Saul:
O dia amanheceu fresco, as latarias molhadas, e eu aqui olhando pelas telas enquanto minha pequena ainda dorme essa noite foi tranquila, mas é aquela calma antes da tempestade não podemos nos confiar.
-Davi: Vou dormir.
Davi chega de mansinho com uma xícara de café passado, espumando, cara de sono.
— Vai na fé
Falo, acenando em agradecimento pelo café na verdade, se não fossem eles me lembrarem de tomar e comer, acho que eu até esqueceria abro minha agenda de couro surrada e começo a desenhar um balanço quero fazer um pra ela agora não, mas quando puder fazer a estufa, ela gostava de ir no parquinho e sempre me pedia pra balançar.
Ela dizia que gostava do vento no rosto... Suspiro, lembrando que algum dia isso vai voltar a ser realidade tenho fé.
Olho de relance a tela da câmera 9 a Sofia trazendo os cafés, mexendo o corpo, acho que dançando essa acorda feliz, nunca tá de mau humor ela chega batendo e gritando o de costume eu só olho pra ela, sério.
-Sofia: Cara amarga, sempre! Chupa um doce!
— Nem vou te responder vai acordar ela?
-Sofia: Não, tu vai.
— Mas...
-Sofia:Saul, deu de enrolar ela tá lembrando aos poucos, precisa te ver mais vezes.
— Mas se ela piorar?
-Sofia: Não vai piorar aqui tá a bandeja com as coisas, vai lá.
Eu fico olhando ela me obriga a pegar a bandeja e se vai, piscando o olho eu não sei se isso tá certo respiro fundo, olho pra tela, ela tá se mexendo é hora de ir vou caminhando, já tremo de leve é bobagem, mas com ela tudo é mais intenso, não sei explicar.
Abro a tranca do quarto e entro ela está na beira da cama, tentando se por de pé deixo a bandeja em silêncio numa mesinha que tem aqui, olho ela eu tenho medo de me aproximar e ela não gostar.
— Bom dia
Falo, meio sem jeito ela só me olha, olhos inchados de quem dormiu demais.
-Priscila: Soso ia?
Ela tá falando embolado dói na alma ver ela assim.
— Ela teve folga eu sou Saul posso te ajudar? Quer ir no banheiro?
Ela me olha desconfiada, só mexe a cabeça que sim eu me aproximo devagar ela se encolhe um pouco.
— Quer colo ou consegue caminhar?
Ela me olha e depois olha pra uma cadeira de rodas aí eu lembro a Sofia coloca ela ali quando ela tá assim e leva pro banheiro eu pego a cadeira, coloco perto, peço licença e, com todo meu cuidado, sento ela na cadeira levo ela até o banheiro.
— Eu não vou ver, só te ajudar, tá bom?
falo, ajudando ela treme, mas eu consigo abaixar a calcinha sem olhar ela se senta, e eu me viro, saindo pra fora espero ela me chamar.
-Priscila: Deu.
Vou até ela, ajudo, sento ela de novo na cadeira, levo pro quarto e coloco ela perto da mesinha as mãos dela estão trêmulas. Pego o iogurte e ofereço ela só olha, fecha os olhos, e eu levo a colher na boca dela.
— Tu gostava desse sabor de iogurte teve um tempo que teu hiperfoco era esse.
Ela me olha desconfiada, mas abre a boca pra receber mais eu vou dando, olhando ela ter uns segundos de prazer em lembrar do sabor tenho certeza que essa cara é de quem lembra algo, mas não pergunto fico quieto, só vendo.
— Sabe, eu conheci uma menina, mulher eu chamava ela de Pérola.
Ela me olha atenta enquanto eu passo a geleia de uva que ela gosta no pãozinho.
— Pérola, todos os dias, passava por um parquinho no caminho dos estudos ela sempre pegava uns minutos pra se balançar num balanço sabe o que é balanço?
-Priscila: Vento.
Ela fala baixinho, sorrindo.
— Sim, o vento na cara ela amava, e às vezes chegávamos tarde por ela parar pra se balançar.
Ela dá um sorriso fraco, mastigando o pão as mãos dela ainda trêmulas, mas já bem melhor eu olho pra ela, querendo abraçar, cheirar, só matar a saudade mesmo estando tão perto, estou tão longe.