Há dores que não passam. Elas apenas aprendem a ficar em silêncio dentro da gente. Eu descobri isso com o tempo, da forma mais dura possível. Tudo o que vivi com Eduardo deixou marcas profundas, algumas visíveis, outras enterradas tão fundo que só aparecem quando menos espero. As descobertas, as mentiras, os horrores escondidos atrás de um homem que eu amei… nada disso foi fácil de aceitar. Houve dias em que respirar parecia um esforço desumano. Houve noites em que chorei até o corpo não aguentar mais.
Mesmo assim, eu sobrevivi.
E, de alguma forma que nem eu sei explicar direito, hoje eu consigo dizer que estou feliz.
Não uma felicidade completa, perfeita, dessas que aparecem em filmes. Mas uma felicidade real, possível. Daquelas que nascem apesar da dor, não por causa da ausência dela.
Eu vivo com a minha neta Laís. Ter ela comigo mudou tudo. O jeito que ela sorri quando me vê pela manhã, as mãozinhas pequenas segurando meus dedos, o som da risada dela enchendo a casa… Laís me salvou sem nunca saber. Ela me devolveu um sentido que eu achei que tinha perdido para sempre. Em cada gesto dela, eu lembro que a vida continua, mesmo quando a gente acha que não tem mais forças.
E então veio a notícia que virou meu mundo de cabeça para baixo outra vez.
Ruan está vivo.
Meu filho está vivo.
Lembro exatamente do dia em que descobri. Sentei no sofá e fiquei olhando para o nada, tentando entender como era possível sentir tanta coisa ao mesmo tempo. Alívio, alegria, choque, raiva, medo. Tudo misturado. Chorei como não chorava há meses, talvez anos. Chorei porque pensei que tinha enterrado meu filho. Chorei porque o abracei na memória tantas vezes achando que nunca mais faria isso de verdade.
E Laura também está viva. Minha nora. A mulher que sempre esteve ao lado dele, mesmo quando o mundo parecia desmoronar. Saber que eles dois sobreviveram foi como respirar depois de muito tempo submersa.
Eu não quero mais guerras. Não quero vingança. Não quero olhar para trás o tempo todo. Tudo o que eu desejo agora é viver em paz. Ser mãe, ser avó, cuidar da minha família do jeito mais simples possível. Cozinhar para eles, ouvir histórias, ver as crianças crescerem.
Mas, ultimamente, algo tem me incomodado.
Uma sensação estranha. Difícil de explicar.
Às vezes, quando saio para ir ao mercado, sinto como se alguém estivesse me observando. Não é nada concreto. Não vejo ninguém específico, não noto carros parados tempo demais, nem passos atrás de mim. É mais… um arrepio. Um peso no ar. Como se eu não estivesse realmente sozinha.
Outras vezes, quando vou à casa dos meus filhos, essa sensação volta. Um desconforto silencioso, quase invisível. Eu tento afastar esses pensamentos. Digo a mim mesma que é só trauma, consequência de tudo o que vivi. Meu corpo ainda em estado de alerta, minha mente tentando me proteger de perigos que talvez nem existam mais.
Provavelmente não é nada demais.
O tempo passou. Três meses se passaram desde o dia em que Catharina deu à luz às gêmeas. Cristina e Luara chegaram ao mundo trazendo luz, bagunça e amor em dobro. Desde então, a casa nunca mais foi a mesma. Sempre há alguém chorando, alguém rindo, alguém pedindo ajuda. E eu amo isso.
Quando Enzo me chamou para morar com eles, confesso que hesitei. Tinha medo de ser um peso, de atrapalhar a rotina, de invadir um espaço que não era mais meu. Mas ele foi firme, carinhoso, insistente. Disse que Catharina precisava de mim. Que as meninas precisavam de mim. Que eu também merecia estar cercada de gente que me ama.
Ruan concordou na mesma hora. Disse que ficaria mais tranquilo sabendo que eu estaria ali, protegida, cercada pela família.
Eu aceitei.
E foi uma das melhores decisões que já tomei.
Hoje, as meninas fazem um aninho. Um ano de vida. Um ano de noites m*l dormidas, fraldas trocadas, mamadeiras, choros e risadas. Um ano de amor intenso. A festa está linda. Tudo foi preparado com tanto cuidado que meu coração se aperta só de olhar.
Balões em tons suaves, flores delicadas, uma mesa decorada com o nome delas em letras douradas. Cada detalhe carrega carinho. Eu ajudei em tudo o que pude. Desde escolher os enfeites até provar o bolo, dando minha opinião como se isso fosse a coisa mais importante do mundo.
Agora, estou no quarto, terminando de me arrumar.
O vestido está estendido sobre a cama. Um tom claro, simples, elegante. Prendo o cabelo com calma, observando meu reflexo no espelho. Vejo uma mulher diferente daquela que fui anos atrás. Mais cansada, talvez. Mas também mais forte. Mais consciente de quem é.
Passo um batom leve, quase nada. Não quero exagerar. Hoje não é sobre mim. É sobre Cristina e Luara. Sobre celebrar a vida delas.
Ouço vozes lá embaixo. Risadas. Passos apressados. O som de alguém chamando meu nome. Sorrio sozinha. É isso que eu quero. Barulho. Vida. Presença.
Por um instante, enquanto coloco os brincos, aquela sensação estranha volta. Um arrepio percorre minha espinha, como se alguém estivesse muito perto, mesmo não estando. Olho ao redor do quarto. Está tudo normal. A janela fechada. A porta encostada. O corredor silencioso.
Respiro fundo.
— É só coisa da minha cabeça — murmuro para mim mesma.
Ajusto o vestido uma última vez, pego a bolsa e caminho até a porta. Antes de sair, paro por um segundo. Não sei por quê. Apenas sinto vontade de fechar os olhos e fazer um pedido silencioso.
Que nada estrague esse dia.
Que minhas netas cresçam em paz.
Que minha família finalmente encontre descanso.
Abro a porta e começo a descer em direção ao salão de festas. As luzes estão acesas, a decoração brilha, e o som das conversas se mistura com música suave. Quando coloco o pé no último degrau, alguém me chama, e eu sorrio, deixando tudo o que pesa para trás, pelo menos por agora.
Hoje, eu escolho ser feliz.
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