Mesmo estando tão perto, estou tão longe.

696 Palavras
Saul: O dia amanheceu fresco, as latarias molhadas, e eu aqui olhando pelas telas enquanto minha pequena ainda dorme essa noite foi tranquila, mas é aquela calma antes da tempestade não podemos nos confiar. -Davi: Vou dormir. Davi chega de mansinho com uma xícara de café passado, espumando, cara de sono. — Vai na fé Falo, acenando em agradecimento pelo café na verdade, se não fossem eles me lembrarem de tomar e comer, acho que eu até esqueceria abro minha agenda de couro surrada e começo a desenhar um balanço quero fazer um pra ela agora não, mas quando puder fazer a estufa, ela gostava de ir no parquinho e sempre me pedia pra balançar. Ela dizia que gostava do vento no rosto... Suspiro, lembrando que algum dia isso vai voltar a ser realidade tenho fé. Olho de relance a tela da câmera 9 a Sofia trazendo os cafés, mexendo o corpo, acho que dançando essa acorda feliz, nunca tá de mau humor ela chega batendo e gritando o de costume eu só olho pra ela, sério. -Sofia: Cara amarga, sempre! Chupa um doce! — Nem vou te responder vai acordar ela? -Sofia: Não, tu vai. — Mas... -Sofia:Saul, deu de enrolar ela tá lembrando aos poucos, precisa te ver mais vezes. — Mas se ela piorar? -Sofia: Não vai piorar aqui tá a bandeja com as coisas, vai lá. Eu fico olhando ela me obriga a pegar a bandeja e se vai, piscando o olho eu não sei se isso tá certo respiro fundo, olho pra tela, ela tá se mexendo é hora de ir vou caminhando, já tremo de leve é bobagem, mas com ela tudo é mais intenso, não sei explicar. Abro a tranca do quarto e entro ela está na beira da cama, tentando se por de pé deixo a bandeja em silêncio numa mesinha que tem aqui, olho ela eu tenho medo de me aproximar e ela não gostar. — Bom dia Falo, meio sem jeito ela só me olha, olhos inchados de quem dormiu demais. -Priscila: Soso ia? Ela tá falando embolado dói na alma ver ela assim. — Ela teve folga eu sou Saul posso te ajudar? Quer ir no banheiro? Ela me olha desconfiada, só mexe a cabeça que sim eu me aproximo devagar ela se encolhe um pouco. — Quer colo ou consegue caminhar? Ela me olha e depois olha pra uma cadeira de rodas aí eu lembro a Sofia coloca ela ali quando ela tá assim e leva pro banheiro eu pego a cadeira, coloco perto, peço licença e, com todo meu cuidado, sento ela na cadeira levo ela até o banheiro. — Eu não vou ver, só te ajudar, tá bom? falo, ajudando ela treme, mas eu consigo abaixar a calcinha sem olhar ela se senta, e eu me viro, saindo pra fora espero ela me chamar. -Priscila: Deu. Vou até ela, ajudo, sento ela de novo na cadeira, levo pro quarto e coloco ela perto da mesinha as mãos dela estão trêmulas. Pego o iogurte e ofereço ela só olha, fecha os olhos, e eu levo a colher na boca dela. — Tu gostava desse sabor de iogurte teve um tempo que teu hiperfoco era esse. Ela me olha desconfiada, mas abre a boca pra receber mais eu vou dando, olhando ela ter uns segundos de prazer em lembrar do sabor tenho certeza que essa cara é de quem lembra algo, mas não pergunto fico quieto, só vendo. — Sabe, eu conheci uma menina, mulher eu chamava ela de Pérola. Ela me olha atenta enquanto eu passo a geleia de uva que ela gosta no pãozinho. — Pérola, todos os dias, passava por um parquinho no caminho dos estudos ela sempre pegava uns minutos pra se balançar num balanço sabe o que é balanço? -Priscila: Vento. Ela fala baixinho, sorrindo. — Sim, o vento na cara ela amava, e às vezes chegávamos tarde por ela parar pra se balançar. Ela dá um sorriso fraco, mastigando o pão as mãos dela ainda trêmulas, mas já bem melhor eu olho pra ela, querendo abraçar, cheirar, só matar a saudade mesmo estando tão perto, estou tão longe.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR