21 - Voltando para a rotina

2037 Palavras
*Michael PoV* Quando caio sobre a cama, eu apago. Até o celular tocar novamente uma ho®a depois. Vou matar o infeliz que estiver me ligando. Sento-me na cama e pego o bendito aparelho barulhento na cabeceira. São seis e meia da manhã. O número na tela me deixa irritado e atendo rispidamente. ㅡ O que você quer? ㅡ Fiquei sabendo que está de volta na cidade. Vi as fotos da sua apresentação ontem. ㅡ Deixe de conversa fiada, Sunny. Você não me ligou a essa ho®a para saber de mim. ㅡ Filho, preciso de ajuda... Fecho os olhos um momento. Esse m@ldito só me liga quando quer dinheiro. ㅡ Quanto? ㅡ Não é só isso... Ele fica mudo por um longo tempo. Tempo demais. ㅡ Sunny? A ligação é cortada de repente. Provavelmente está bêbado de novo. Merd@! Levanto-me e me visto em segundos. Coloco um casaco e uma calça, enquanto ponho os tênis pelo caminho. Entro no carro e saio em direção ao Brooklyn. É onde fica o lugar onde eu morava com ele, um prédio imundo e de vizinhança duvidosa. Certifico-me de trancar o carro antes de subir e bater na porta de seu apartamento. Ele não atende, então uso minha chave reserva. O lugar é um chiqueiro. Roupas sujas, restos de comida e jornais velhos espalhados por toda parte, além de muitas garrafas de cerveja. O cheiro é insuportável. Parece até que um bicho morreu aqui dentro. Eu o encontro desmaiado no sofá desgastado que eu costumava usar como cama, o telefone no chão. ㅡ Sunny? ㅡ Aproximo-me com cautela. Da última vez que o surpreendi assim, levei um soco no meio da cara. O desgr@çado tosse, quase engasgando, e eu o ajudo a se sentar. ㅡ Você ainda vai acabar se matando. ㅡ Talvez fosse melhor assim... Sequer consigo me lembrar da última vez que você me chamou de pai. Nem eu... Vai começar a sessão de coitado arrependido. Não morro de amores por ele. É o responsável por grande parte das merd@s que aconteceram comigo quando eu era mais novo. Ainda assim, não consigo deixá-lo de lado. É tudo o que sobrou da minha família. Eu o arrasto até o banheiro e forço sua cabeça embaixo do chuveiro frio. Ele reclama, urra como um animal. Até tenta me bater. Porém, agora não sou mais um garotinho assustado, que ele possa espancar como sempre fazia. Desvio de seus golpes embalados pelo álcool e o levo para o quarto. Ele cai sobre a cama como um saco de lixo. ㅡ Como conseguiu sobreviver esse tempo em que estive fora? Ele dá de ombros e pigarreia. ㅡ O dinheiro que você mandou ajudou bastante. Ele desmaia de novo depois disso. Coloco dois dedos em seu pescoço, checando seus sinais vitais. Ainda está vivo, contudo, nesse ritmo, não sei por quanto tempo. Eu olho ao redor, medindo a sujeira do lugar e suspiro, passando as mãos pelo rosto. Um pouco de civilidade aqui não faria m@l. Confiro o horário no celular, são oito ho®as. Eu deveria estar na empresa em uma ho®a para uma reunião com o McGregor. Mando uma mensagem para ele explicando que vou me atrasar um pouco. Não posso deixar esse lugar nesse estado. Vou até a cozinha e pego alguns sacos plásticos de lixo. Cato as garrafas vazias, jornais velhos, restos de comida e ensaco tudo. Levo para fora e jogo os sacos cheios na lixeira. Lavo a louça e coloco a roupa suja na máquina de lavar. Não sou um gênio da limpeza, mas aprendi a me virar sozinho. Não ter pai ou mãe que cuidem de você, faz com que cresça antes do tempo. O tapete da sala está coberto por algo que espero que seja vômito, mesmo assim eu me recuso a meter a mão nisso para lavar. Apenas o retiro e o jogo na lixeira lá fora também. Volto a verificar o doador de espe®ma da minha mãe. Não consigo mais chamá-lo de pai. Ele nunca fez esse papel. Carrasco seria um termo mais apropriado. Eu queria simplesmente riscá-lo da minha vida, como quem espanta uma mosca. Entretanto, não consigo abandoná-lo agora