Serena
Aqui está a sutileza na i********e: Dário, encostado na parede, luta silenciosamente para conter a ereção crescente. É um lembrete c***l de que, por mais poderoso que ele seja, está perdendo o controle a cada minuto que permanecemos juntos neste quarto. E, sinceramente, eu entendo. Porque também não estou pronta ter nenhum contato... íntimo.
O jeito como ele me beija me faz sentir como se fôssemos as únicas pessoas restantes no mundo, como se eu sempre tivesse pertencido somente a ele. Mas algo ainda me inquieta. A tal "regra" dele — a de permitir ser carinhoso — me perturba. Eu achava que estava no controle ao deixá-lo se aproximar, mas agora percebo que talvez nunca tenha estado. Talvez o amor seja como tudo na minha vida: uma expectativa que nunca consigo alcançar.
Nunca fui boa o suficiente — nem como filha, comparada à perfeição da Shayra, nem como esposa de Dário Castellano, apesar de já estarmos casados. E isso parece não importar para ninguém.
Me levanto da cama, os olhos varrendo o ambiente. As paredes de tijolos aparentes, a cama de plataforma imensa, o banco de armazenamento abarrotado de brinquedos ousados... e Dário, um dos homens mais poderosos do país, me observa com fome no olhar, como se estivesse prestes a me despir com os olhos. Antes que qualquer um de nós diga algo, meu estômago ronca alto — alto o suficiente para quebrar o momento e nos fazer sorrir.
Um sorriso irônico aparece em seus lábios enquanto ele estende a mão. Eu a pego, e ele assente com aprovação.
— Boa menina. Vamos te alimentar.
Descemos de elevador até o primeiro andar e saímos na cozinha.
— É a única maneira de entrar e sair do porão? — pergunto, curiosa.
Dário balança a cabeça. — Não. Essa casa tem história. Já foi esconderijo de escravos fugitivos e, depois, usada para contrabandear bebidas durante a Lei Seca. Conservei alguns dos truques depois da reforma. Tem uma escada secreta que desce por uma escotilha sob os degraus. A cama de lá embaixo levanta como aquelas de parede. Um túnel conecta com o banheiro de uma lavanderia a dois quarteirões daqui.
— Uau. Estava me perguntando como você conseguiu essas propriedades do vinhedo — comento, impressionada.
Ele ri. — Você deve agradecer ao meu bisavô por isso. Quando ele e minha avó vieram da Sicília, ajudaram o antigo dono desta casa. Ela limpava e ele trabalhava no escritório de advocacia dele. Acabaram herdando a casa. Descobriram os túneis e decidiram comprar o prédio no fim do caminho.
— Isso é incrível. Nossa imobiliária venderia esse lugar por milhões — digo.
Ele assente, indo até a geladeira. Abre-a, pega um copo vazio, mas logo se vira para uma gaveta e começa a procurar cardápios de comida para viagem.
— Você tem essa geladeira cheia e não cozinha? — brinco.
— Nunca tenho tempo — ele responde com um dar de ombros. — Vou preparar uma bebida. Quer alguma coisa?
— Quero que você me ajude a fazer algo para comer. Não bebo muito. Ainda tomo Shirley Temples desde a infância. Não me julgue, adoro cerejas marrasquino.
— Sem julgamentos — ele diz com um sorriso malicioso. — Acho que podemos nos divertir com cerejas...
O calor sobe às minhas bochechas, certamente ficando da cor das cerejas que mencionei.
— Regras, Dário. Lembre-se das regras — aviso, seguindo para a despensa e a geladeira.
Escolho pepinos, cebolas, tomates, pego também costeletas de frango frescas e macarrão. Manteiga, alho fresco e... um lindo galheteiro de cerâmica me chama a atenção. É ornamentado com pinturas delicadas de azeitonas sobre um fundo rústico, típico do Velho País. Perfeito para azeite de oliva.
Mas, quando estendo a mão para ele, Dário se aproxima e segura meu pulso com suavidade, mas firmeza.
