*Amber Lee PoV*
Acordo com a minha gata me lambendo. Eu murmuro qualquer coisa sem sentido e cubro meu rosto com o travesseiro. Ela não desiste, fica miando do meu lado e se esfregando no meu braço.
ㅡ Oh, Mylla… Só mais dez minutos…
Fiquei acordada até quase o dia nascer, de tão envolvida que estava com a música. O resultado é que o meu corpo parece ter levado uma surra. Então, escuto um barulho irritante. Quando reconheço o som do alarme do meu celular, eu me sento de supetão para pegá-lo. São 7h30m.
ㅡ Oh, meu Deus! Vou me atrasar!
Jogo o travesseiro e os lençóis para longe e corro para o banheiro fazer minha higiene matinal. Meus cabelos são lisos, porém estão como um mar revolto de tão embaraçados.
Não sei como ficaram assim, talvez tenha sido de tanto eu coçar a cabeça ontem, enquanto pensava durante o meu súbito processo criativo.
Saio pulando do quarto até a cozinha americana, calçando meus sapatos pelo caminho. Ligo a cafeteira e coloco comida e água para Mylla. Assim que o café está pronto, coloco uma boa quantidade em um copo descartável, enfio uma torrada na boca e saio para a rua.
Devo parecer uma maluca, correndo pelas ruas com o copinho do líquido fumegante e um pedaço de torrada na boca, porém não estou nem aí. Meu horário inicia às oito ho®as em ponto. Pelos meus cálculos, vou me atrasar apenas uns vinte minutos.
Bendita ho®a que decidi morar perto do trabalho! Mesmo que, na época, tenha sido por causa do Butterfly, a McGregor Corporation está na mesma rua. Só espero que Edward não tenha percebido minha ausência ainda.
Passo esbaforida pela Lauren, que me encara com um sorriso torto, enquanto alcanço o elevador. Fico contando os andares passarem e tomo o último gole do meu café bem no momento em que as portas se abrem. Atravesso o setor e me sento com tudo na minha cadeira, tentando recuperar o fôlego.
ㅡ Dormiu mais que a cama, ojitos?
Sua gozação foi em um sussurro, no entanto olho ao redor mesmo assim para me certificar que ninguém o ouviu.
ㅡ Shish, Rico. O Edward já chegou?
ㅡ Ele sempre é o primeiro a chegar e o último a sair. Para a sua sorte, ele está em reunião com a Katherine há quase uma ho®a na sala dele. O que aconteceu? Quem costuma se atrasar normalmente sou eu.
Tento ganhar tempo arrumando minha estação de trabalho, porém, apenas decido contar a verdade.
ㅡ Fiquei até tarde tocando e escrevendo. Perdi a ho®a de manhã.
Os olhos castanhos dele brilham e as rodinhas de sua cadeira o trazem para perto de mim.
ㅡ Jura? Você não disse que estava com um bloqueio?
ㅡ Eh… Foi… ㅡ À essa altura, praguejo contra mim mesma pela minha sinceridade. Eu o conheço. Se eu disser que foi Michael Denver quem quebrou o meu bloqueio musical, ele vai tirar sarro de mim o resto do mês. ㅡ Eu já estava tentando superar isso há algumas semanas. Ontem, finalmente consegui.
ㅡ Oh… ㅡ A percepção em sua voz não me escapa e eu me preparo mentalmente. ㅡ Que coincidência, não é mesmo? Será que um certo ogro metaleiro te serviu de inspiração?
Eu sabia…
Limpo a garganta para responder, porém uma voz atrás de mim me faz congelar e arrepiar.
ㅡ Senhorita Taste, senhor Gonzalez. Não estão em horário de trabalho?
Respiro fundo e giro minha cadeira para encarar a gerente do RH. Desde que fui efetivada, ela tem tido um prazer quase mórbido em pegar no meu pé.
ㅡ Bom dia, senhorita Smith. Estávamos apenas debatendo algumas ideias.
Ela levanta uma sobrancelha, não acreditando muito na minha desculpa esfarrapada.
ㅡ Claro… Poderia me esclarecer sobre qual projeto?
ㅡ Não entendo como isso possa ser do seu interesse, senhora gerente do RH.
ㅡ Ora, senhorita Taste... Por acaso não sabe me informar?
Eu abro minha boca e nenhum som sai. Não faço ideia do que falar. Então, Rico, meu fiel escudeiro, vem em meu auxílio.
