Ester Narrando Eu tava com a camisa dele no corpo. Cheiro de sangue, suor e perfume antigo misturado no pano. Passei a madrugada sentada no canto da cama, com os olhos grudados na parede. Não dormi. Não chorei. Só respirei. Baixo. Devagar. Esperando ele voltar. Mas ele não voltou. O sol começou a nascer e eu senti no peito que alguma coisa ia mudar. Que aquele dia não ia ser normal. Que o morro, ia acordar diferente. Desci devagar, calçando o chinelo com o coração na boca. Cada passo parecia mais pesado que o anterior. As ruas tavam quietas demais. O povo andando devagar, sussurrando, como se o ar tivesse medo de se mover. E então. Eu vi. A cabeça. Pendurada no meio da praça. Os olhos da Sombra abertos, secos. A boca entreaberta. O sangue escorrendo e pingando no chão onde, dois

