Completei vinte e seis anos há pouco tempo, e se tem uma coisa que aprendi nesse último ano é que nada permanece igual por muito tempo. Nem pessoas, nem sentimentos, nem planos. Tudo muda, mesmo quando a gente insiste em fingir que está no controle. Hoje sou CEO da empresa da família, herdeiro de um império construído com sangue, contratos e silêncio, e também faço parte de um mundo que poucos conhecem de verdade. A máfia não é apenas poder, é responsabilidade, é peso. E eu carrego isso todos os dias, mesmo quando ninguém percebe.
Victoria também mudou. Ou talvez eu só esteja enxergando agora.
Ela voltou a morar no apartamento que era da prima Jasmine, depois que a mesma decidiu retornar para a Itália, terminou a faculdade e se casou. Agora Victoria divide o espaço com Benicio, o primo mais novo, que ainda está aprendendo como o mundo funciona. Ela estuda, trabalha na empresa da família, cria projetos, discute comigo e finge que não me afeta. Mas afeta. Sempre afetou. O problema é que admitir isso nunca foi uma opção confortável.
Saí da sede da máfia naquela manhã com a cabeça cheia. Reuniões longas, decisões difíceis, alianças que precisam ser mantidas mesmo quando não se confia totalmente. A cidade ainda estava despertando, e o movimento começava a se intensificar quando a vi. Victoria. Dirigindo com segurança, os cabelos soltos, concentrada no trânsito, seguindo em direção à empresa. Benicio estava ao lado dela, conversando animado sobre alguma coisa que eu não consegui ouvir. Observei enquanto ela estacionava na garagem, desligava o carro e respirava fundo antes de descer. Esse gesto sempre me chamou atenção. Como se ela estivesse se preparando para uma batalha diária.
Esperei. Não por estratégia. Por impulso.
Vi os dois entrarem no elevador e só então desci do carro. A ideia surgiu como uma provocação silenciosa. Algo infantil, talvez. Mas irresistível. Abaixei-me ao lado do carro dela e esvaziei um dos pneus com cuidado, sem deixar rastros óbvios. Um pequeno problema, facilmente resolvido, mas suficiente para criar uma oportunidade. Quando me levantei, sorri comigo mesmo. Não me orgulhava disso, mas também não me arrependia.
Subi para minha sala e mergulhei no trabalho. Reuniões com investidores, ligações internacionais, relatórios intermináveis. O lançamento das joias e do perfume estava próximo, e apesar de eu fingir indiferença, sabia que o projeto tinha a essência de Victoria e Camille. Era impossível negar o talento delas. A homenagem à senhora Clara, esposa do mafioso Carlos, era elegante, delicada e poderosa. Tudo o que uma mulher forte representa. Talvez por isso estivesse dando tão certo.
Quando vi Camille sair da sala da Victoria mais cedo, soube que aquele momento chegaria. Esperei alguns minutos e então fui até lá. Abri a porta sem bater, como sempre faço. Ela estava concentrada, olhando para o computador, os cabelos presos de forma desleixada, uma mecha caindo sobre o rosto. Irritante como alguém pode ser bonita sem esforço.
Perguntei se ela já tinha terminado os desenhos com Camille. O tom saiu mais duro do que eu pretendia. Ela levantou os olhos devagar, aquele olhar que mistura desafio e cansaço, e respondeu que sim, que tudo estava pronto, como se eu estivesse duvidando da competência dela. A discussão foi inevitável. Chamei-a de mimada. Ela me chamou de ignorante. Palavras afiadas, orgulho ferido, silêncio pesado. Saí da sala irritado, batendo a porta com mais força do que o necessário.
Voltei para minha sala tentando me concentrar, mas Eduardo estava lá. Meu amigo, meu aliado, alguém que me conhece mais do que eu gostaria. Assim que me viu, começou a rir. Um riso alto, debochado, daqueles que fazem a gente querer socar alguém. Servi-me de um whisky, precisava disso. Reclamei dela, disse que Victoria se acha mais do que é, que não respeita hierarquia, que vive me desafiando. Eduardo apenas riu mais ainda. Disse que eu estava apaixonado pela mimada. Mandei ele calar a boca e sair da minha sala. Ele saiu rindo, como se tivesse certeza de algo que eu me recusava a admitir.
As horas passaram devagar. Resolvi pendências da máfia, respondi mensagens, fiz ligações estratégicas. Mas meus olhos sempre iam para o relógio. Quando vi que já passava das sete da noite, levantei e fui até a janela. Victoria estava saindo. Caminhava apressada, falando sozinha, claramente irritada. Observei de longe quando ela chegou ao carro e percebeu o problema. Xingou baixo, pegou o celular, provavelmente para ligar pedindo ajuda. Sorri. Depois fiquei sério. Era hora de entrar em cena.
Desci até o estacionamento e me aproximei com calma. Perguntei se ela queria carona. Ela me olhou desconfiada, respirou fundo e aceitou. Entrou no carro sem dizer muito. O silêncio entre nós era denso, carregado de coisas não ditas. Dirigi em direção ao apartamento dela, mas quando vi, já estava entrando no caminho do restaurante que costumo frequentar. Perguntei se ela queria jantar. Ela disse que não. Ignorei.
Estacionei. Descemos. O restaurante era elegante, discreto, exatamente do jeito que eu gosto. Fomos conduzidos até a mesa de sempre. O garçom veio, fiz o pedido por nós dois, pedi vinho. Victoria revirou os olhos, mas não protestou. Conversamos sobre coisas aleatórias. O trabalho, o trânsito, a cidade. Pequenos silêncios se intercalavam com comentários irônicos. Quando a comida chegou, percebi que ela estava mais relaxada, mesmo que não admitisse.
Depois do jantar, levei-a para casa. O caminho foi silencioso, mas diferente. Não havia raiva, apenas algo suspenso no ar. Quando estacionamos em frente ao prédio, ela agradeceu. Um agradecimento simples, quase tímido. Observei enquanto ela entrava, e só então percebi que algo tinha mudado. Talvez em mim. Talvez nela. Talvez em nós dois.
Fiquei ali por alguns minutos antes de ir embora. O volante firme sob minhas mãos, o coração inquieto. Eu tinha poder, dinheiro, controle. Mas com Victoria, nada disso funcionava. E talvez esse fosse exatamente o problema. Ou a solução.
Não sabia o que viria a seguir. Só sabia que aquele jogo tinha começado muito antes de eu perceber. E que, gostando ou não, eu já estava dentro dele.
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