ㅡ A culpa é minha, senhorita Smith. Errei o design da cliente 57843 e Amber Lee estava me corrigindo antes que eu enviasse para a prova. Eu deveria ter desenhado duas espadas cruzadas, porém eu me confundi e desenhei dois melões.
Novamente os olhos de cobra dela vagam entre nós dois, cheios de dúvida.
ㅡ Como conseguiu confundir duas espadas com dois melões?
Então, Rico lhe dá uma resposta que a faz ficar vermelha, mesmo com sua pele morena.
ㅡ É que essa cliente das espadas é uma gostosa. Tem um par de p&itos de respeito…. ㅡ Ele mede uma distância imaginária com as duas mãos, como se apalpasse alguma coisa. Até eu fico com vergonha. ㅡ Melões, me entende?
Katherine engasga e tosse contra o punho para disfarçar. Eu seguro a vontade de rir.
ㅡ Bom… Eh… Nesse caso, continuem…
Ela some pelo corredor do setor e pega o elevador. A risada que me escapa quase me faz cuspir e cubro minha boca para me controlar.
ㅡ Rico, você não existe!
Ele me dá uma piscadinha conivente.
ㅡ De nada, ojitos. Voltando ao nosso assunto…
Cubro sua boca com uma das mãos e lhe peço silêncio com a outra.
ㅡ Shish. Na pausa para o café conversamos. Vamos trabalhar?
É a forma que encontro para ganhar tempo e inventar uma desculpa que ele engula. Obviamente, não faço a pausa para o café. Porém, do almoço não escapo. Ele praticamente me intima e não tenho como recusar. O pior é ele convidar a Lauren para almoçar conosco. Se ele não conseguir respostas de mim, ela certamente o fará.
ㅡ Bom, querida, o que quebrou o seu bloqueio?
ㅡ Eu não sei, amiga. Deu vontade e eu só segui os meus instintos.
ㅡ Sei…
O azul de seu olhar sagaz se estreita sobre mim e eu me sinto pequena. Encho a boca com uma garfada de macarrão para me reestruturar.
Pense, Amber Lee… Pense…
Lauren toma um gole de seu suco e apoia o queixo sobre a palma da mão, muito pensativa.
ㅡ Sabe, eu estive pensando. Aquele show foi tão bom… Será que a Everlasting vai tocar mais vezes, Rico?
ㅡ Michael me falou algo sobre isso. Ele ficou tanto tempo afastado, que está vendo com o Rob uma apresentação por semana pelo menos. O Grito é bem conceituado e está ganhando fama por revelar novos talentos. Não foi lá que aquela cantora famosa foi descoberta?
ㅡ É verdade… Você consegue um ingresso para mim?
Ela faz ar de pidona para o nosso amigo, que sorri. Os dois estão praticamente me ignorando no assunto. O que não é nenhuma surpresa, afinal eu jurei de pé junto para eles que não estava interessada no Michael ou em sua banda. No entanto, quanto mais eles falam, mais tenho vontade de ir.
Queria tanto vê-lo novamente…
ㅡ Claro, Lauren! A Everlasting é demais! Eu só escutava hip hop antes, nunca achei que fosse gostar tanto de metal. “Dead dream” é a minha música favorita.
ㅡ Nossa! A minha também! E aquela coisa que o Michael faz na voz, ela fica encorpada, agressiva e selvagem. Não sei o nome daquilo, mas é o máximo!
ㅡ Drive. ㅡ Os dois olham para mim e percebo ter falado em voz alta. Limpo minha garganta e respiro fundo, tentando me mostrar desinteressada. ㅡ É um recurso que dá um efeito “rasgado” na voz. Fica bom quando é bem feito e combina com músicas que necessitem de uma intenção mais agressiva e rouca, como é o gênero da Everlasting.
ㅡ Hum… Mas isso não machuca a voz, amiga? Tenho a impressão que o Michael vai estourar as cordas vocais algum dia.
Nesse momento, me lembro de suas músicas e não consigo evitar o sorriso orgulhoso.
ㅡ Não, ele é profissional e muito talentoso. É uma fonte de inspiração para qualquer um que o assista.
Levo um copo de suco à boca e paro com a borda tocando os meus lábios. Os dois estão olhando para mim, ambos com sorrisos convencidos, e eu percebo ter falado demais.
ㅡ Inspiração, ojitos?
Eu suspiro frustrada por ter sido pega em flagrante.
ㅡ Tudo bem. Confesso que fiquei inspirada pelo talento dele. Só.
ㅡ T&são mudou de nome agora, amiga?
Eu fico vermelha. Não, fico roxa, enquanto Lauren mantém seu sorriso vencedor no rosto e Rico dá altas risadas. Acabo me rendendo e rio com eles.
ㅡ Eu admito. Ele tem s&x appeal, porém é muito grosseiro para o meu gosto.
ㅡ Você só o pegou em um momento ruïm, ojitos. Já te falei sobre a guitarra. Se bem que você não facilitou as coisas para ele.
Dessa vez, o sorriso que corta os meus lábios é até m@ldoso.
ㅡ Eu? Facilitar as coisas para o Michael? Jamais!
ㅡ Ah! Então, quer dizer que você está interessada nele e só está fazendo jogo duro para ele ficar caidinho por você?
Eu engasgo com uma almôndega e sou obrigada a beber um pouco para fazer a comida descer.
ㅡ Não foi o que eu disse!
Eles riem, porém não falam mais nada sobre o assunto e eu os agradeço mentalmente.
Michael caidinho por mim? Isso nunca vai acontecer! Ele não pára com mulher, porque se interessaria pela minha pessoa?
Retornamos para o trabalho e continuamos nosso debate sobre um projeto que Edward nos passou. Complemento algumas pesquisas de mercado que tenho feito sobre o tema e leio o perfil do cliente novamente para traçar uma estratégia. Passo algumas direções para Rico, que começa a rabiscar em sua prancheta digital. É como funcionamos. Eu crio a campanha, após analisar os dados, e ele dá forma à parte visual.
Enquanto ele está concentrado em seu desenho, eu finjo voltar a ler as recomendações do projeto na minha tela. Olho de soslaio para o meu amigo, empenhado em seu trabalho. Ninguém diria que ele tem talento com algo que requer tanta sensibilidade ao julgá-lo por sua aparência. Não consigo deixar de pensar que, talvez, eu esteja fazendo a mesma coisa com Michael.
Por que esse homem não sai da minha cabeça?
Decido ceder à minha curiosidade e acesso a rede interna da empresa, para ver os perfis dos funcionários. Não é difícil encontrar o dele, já que é o chefe do setor de Desenvolvimento e Tecnologia.
Denver, Michael…
Sua foto me dá vontade de rir. Acho que não é atualizada desde que ele criou esse perfil. Vejo o rosto de um rapaz jovem, bonito e extremamente carrancudo.
Acho que ele não gostava de tirar fotos na época, apesar de, hoje em dia, adorar se exibir.
Esse Michael de vinte anos na foto é bem diferente do Michael de cinco anos depois. A fúria em seu olhar não é camuflada. Seus olhos queimam com ela, causando-me um arrepio, pois me lembro que, em alguns momentos, o homem de hoje deixava sua máscara cair e esse brilho indignado e solitário se fazia presente por poucos instantes.
Não há muita informação pessoal sobre ele. Apenas onde estudou, o número de sua sala e o telefone do escritório. Celular e endereço residencial estão disponíveis para serem visualizados apenas pela chefia. Com o meu acesso de reles funcionária não consigo ver. Fico impressionada por ler em seu currículo uma faculdade de Música e outra de Sistemas de Informação finalizadas, além de estar cursando Engenharia de Controle e Automação de forma não presencial. As duas últimas estão na mesma área, mas diferem de forma gritante da primeira. Passo um dedo pela foto, traçando o contorno de seu belo rosto.
Quem é você realmente, Michael Denver? Será que tem perfil em alguma rede social?
Minimizo a janela com a rede da empresa e abro outra com o navegador da internet. Para a minha insatisfação, não acho nada no nome dele.
Não entendo como alguém com uma banda possa querer se esconder do mundo. A não ser…
Decido procurar por Everlasting. Bingo! Há perfis para ela em quatro redes sociais. Abro uma janela para cada um e surfo por eles, alternadamente. A data de criação da banda é antiga, tem quase dez anos, o que indica que seu gosto pela música começou durante a pré adolescência.
Por isso, a primeira faculdade que cursou foi Música, é sua paixão. As demais vieram quando começou a trabalhar na McGregor Corporation, provavelmente para se aprimorar. Como alguém consegue lidar com dois mundos tão distintos um do outro? Ele deve ser um gênio para administrar tanta coisa ao mesmo tempo. Confesso que ele cresceu no meu conceito. Só não sei se isso é bom ou não.
Minimizo todas as janelas e abro o arquivo com as informações que eu realmente deveria estar vendo. O projeto para o qual Rico está criando a arte. Quando eu paro para pensar, minha vida, de certa forma, é como a de Michael. Eu fui aceita em uma das melhores faculdades de música, porém meus pais não me deixaram cursar. Então, escolhi Marketing como segunda opção e, pude convencê-los a me deixar fazer ao menos um curso de música, mas nenhum dos dois têm nada a ver um com o outro.
Acho que temos mais coisas em comum do que eu pensava…
Esse pensamento é reconfortante de alguma forma. Faz nascer dentro de mim a esperança de que possamos nos dar bem. Como amigo do Rico, fatalmente acabaremos frequentando os mesmos lugares. Embates como o que tivemos na noite em que o conheci não seriam bons. Porém, não posso n&gar que me senti viva por provocar um homem tão marcante como ele.
ㅡ Tierra a la Luna, cambio!
Praticamente levo um susto com a voz do Rico quase no meu cangote. Sequer entendo o que ele diz.
ㅡ Rico! Que susto! E, por favor, falar em Espanhol comigo é perda de tempo.
ㅡ Bom, eu evito o Espanhol, apesar de deixar escapar algumas coisas, porém não sabia mais o que fazer para te trazer de volta de sei lá onde sua cabeça estava. Veja.
Ele me mostra seu rascunho e eu acho fantástico. Volto minha atenção para o meu computador e tento abrir outro arquivo. A lentidão repentina da máquina me faz clicar várias vezes no mesmo ícone, o que culmina em diversas cópias abertas da mesma coisa. Não dou importância e confiro o que programei.
ㅡ Agora que temos a base, vou te passar o esquema de cores. Tons pastéis é a tendência para esse tipo de campanha, porém o cliente não gosta muito da ideia. Vamos fazer uma combinação com base no… ㅡ O ponteiro do meu mouse congela na tela e eu pisco algumas vezes, confusa. ㅡ Que estranho…
Eu começo a movimentar o mouse, o sacudo e aperto os botões, porém, na tela, nada acontece.
ㅡ O que foi, ojitos?
ㅡ Essa coisa travou!
Rico se aproxima e assume o meu mouse, tentando de alguma forma destravar minha máquina. Como se o destino gostasse de me pregar peças, as janelas minimizadas começam todas a abrir e fechar sem controle ao mesmo tempo.
ㅡ O que você estava fazendo? Tem tanta coisa aberta…
Entro em desespero quando ele tenta identificar o que são todas aquelas pesquisas, que ficam indo e voltando. Praticamente me jogo sobre o teclado para digitar a combinação de teclas que ativa o protetor de tela. Meu desespero me leva a apertar um monte de coisas a ermo. Todas as janelas congelam, uma por cima da outra, numa bagunça visual total. Agradeço internamente que meus arquivos do projeto estejam por cima das minhas pesquisas sobre Michael.
Eu suspiro e coço a minha testa, tentando pensar em uma solução.
Prometemos ao Edward que terminaríamos uma prova ainda hoje, por isso ele até havia autorizado nossa ho®a extra, pois se trata de um projeto urgente.
ㅡ Será que ainda tem alguém no Help Desk para me ajudar?
Rico olha o horário na tela do computador. São 18h20m.
ㅡ Eu acho que não, ojitos. Mas, eu vou dar um jeito. Por que não vai tomar um café?
Deixo o ar escapar com pesar e me levanto, indo para a sala de descompressão. Tomar um café é a minha melhor opção no momento. Sei que o Edward não vai ficar chateado se não fizermos a prova hoje, pois imprevistos acontecem e ninguém poderia imaginar que o computador ia dar pane.
Por que eu fui abrir tanta coisa por causa daquele ogro?
Fico alguns minutos na sala para me acalmar e tomo dois copos de café. Quando retorno para o setor, vejo Rico em pé ao lado da minha baia, enquanto há um homem sentado na minha cadeira. Mesmo de costas para mim, eu reconheceria aquela figura em qualquer lugar. Então, me lembro das pesquisas que fiz sobre ele e entro em pânico.
Claro que o Rico recorreu ao Michael! É o nerd de plantão! É melhor fingir que não sei do que ele é capaz e tirá-lo de lá o mais rápido possível, caso contrário ele vai ficar insuportável se descobrir que andei pegando informações sobre a vida dele!