que ele está velho, viciado e na merd@. Deixo uma quantia sobre a mesa de centro para que ele compre comida quando acordar. Embora eu acredite que ele irá torrar tudo em bebida provavelmente. Não posso fazer nada quanto a isso. Perdi a conta das vezes que tentei levá-lo ao A.A. Ele é adulto, faz o que lhe dá na telha. Saio do apartamento após dar uma última olhada nele, que ainda dorme, roncando como um porco. Passo no Starbucks e compro um croissant de frango e um expresso, que vou comendo no caminho de volta. Não quero ter problemas por causa da diabetes, já abusei bastante. Não tive tempo de comprar nada para a geladeira depois que cheguei. De qualquer forma, cozinho muito m@l. Só sei usar o microondas para no máximo esquentar alguma coisa comprada na rua. Tenho um fogão que só não virou casa de aranhas porque gosto de manter as coisas organizadas. Não sou maníaco por limpeza, no entanto de caos já me basta o que tenho na cabeça. Dou uma conferida no horário. Quase dez ho®as, o McGregor vai me matar. Tomo um banho rápido e vou para o quarto vestir o meu terno. O ambiente é uma mistura de música e informática. Tenho pôsteres das minhas bandas favoritas, um pedestal com meu violão, uma mesa com um computador desktop e dois laptops, um com o sistema da empresa, outro para uso pessoal. E claro, uma cama de casal. Grande, mesmo que durma sozinho. Gosto de espaço. Aqui é o meu santuário, que custei muito para conquistar. Visitar aquele homem hoje me fez lembrar do meu irmão caçula e da minha mãe. Onde quer que estejam, acho que teriam orgulho de mim e do que conquistei na vida. Assim que chego na empresa, a recepcionista me informa que o CEO quer me ver. Eu já sabia disso, porém ele é incapaz de deixar qualquer coisa ao acaso. Sempre é precavido. Passo rapidamente no setor de contabilidade para entregar minha prestação de contas da viagem e sigo para o último andar. Sua assistente, Nancy Foster, me oferece um café, enquanto espero na poltrona confortável de sua sala do andar do McGregor. Ela está sempre impecável, sempre sorridente. Até me lembra a Lauren da recepção. A diferença é que Nancy deve ter o triplo da idade dela, com cabelos já grisalhos. Ela parece uma mãe cuidando de tudo e todos por aqui, inclusive do chefe. Ele sai de sua sala e me cumprimenta com um aperto de mão forte. ㅡ Sinto muito pelo atraso, McGregor. Foi um imprevisto familiar. ㅡ Tudo bem. Vamos? ㅡ Ele faz sinal para que eu o acompanhe. ㅡ Senho®a Foster, estarei com o Denver na sala de reuniões. Não desejo ser interrompido. ㅡ Sim, senhor McGregor. Ao entrarmos, ele me indica uma cadeira ao lado da dele, junto à enorme mesa bem no centro da sala. ㅡ Então, Michael. O que descobriu? ㅡ Bom... ㅡ Eu cruzo as mãos sobre a mesa. ㅡ Não sou agente de campo, porém pude entrar em uma das instalações do Grupo MEI, fingindo estar interessado em uma vaga no setor de Tecnologia que eles anunciaram. Obviamente, não dei meu nome verdadeiro. Enquanto estive lá dentro, consegui acessar um terminal, e vi coisas, fotos, que me tiraram o sono por dias. Infelizmente, eu não pude fazer cópias do material. ㅡ Entendo. Isso foi arriscado. Se você fosse pego... ㅡ Não se preocupe. Eu jamais citaria você ou a empresa, nem mesmo sob tortura. Ele sorri de forma sincera. ㅡ Michael, eu admiro você e sua lealdade, sabe disso. No entanto, não quero que se arrisque dessa forma novamente, estamos entendidos? ㅡ Eu sei. Porém, crianças... Ethan, para mim a coisa ficou pessoal. Sou uma das poucas pessoas com quem McGregor se relaciona de modo menos formal quando estamos a sós. Diante de outros funcionários ou estranhos, preferimos o teatro do patrão e do empregado. Ele acena com a cabeça, concordando. No fundo ele também está louco para tirar esses caras de circulação. Sei que também entende a minha motivação. Para mim, não existe desculpa para maltratar e abusar de uma criança, não importa que o responsável seja uma empresa influente ou o cara que a criou e que deveria protegê-la. Ao pensar nisso, me pergunto porque ainda não cortei os laços com aquele m@ldito. Queria muito chutá-lo. Entretanto, no final, sempre acabo lhe dando suporte e dinheiro. Isso lhe dá motivos para achar que ainda pode fazer parte da minha vida. Tarde demais. ㅡ Michael? Olho para Ethan um pouco surpreso. Dou-me conta de que quase o ignorei pensando naquele traste. Felizmente, minha mente é muito elaborada para se perder completamente em devaneios. Estou sempre pensando em tudo ao mesmo tempo e respondo sua pergunta sobre a possibilidade de uma invasão. ㅡ Sinto muito... Não, o equipamento que tenho na minha sala não vai processar o que preciso fazer rápido o suficiente para invadir o sistema que vi por lá. Tudo é muito bem protegido por alta tecnologia, devem até ter hackers a serviço deles para evitar o vazamento de informações. ㅡ Melhores que você? Ergo uma sobrancelha surpreso. Ele nunca duvidou da minha capacidade antes. Quando ele franze a testa e exibe um sorriso contido, sei que está me provocando. ㅡ Não quero me gabar, porém talvez só a NASA seja o limite para mim. ㅡ Bom, ㅡ Ele ajeita o nó da gravata e se levanta colocando as mãos nos bolsos. ㅡ em pouco tempo você não terá mais essa limitação. Consegui um acordo com uma empresa líder em tecnologia e vou trazer equipamentos para a McGregor Corporation de primeira linha. Procuro conter meu entusiasmo. Computadores para mim são como brinquedos para uma criança. ㅡ Vai finalmente informatizar toda a empresa? ㅡ Você sabe que eu gosto do bom e velho papel. Entretanto, os tempos mudam e tenho que acompanhar. Vou precisar muito da orientação do meu desenvolvedor chefe. Está pronto para encarar o desafio? ㅡ Pode apostar que sim. ㅡ Levanto-me e ambos apertamos as mãos. ㅡ Só mais uma coisa, consegui um indício de como acessar as informações do Grupo MEI. Uma fonte tem um banco de dados antigo codificado. Com um pouco de trabalho e dedicação, e agora com esse novo maquinário que está por chegar, acredito que posso quebrar o código fonte e encontrar um caminho até a base atual deles. ㅡ Essa fonte é confiável? ㅡ Nunca me deu motivos para crer o contrário. ㅡ Como você vai pegar esses dados? ㅡ Marcamos um encontro para que ele me entregue tudo em mãos. Provavelmente, deve estar em um pendrive. ㅡ Está certo. Vou com você. Meu queixo quase vai ao chão. ㅡ Ethan, o lugar do encontro não é muito, digamos, ortodoxo. É uma boate chamada Boca do Inferno. Vai por mim, fiz umas pesquisas e não tem esse nome à toa. Fora que, se o meu contato te vir com um monte de seguranças, pode desistir. ㅡ Não se preocupe. Levarei apenas o Robbins. ㅡ Você pode precisar de um exército se te reconhecerem. Ele me encara sarcasticamente. ㅡ Robbins é todo exército que preciso. Além de discreto. Não posso deixar que você se ponha na linha de fogo sozinho, Michael. Não tenho como argumentar com ele. Uma vez que decida algo, será feito da forma que determinou. Ponto final. ㅡ Quinta-feira, às vinte ho®as. ㅡ Encontro com você dez minutos antes, a uma quadra de distância da boate. Confirmo com a cabeça, nos despedimos e sigo para a minha sala no 40º andar. Nem todo mundo possui salas pessoais além do próprio CEO, diretores e gerentes. É um luxo com o qual fui agraciado. Eu exerço inúmeras funções, um pouco de privacidade é fundamental. Principalmente, quando McGregor me pede serviços extras. O Grupo MEI é um desses serviços. Tenho plena consciência que, apesar de todo o meu talento, não vai ser nada fácil invadir aquele sistema. Porém, nunca fui de desistir. É uma questão de honra para mim e de justiça para aquelas crianças.
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