que, muitas vezes, pensou que eu tinha morrido para ela. Mas eu estou aqui. Vivo. E vou voltar para ela. Essa certeza é o que me mantém de pé. Entre uma ameaça e outra, entre noites m*l dormidas e dias de tensão constante, algumas notícias chegaram até mim como pequenos raios de luz. Minha filha, Catharina, vai ser mãe de gêmeas. Quando soube, sentei na cama dura da cela e fiquei olhando para o nada, sorrindo feito um i****a. Chorei em silêncio, como um homem que já perdeu demais e não tem mais vergonha de sentir. Gêmeas. Minhas netas. Duas vidas chegando ao mundo enquanto eu ainda tento sobreviver ao meu próprio inferno. Eu prometi a mim mesmo que vou cuidar delas. Vou cuidar da Madalena. Vou cuidar da minha família. Do meu jeito. Longe de tudo isso. Porque eu estou preparando tudo para fugir. Cada detalhe. Cada rota. Cada contato. Quando eu sair daqui, ninguém vai nos achar. Ninguém. Vamos desaparecer. Criar uma vida nova, limpa das sombras que nos perseguem há anos. Um lugar onde meus passos não ecoem como sentença de morte, onde Madalena possa dormir sem medo, onde minhas netas cresçam sem saber o peso do nosso sobrenome. Eu não quero nunca mais voltar para a cadeia. Nunca mais. Aqui dentro eu vi o pior do ser humano. Vi homens se desfazerem por um prato de comida, vi alianças virarem traição em questão de minutos, vi gente morrer olhando nos olhos de quem prometeu proteção. Eu sofri. Sofri mais do que gosto de admitir. Há noites em que acordo com o corpo enrijecido, o coração disparado, achando que ainda estou sendo puxado pelos corredores escuros, ouvindo risadas atrás de mim. Mas eu aguentei. Porque eu tinha motivos. Porque eu tinha nomes gravados na cabeça. Porque eu tinha um futuro que me recusava a abandonar. Quando soube do nascimento das meninas, fiz questão de marcar aquilo de alguma forma. Não podia estar lá. Não podia pegar minhas netas no colo. Não podia abraçar minha filha. Mas podia fazer o que ainda estava ao meu alcance. Mandei entregar uma carta. Palavras escolhidas com cuidado, escritas e reescritas até não doer tanto. Junto, flores. As preferidas dela. As mesmas que eu costumava levar quando ela ainda era pequena e ficava doente. Queria que ela soubesse que eu estava ali. Mesmo longe. Mesmo preso. Mesmo quebrado. Depois disso, voltei para a minha sala. É engraçado chamar aquele lugar de sala. Um espaço pequeno, com uma mesa gasta, duas cadeiras e paredes que já ouviram mais segredos do que deveriam. Mas, comparado à cela comum, aquilo era quase um escritório. Mais um privilégio comprado com dinheiro e silêncio. Eu estava sentado, pensando em Madalena, imaginando o rosto dela, tentando lembrar do cheiro da pele dela, quando ouvi a porta se abrir. O guarda pigarreou. — Eduardo, você tem visita. Meu coração acelerou. Não por medo. Por expectativa. Havia alguém que me visitava com frequência. Sempre no mesmo dia, no mesmo horário. Alguém que fazia parte do plano. Alguém que sabia demais. — Manda entrar — respondi, mantendo a voz firme. Levantei o olhar, já preparado para ver aquele rosto conhecido, aquela expressão calculada, aquele sorriso que nunca chegava aos olhos. Mas não foi isso que eu vi. Por um segundo, achei que minha mente estava pregando uma peça. Que o cansaço finalmente tinha me enlouquecido. Porque ali, parado na minha frente, estava Ruan. Meu filho. Mais velho. Mais magro. Os olhos carregando coisas que nenhum pai gostaria de ver refletidas no olhar de um filho. Mas vivo. Tão vivo que doía. O ar sumiu dos meus pulmões. — Pai — ele disse, com a voz baixa, controlada, como se estivesse se segurando para não desabar. Levantei tão rápido que a cadeira caiu para trás. Em dois passos, estava na frente dele. Quis tocar, confirmar que não era imaginação. Coloquei a mão no ombro dele, senti o calor, a tensão, a vida pulsando ali. — Você… — minha voz falhou. — Você está vivo. Ele sorriu de canto, um sorriso triste, parecido demais com o meu. — Eu disse que estava. Aquele momento congelou tudo ao redor. As paredes, os guardas, a prisão inteira desapareceram. Só existíamos nós dois. Pai e filho. Unidos por mentiras, perdas e uma verdade que finalmente tinha nos alcançado. Eu soube, naquele instante, que nada seria como antes. Que o plano precisava ser acelerado. Que o tempo tinha acabado. Porque agora, não era mais só por mim. Era por eles. E eu faria qualquer coisa para garantir que, dessa vez, ninguém nos separasse de novo. Meta 50 comentários, não deixem de comentar meninas, e tem de colocar o livro em sua biblioteca.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR