Não deu tempo de desistir e encerra a ligação porque ele atendeu no segundo toque. Agora era tarde, eu não podia bater o telefone na cara dele.
- Melissa?
- Sim, lembra de mim não é?
Ouvi uma risadinha baixa do outro lado da linha.
- Não tenho como esquecer tão rápido uma pessoa que me deu um prejuízo de 5 mil reais.
Embora o tom fosse de brincadeira, eu me senti meio culpada.
- Se quiser eu devolvo.
- Claro que não menina, tudo bem com você?
Deitei no sofá aproveitando o silencio da casa no final da tarde. Eu tinha ainda meia horas antes de pegar o Rian na creche.
- Tudo bem sim, e... você?
- Tudo ótimo. É... existe uma criança mesmo?
Franzi a testa confusa.
- Não entendi.
- Você tem mesmo um filho?
Ele achava que eu tinha inventado?
- Claro que tenho, o que achou? Que eu tentei te sensibilizar contando uma mentira.
- Muitas fazes isso.
- Eu não faço.
- Tudo bem, também achei que você não tinha cara de mentirosa.
Que cara de p*u!
- Obrigada.
Ele riu.
- Por nada.
- Não precisava mandar a comida, você já tinha me dado o dinheiro.
- Pensei que pudesse gastar com oura coisa e deixar a criança com fome.
Aquele cara era de falar as coisas na lata.
- Gastar com que?
- Não sei. Drogas, bebida, roupas... sei lá.
- Não uso drogas, não bebo e não sou vaidosa.
- Hum, que casar comigo?
Ele tinha senso de humor.
- Engraçadinho.
Olhei o relógio e levantei de um pulo.
- Nossa! Estou atrasada pra pegar meu filho na creche.
- Calma garota, é muito longe?
- Não, é aqui na rua mesmo.
- Então deixa de desespero.
Fui andando pela sala, calçando os sapatos e ajeitando a roupa. Coloquei o telefone no viva voz e ajeitei meus cachos no vidro da tv.
- Quantos anos tem seu filho?
- Três.
Falei mais alto pra ele ouvir.
- Já tem alguma promessa de emprego?
- Nada, mas amanhã eu vou sair por ai pra ver umas vagas que anunciou no jornal ontem.
- Não desanima não, vai dar tudo certo.
- Vai si, eu acredito.
- Não voltou no bar do Hugo não é?
Vixe, a voz dele mudou num piscar de olhos.
- Não. Não voltei e espero não precisar.
- Bom assim.
- Obrigada de novo.
- Certo. Se cuide e cuide do seu filho. Eu vou arrumar umas coisas aqui. Vou viajar amanhã.
Viajar? Ele ia embora?
- Viajar... pra onde?
- Eu vou fazer um trabalho na Itália.
Arregalei os olhos.
- Na Itália mesmo? fora do pais?
- Sim.
- Você trabalha de que?
- Eu sou guarda-costas.
- Hum, isso não é perigoso não?
- É.
- E porque você faz?
- Alguém tem que fazer não é?
-Verdade. Ei, preciso ir agora, já estou atrasada.
- Tudo bem, vá cuidar do seu filho.
- É... boa viagem, você vai ficar quando tempo lá?
- Uma semana.
- Ah, é rápido.
- Sim. Bom... se precisar de alguma coisa pode me mandar mensagem.
O que ele achava que eu ia precisar?
- Não vou precisar de nada não.
- Então tá... tchau Melissa.
- Tchau Rony.