Davi:
A noite é minha melhor amiga, mas hoje não dormi de dia, a sucata esteve agitada; em dias assim, ninguém dorme, ninguém sossega agora, os olhos ardem saio caminhando com meu ferro de aço pesado, meu amigo e companheiro.
Observo tudo, chego perto dos muros para garantir que não haja nada errado amanhã chega uma remessa de peças para remodelar.aqui, pintamos e transformamos em outros essa será para a fuga de um robô grande não daqui, mas de São Paulo.
Na oficina, o Mauro já está colocando o motor nos trinques não pode dar errado agora, falta moldar a lataria e fazer o impossível virar possível.
Paro no meio do caminho e olho para a lua, redonda, cheia, com estrelas guiando meu trajeto caminho mais um pouco,
cantarolando a música que minha mãe cantava enquanto lavava roupa na beira do rio de repente, olho para baixo um pedaço de relógio brilha no chão me agacho, pego o objeto, limpo-o na roupa e sopro a poeira.
Está faltando o fecho e os ponteiros viro o relógio e vejo, gravado atrás "Para minha pequena Mel" fico olhando, intrigado deve ter caído de alguma carroceria, mas o estranho é que numa pedrinha há uns cabelos presos, como se alguém tivesse enganchado o cabelo ali estranho guardo o relógio no bolso e sigo aqui, a noite é longa.
Sigo meu trajeto, passo pelo galpão velho de tábuas, onde o Marcos dorme na rede, a boca aberta, um pé pendurado pra fora parece que tá de férias, mas só olho e sigo. Ainda não virei babá dele vou pras telas de controle aqui, tem dois pontos o geral, que é de todos, e o do Saul, onde ele dorme.
Ele e sistemático, controlador até doer, mas já me acostumei olho a tela ele tá lá fora, sentado numa lata de tinta velha, fumando saio e vou até ele, sem pressa a noite tá calorosa, do jeito que eu gosto chego, ele só me olha e puxa um banquinho pequeno de madeira me sento, meto a mão no bolso e mostro o que achei Saul pega o relógio, observa com atenção, analisando cada detalhe.
—Saul: É de mulher e é de ouro
ele diz sério.
— Percebi deve ter caído de algum carro.
Saul balança a cabeça, dando uma tragada no cigarro.
—Saul:Onde tu achou isso não creio, ali não chegam os carros, só as peças já lixadas difícil não terem se dado conta de uma coisa dessas.
— Então, tem que ficar de olho
Digo, pensativo ele acena, soltando a fumaça os grilos começam seu canto, e eu fico olhando pro céu, a lua cheia ainda brilhando, as estrelas piscando como se soubessem de algo que a gente não sabe.