O PACTO DOS CINCO E O EVANGELHO DO CRIME.
NARRADO POR MURILO FERREIRA
A noite na Vila não é pra amador, é pra quem tem o couro grosso e a alma blindada. O ar aqui em cima é diferente de tudo o que esses playboys de condomínio conhecem; é um oxigênio pesado, carregado com aquele cheiro ácido e metálico de pólvora que parece que nunca sai das narinas, impregnando até o pensamento. É uma mistura de mofo de reboco antigo, esgoto aberto e aquela fumaça preta de óleo diesel que sobe da principal e fica estagnada entre as telhas de brasilit. Eu tava ali, estático, fundido com a escuridão, como se eu fosse uma extensão natural daquela construção inacabada. Meus pés tavam plantados no cimento bruto da mureta, sentindo cada vibração, cada estalo das motos que cortavam as vielas lá embaixo como se fossem navalhas rasgando o silêncio.
O fuzil curto, meu parceiro de todas as horas, o único que nunca mentiu pra mim, tava atravessado no peito a bandoleira apertada até o talo, marcando o ombro, mas eu não tava em posição de troca de tiro. Eu tava em posição de visão. Eu era o radar, o vigia e o carrasco daquele inferno particular.
Eu sou o Murilo Ferreira. Pro sistema, eu sou só um número que eles querem riscar; pros comédia que tentam atravessar meu caminho, eu sou o pior pesadelo que eles já tiveram; pra rua, eu sou o Fantasma. Meu nome corre os becos como se fosse vento, sussurrado com respeito ou medo. A Civil gasta milhões, frita os neurônios e faz reunião de cúpula pra tentar desenhar meu rastro, mas eu me movo no vácuo, no silêncio que precede a tempestade. Se eu cheguei no topo dessa pirâmide de sangue, não foi por sorte ou por herança. Foi porque eu tinha quatro loucos varridos do meu lado que decidiram, um dia, que o mundo era pequeno demais pra nossa fúria e que as migalhas do sistema não alimentavam a nossa fome de poder.
O som da rua mudou de repente. O barulho de fundo o funk distante distorcido, o choro de criança no barraco vizinho, o latido rouco de vira-lata foi engolido por um rugido metálico, grosso, de motor mexido. Lá na entrada da principal, os faróis riscavam o asfalto como bisturis. Não era incursão dos vermes. Eu conhecia aquela sinfonia. Era o som da liberdade deles, o barulho de quem não pede licença pra existir. Aquele estalo de motor acelerando no corte, as explosões dos escapamentos avisando que o Bonde tava em casa e que a cidade tinha sobrevivido a mais uma noite de terror nas mãos deles.
Ouvi o primeiro impacto na escada de ferro. Um som seco, oco, bota batendo no metal sem nenhuma preocupação com a discrição, denunciando a adrenalina de quem subia os degraus de três em três, com o coração saindo pela boca e a alma em transe.
— “AÍ, p***a! QUEM TEM MEDO DE MORRER NÃO NASCE, c*****o! QUEM TÁ NO TOQUE É A GENTE, O RESTO É PAISAGEM!” — O grito do Faísca rasgou a madrugada antes mesmo de eu ver a sombra dele projetada na parede de tijolo baiano.
Eles invadiram a laje como uma horda de bárbaros modernos. O Faísca apareceu primeiro, com aquele riso de psicopata que ele carrega desde moleque, a cara suada e a jaqueta de couro aberta, mostrando o radinho que não parava de chiar na frequência da polícia. O maluco tinha acabado de trocar carinho com o choque e tava rindo alto, como se a morte fosse só uma piada m*l contada num boteco de esquina.
Logo atrás, o Neguim vinha naquela ginga de quem é dono do chão que pisa, uma postura de quem não se abala nem se o mundo acabar em fogo, rindo de alguma palhaçada que o Pulga soltou lá no meio da escada. O Gargalo fechava a marcha, o semblante fechado, a visão de águia conferindo a retaguarda a cada segundo, mas com aquele brilho de satisfação no olho de quem sabe que o terror foi bem aplicado e que a missão foi cumprida com louvor.
Eles tomaram conta da laje. A zoeira deles batia nas caixas d’água e ecoava por toda a Vila, um som de vitória que incomodava os vizinhos mas que trazia segurança pra quem é da nossa raça. Tavam no veneno, tavam na euforia pura de quem sabe que o sobrenome Ferreira é a única lei que funciona de verdade aqui dentro, a única que protege e que pune.
— “Murilo, tu tinha que ver a cena, mano! Os policinha de choque ficaram tudo em choque, literalmente! Pareciam barata tonta quando a luz acende!” — Faísca encostou perto de mim, gesticulando com o fuzil como se fosse uma extensão do próprio braço, a gíria saindo estalada e seca. — “Os comédia travaram no canteiro, parça! Nem tentaram o bote. Sabem que se botar a cara, o Bonde amassa sem dó! É o bonde, c*****o! É o Ferreira na pista, o resto é desvio!”
— “E o Pulga, patrão? O desgraçado quase foi pro chão porque tava querendo filmar a cara dos Rota pra postar no status e ganhar curtida de novinha!” — Neguim completou, dando um tapa pesado na nuca do Pulga, que já tava enfiando a mão no isopor e tirando uma latinha de cerveja estupidamente gelada sem nem pedir licença pro dono da casa.
— “Ah, Murilo, tem que registrar a humilhação do Estado, pô! Se não postar, os cara acham que é mentira!” — Pulga retrucou, a voz fina saindo entre um gole e outro, a audácia transbordando. — “Os cara fingem que mandam e a gente fingem que tem medo. O asfalto é nosso tapete, o sistema é nossa piada diária e a cadeia é só um intervalo pra gente planejar o próximo round!”
Eu continuei parado, feito uma estátua de gelo. Olhei pro horizonte, onde as luzes de São Paulo brilhavam como se fossem diamantes falsos. De um lado, os prédios de luxo dos Jardins, com seus playboys cheirados dormindo em berço de ouro sob o edredom de marca; do outro, a gente, que conquistou cada centímetro desse morro com ferro, fogo e determinação cega. Aquela irmandade ali na laje era tudo o que eu tinha de real nessa vida. Éramos nós cinco contra o mundo, desde a época que a gente dividia uma coxinha murcha e um suco de saquinho na escada do colégio de elite, sendo olhado com nojo e superioridade pelos playboys que hoje tremem quando ouvem meu motor. Hoje, o nojo deles virou pavor absoluto. O sobrenome que faz o asfalto tremer e o cu do juiz fechar não é o deles, é o meu.
Ajustei o fuzil no peito e me virei devagar, encarando cada um. A postura era de pai e de carrasco ao mesmo tempo. A zoeira deles baixou um tom automaticamente. Não era medo, era hierarquia. Era respeito por quem já sangrou por eles. Mas o deboche continuava vivo no olhar de cada um, aquela centelha de revolta que nunca apaga.
— “Cês tão fazendo barulho demais pra quem tá com a cabeça a prêmio pelo governo, bando de imbecil.” — Soltei a voz, rouca, vindo lá do fundo da alma, como um trovão distante. — “A rua tá falando, e o que chegou no meu ouvido através da Melissa é que o Estado tá preparando um bote que vai fazer o inferno parecer parque de diversões da Disney. Os cara tão mordidos, tão com sangue nos olhos porque a gente tá humilhando a farda deles todo santo dia.”
Faísca deu um passo à frente, o rosto suado brilhando sob a lâmpada fraca e amarelada da laje. O clima de comédia evaporou por um segundo, dando lugar pro peso da realidade fria e cortante. O fuzil dele bateu no joelho, e ele sustentou meu olhar sem piscar.
— “Pois que venham, Murilo. Tu sabe qual é a regra. Tu sabe o que a gente escreveu em cada muro dessa Vila com sangue, tinta e ódio. A gente não é de correr, a gente é de peitar. Se o destino é a vala ou a tranca, a gente vai de cabeça erguida.”
Eu olhei pra cada um deles. Neguim, Gargalo, Faísca, Pulga. Meus irmãos de guerra. Minha família de crime. Senti aquele arrepio de quem sabe que a morte tá vindo, mas que a companhia é a melhor possível pra essa viagem sem volta.
— “Eu sei.” — Respondi, sentindo o peso do pacto esmagando qualquer dúvida. — “Cai um, cai geral. Ninguém fica pra trás, ninguém vira as costas pro irmão.”
— “CAI UM, CAI GERAL! É NOIZ ATÉ DEPOIS DO FIM, c*****o!” — Eles gritaram em coro, as vozes engrossando na laje, um pacto de sangue que nem o tempo, nem a cadeia e nem a morte conseguiram apagar em mas de vinte anos de caminhada.
— “O Faísca tá certo, Murilo.” — Gargalo encostou na mureta do meu lado, olhando pra mesma escuridão que eu, a voz de quem já viu de tudo. — “O asfalto tá pequeno pra nós. A zoeira é só pra mostrar que ninguém segura o império dos Ferreira. Se tentarem arrancar um de nós, a gente derruba o mundo, explode a ponte e incendeia a cidade pra buscar. O Fantasma não perdoa, e o Bonde não deixa ninguém pra trás. Nunca. A gente é carne e unha, osso e bala.”