14 Cont Eduardo

1498 Palavras
Eu fiquei olhando para o Ruan por alguns segundos que pareceram minutos inteiros. O rosto dele estava duro, fechado, sem vestígio do menino que um dia correu pela casa chamando meu nome. O olhar firme, sério, carregado de ódio. Um ódio que eu conhecia bem, porque também morava dentro de mim. Ele não desviou os olhos. — Oi, papai — disse, com um meio sorriso frio. — Feliz em saber que você não conseguiu me matar. Aquelas palavras bateram em mim como um soco direto no peito, mas eu não demonstrei. Aqui dentro, mostrar fraqueza é assinar a própria sentença. Apoiei as mãos na mesa, inclinando levemente o corpo para frente. — O que você está fazendo aqui? — perguntei, a raiva subindo rápido demais. — Veio terminar o que começou? Ruan soltou uma risada curta, sem humor. — Relaxa. Não vim te matar. Ainda. Ele respirou fundo, como se estivesse se controlando. — E antes que pergunte, Laura também está viva. Meu maxilar travou. Pietro não tinha mentido só uma vez. Ele tinha criado um teatro inteiro, um cemitério de mentiras para nos enterrar vivos. Mas isso não apagava o fato de que Ruan estava ali, na minha frente, me desafiando dentro da minha própria sala. — Você acha mesmo que tem coragem de vir aqui me ameaçar? — rosnei. — Você não faz ideia do que eu já estou preparando. Eu não estou sozinho. E muito em breve eu vou sair dessa cadeia. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. — Foi exatamente por isso que eu vim — respondeu. — Pra te avisar que você não vai mandar mais nada pra minha mãe. Nem cartas, nem flores, nem recados. Nada. Eu estou de volta. E não vou deixar você fazer m*l a ela. Meu riso escapou antes que eu pudesse conter. — Você sempre foi fraco, Ruan. Os olhos dele faiscaram. — Você não vai chegar perto da Catharina. Nem das minhas sobrinhas. E muito menos da sua filha, Laís — continuou, a voz firme. — Se tentar, eu juro que você morre nessa cadeia. Foi impossível não rir dessa vez. Uma gargalhada aberta, alta, ecoando pelas paredes. — Você ainda acha que pode me assustar? — perguntei, limpando uma lágrima de riso do canto do olho. — Eu não tenho medo de você. Nunca tive. Ele cerrou os punhos. — Você é um monstro. — Talvez — respondi. — Mas sou um monstro livre por dentro. Diferente de você, que vive preso a ilusões de justiça. Inclinei a cabeça, encarando-o. — Eu vou fazer o que eu quiser. Principalmente me vingar de todos. De todos que ousaram me expor. Gabriel… Laís… — cuspi os nomes. — Ela fez questão de mostrar ao mundo quem eu era de verdade. E isso não vai ficar assim. O silêncio entre nós ficou pesado. — A única coisa que eu quero é o que sempre foi meu por direito — continuei. — A herança. Eu deveria ter sido o único a ficar com tudo. Com o nome. Com o legado. Com o poder. E eles me tiraram isso. Ruan respirava com dificuldade. — Em breve — acrescentei — eles vão sofrer. Muito. E enquanto isso, eu vou estar bem longe. Com a Madalena e com as minhas netas. Nós vamos criar aquelas meninas como uma família de verdade. Longe de vocês. A expressão dele mudou. Dor. Nojo. Fúria. — Ninguém nunca vai descobrir onde eu estarei — finalizei. — E eu vou assistir todos vocês sofrerem à distância. Vocês vão se lembrar de mim pelo resto da vida. Foi quando ele explodiu. — Você não tem coração! — gritou. — Você matou a minha mãe pra ela não falar quem você era de verdade! Aquelas palavras ficaram suspensas no ar. — Você viciou a mãe da Catharina — continuou, com os olhos marejados. — Destruiu tudo o que tocou. Mas você vai pagar. Eu prometo. Eu apenas sorri. Ruan me encarou por mais alguns segundos, como se quisesse gravar meu rosto na memória. Depois virou as costas e saiu, deixando a porta se fechar atrás dele com um som seco. Fiquei ali, sozinho, rindo baixo. Eles ainda não entendiam. Minha vingança estava só começando. Quando a porta se fechou atrás do Ruan, o som ecoou mais alto do que deveria. Não foi só o barulho do metal contra o metal. Foi o fim de uma conversa que nunca teria reconciliação. Fiquei alguns segundos parado, encarando o espaço vazio onde ele esteve, sentindo aquela mistura amarga de orgulho ferido e desprezo. Meu próprio filho. Criado com tudo, educado para entender como o mundo realmente funciona… e ainda assim fraco. Sentimental demais. Achando que ameaças vazias poderiam me deter. Balancei a cabeça, respirando fundo, até o guarda bater duas vezes na porta, avisando que o tempo havia acabado. — Vamos, Eduardo — disse ele, seco. — Hora de voltar. Levantei devagar, ajeitando a postura. Nunca dei a eles o prazer de me ver curvado. Passei pelo corredor sob olhares curiosos, alguns invejosos, outros carregados de ódio. Eu sentia tudo isso como combustível. Cada passo até minha cela individual era um lembrete de que, mesmo ali dentro, eu ainda movia peças. A cela se fechou atrás de mim com o clique familiar. Pequena, silenciosa, organizada demais para um lugar como aquele. Um privilégio que eu tinha comprado. Encostei as costas na porta por um instante, fechando os olhos, deixando a adrenalina baixar. O rosto do Ruan voltou à minha mente, o olhar duro, as acusações cuspidas como se fossem verdades absolutas. Ele ainda não entendia nada. Caminhei até a cama, sentei, e puxei o colchão com cuidado, do jeito exato. O celular estava ali, onde sempre ficava. Pequeno, simples, mas mais poderoso do que qualquer arma naquele lugar. Segurei o aparelho na mão por alguns segundos, sentindo o peso simbólico daquilo. Comunicação. Controle. Futuro. Disquei o número que sabia de cor. Chamando. O sinal tocou uma vez. Duas. — Fala — a voz do outro lado veio baixa, calma, carregada de ironia. — Achei que só ligaria amanhã. Sorri. — O plano deu certo — respondi. — Ele veio até aqui hoje. — Ruan? — perguntou, já sabendo a resposta. — O próprio. Saiu daqui agora há pouco, se achando o salvador da família. Uma risada curta ecoou do outro lado da linha. — E o que ele quis? — Mandar eu ficar longe da Madalena — falei, com desdém. — Da irmã, da filha, das sobrinhas, dos netos… Como se ainda tivesse esse poder sobre mim. — Que fofo — a pessoa comentou, rindo mais uma vez. — Ele realmente acredita que pode te impedir. — Acredita — confirmei. — Mas isso só deixa tudo melhor. Eles acham que estão no controle. Acham que me encurralaram. E é aí que erram. Houve um breve silêncio. Eu podia imaginar o sorriso do outro lado. — Fica tranquilo — disse a voz, agora mais séria. — Daqui a três meses, tudo estará pronto. Fechei os olhos, encostando a cabeça na parede fria. — Três meses — repeti. — No dia em que eu for levado ao fórum. — Exatamente — confirmou. — O julgamento vai ser um teatro. Todos os olhos em você. Advogados, imprensa, família… E no meio disso, você escapa. Meu coração bateu mais forte. — E depois disso — continuei — eu faço o que preciso fazer. — Depois disso — respondeu — você se vinga de todos que te fizeram m*l. Um por um. Do seu jeito. Sorri mais uma vez, sentindo o gosto da vitória antecipada. — A casa está pronta? — perguntei. — Totalmente — garantiu. — Isolada, segura, do jeito que você pediu. Preparada para receber as convidadas especiais. Convidadas. A palavra soou doce. — Madalena vai gostar — falei, com convicção. — E as meninas também. — Ninguém vai encontrar vocês — disse a voz. — É como se nunca tivessem existido. — Perfeito — murmurei. — É exatamente isso que eu quero. Ficamos em silêncio por alguns segundos, como dois jogadores observando o tabuleiro antes do movimento final. — Descansa — ele disse por fim. — Logo, tudo isso acaba. — Não — corrigi. — Logo, tudo começa. Desliguei o telefone antes que ele respondesse. Guardei o celular no mesmo lugar de sempre, deitei na cama e encarei o teto manchado. A imagem do Ruan voltava à minha mente, junto com as acusações, os gritos, a promessa vazia de justiça. Ele realmente acreditava que eu morreria ali dentro. Que a cadeia seria o meu fim. Sorri no escuro. Eles sempre subestimam o quanto eu sou capaz de esperar. Fechei os olhos, deixando o cansaço finalmente me alcançar. Pela primeira vez em muito tempo, o sono veio rápido, pesado, sem pesadelos. Porque agora eu sabia: o plano estava em movimento. E quando eu saísse dali, ninguém estaria preparado para o que viria depois. META 50 COMENTÁRIOS, NÃO DEIXEM DE COMENTAR.
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