— Não toque nisso, por favor — diz com uma autoridade carregada de dor. Não está bravo — eu percebo — mas há tristeza nos olhos dele, o tipo que exige silêncio e respeito.
— Desculpa. É lindo. Minha mãe também tem um assim, onde guarda azeite...
— Esse está vazio. Era da minha mãe. Eu preferia que você não o usasse. Tem azeite fresco na despensa.
Quero perguntar mais, saber sobre a mãe dele — sobre os boatos da Sra. Castellano, a mulher que virou lenda dentro da Famiglia, morta num carro-bomba, ou algo assim. Meu pai menciona às vezes, como alerta para minha mãe: “preste atenção ao que está ao seu redor”. Talvez eu devesse ouvir melhor. Talvez devesse observar mais. As coisas precisam mudar. Eu preciso mudar.
Por ora, concentro-me em preparar um jantar decente. Dário permanece na cozinha, preparando sua bebida e checando o celular. Em certo momento, se aproxima para ver o que estou fazendo.
— Que cheiro delicioso, Serena. Você cozinha sempre assim?
— No começo, eu só ajudava minha mãe. Sabe como é, jantares de domingo, família reunida... Agora, sou eu quem cozinha tudo. Imagino que ela não esteja exatamente feliz com isso, mas cozinhar me traz alguma paz.
— Você não é minha prisioneira, meu doce. Só preciso de você aqui... pelas aparências. Você ainda pode viver sua vida, como antes. Só que, por enquanto, Dante vai te acompanhar... até que eu possa me livrar de Salvatore. Onde você trabalhava, mesmo?
A pergunta me pega de surpresa.
— Eu não bato ponto em lugar nenhum. Geralmente fico em casa cuidando dos meus sobrinhos. Adoro cozinhar e assar, mas não faço isso profissionalmente.
— Você gostaria? — ele pergunta, com uma curiosidade genuína. Consigo ver as engrenagens girando na mente de Dário. Além de ser um subchefe da máfia, sei que ele tem um olhar afiado para negócios.
— Como assim? Tipo, abrir um restaurante ou algo assim? — pergunto, sem esconder minha surpresa. Nunca tinha pensado nisso antes. — Pode pedir para o Dante vir comer, por favor?
Dário me olha com aquele mesmo olhar de menino possessivo que meu sobrinho faz quando não quer dividir o brinquedo favorito. Ele hesita por um segundo, mas acaba mandando a mensagem. Dante aparece logo em seguida, com um sorriso sutil nos olhos.
— Normalmente temos que ir até um restaurante para comer assim. Obrigado, Sra. Castellano. — Dante pega o prato que preparei para ele e, com uma breve reverência, volta para suas tarefas.
— Normalmente, nós nos sentamos para jantar. E o que você quer fazer em relação ao jantar de domingo? — pergunto a Dário.
— Jantar de domingo? — ele repete, confuso.
— Sim. Ninguém vai acreditar que somos casados se não formos anfitriões de um jantar de domingo. Normalmente, é na casa do meu pai. Minha irmã leva as crianças… e aparece quem quer que a máfia queira impressionar naquela semana. Pelo menos um domingo por mês é importante. Os outros são só da família.
— Podemos fazer isso acontecer. A casa do meu tio, em Staten Island, é grande o suficiente para acomodar as duas famílias. Tenho certeza de que ele não vai se opor — já que essa aliança foi ideia dele em primeiro lugar.
Algo me incomoda no tom dele.
— Então você não queria se casar comigo?
Dário inclina a cabeça e sorri com ironia.
— Não seja assim, meu doce. Você sabe tão bem como as coisas na máfia são, se esse casamento fosse ideia nossa, todas essas regras e essa fase constrangedora já teriam passado. Se tivéssemos nos conhecido de verdade… talvez até tivéssemos nos casado. Ou talvez você fugisse ao descobrir do que eu gosto.
Imagens da sala de jogos invadem minha mente, trazendo consigo uma onda de angústia... e desejo. A forma como ele me beijou antes ainda queima na minha memória. Talvez ele só esteja tentando me afastar da conversa, ou talvez esteja sendo honesto. Não sei. E não quero descobrir agora.
— Duvido. Mas ir a Staten Island pode funcionar. Talvez eu passe por no instituto prisional para ver minha irmã. Droga, devia ter perguntado se ela queria que as crianças viessem.
— Duvido — responde Dário, entre mordidas. Ele fecha os olhos, saboreando o prato, e acena com a cabeça em aprovação silenciosa.
Dou uma garfada e gemo de prazer. Frango salteado sobre linguiça com bruschetta de pepino fresco.
— Eu devia ter feito pão de alho.
— Pão de alho? Aqui? — ele ri.
— Sim, se eu tivesse tido tempo. Eu poderia ter comprado uma baguete no mercado, mas, considerando que não planejava me casar hoje, não tinha exatamente uma lista de compras.
— Desculpe, meu doce. Você não deveria ter sido envolvida assim. Seu pai e Tommaso armaram tudo. Eu só estou sendo leal à Família. Mesmo achando isso tudo ridículo... talvez a gente possa tirar algo bom disso.
— Papai disse que Shayra teria feito isso sem questionar. Por isso não se deu ao trabalho de me contar.
— Ele não te contou porque sabia que você fugiria. Pelo gosto dessa comida... ainda bem que ficou. Vou dormir como um rei esta noite.
— Falando em dormir… estou exausta. Quais são as regras sobre isso? — pergunto.
Ele começa a lavar a louça e abre uma máquina embutida na ilha. O movimento natural, quase doméstico, me pega de surpresa. Por um momento, tudo parece real demais, como se já vivêssemos essa vida de casados há muito tempo. Ouço, em minha mente, risadas de crianças, minha irmã gritando com os pequenos correndo em volta da mesa. Nossos pais conversando enquanto Dante e Salvatore vigiam da cozinha. Uma cena imaginária que parece estranhamente... possível.
— Pode dormir onde quiser. Mas acho que vai preferir o quarto de hóspedes que preparamos. Não queremos complicar ainda mais esse casamento dormindo juntos, certo?
A pergunta paira no ar, como um convite não dito para que eu discorde. Mas estou cansada, confusa, e tudo aconteceu rápido demais.
Quero correr. Quero cozinhar algo para Dário — porque sei que ele não tem ninguém para fazer esse lugar parecer um lar. Mas também quero fugir dessa cidade, dessa vida. Isso tudo... não deveria ser assim.
Casamentos arranjados existem, mas um casamento surpresa com um estranho bonito não é exatamente comum. Não é o momento de me apaixonar por ninguém, muito menos pelo herdeiro de outra família.
— Você tem razão. Casamento é sobre unir famílias, evitar uma guerra. Nunca deveria ser sobre um homem e uma mulher dormindo juntos.
Ele para de limpar os pratos e envolve minha cintura com um braço. A força de seu corpo me puxa para mais perto. Uma calma quente me envolve... e um certo perigo.
— Sarcasmo é desnecessário, meu doce. Apreciado, mas desnecessário.
O cheiro dele — cítricos e canela — se imprime em mim. Mas então o telefone toca, quebrando o momento. Ele se afasta de mim bruscamente, e sinto sua ausência como um choque.
— p***a. Estou indo. Eu cuido disso. — Ele aperta a ponta do nariz antes de largar o telefone no balcão.
— Está tudo bem?
— Não — resmunga. — Meu pai…
Meu coração se aperta. Se a família Castellano sofrer uma traição, esse casamento pode não ser suficiente para manter nossas famílias fora da linha de fogo dos Rinaldi.
— O que aconteceu? Devo chamar Dante?
A expressão dele endurece. A cicatriz em seu rosto parece mais marcada enquanto ele estende a mão e acaricia minha bochecha com delicadeza.
— Vou buscar Dante. Você vem comigo. Temos que chegar ao hospital antes que ele mate alguém.