*Michael PoV*
Ligo as luzes da minha sala assim que entro. A iluminação não é forte, caso contrário, me deixaria extremamente irritado. Sento-me na minha poltrona, já colocando meus inseparáveis fones de ouvido e ligo os computadores. São dois. No monitor de um aciono o código fonte do sistema da empresa, pois estou sempre a procura de falhas de segurança. Por ser um hacker, sei como as coisas funcionam e como a McGregor Corporation é visada. No outro, acesso a rede interna. Há uma mensagem do Rico, perguntando quando é o próximo show e quantas amigas que não caem nos meus encantos de primeira ele poderia levar.
Que sacana...
O rosto de Amber Lee volta à minha mente. De certa forma, ela esteve em meus pensamentos desde a apresentação. Eu poderia dar uma desculpa e ligar para ele para perguntar sobre ela.
Não, Michael... Seria muito óbvio…
Resolvo me distrair um pouco checando os servidores nas salas do andar, antes do almoço. Quero ter noção da bagunça feita durante minha ausência. No caminho, encontro Oscar e Daniel. Não sei se posso dizer que sejam meus amigos como o Rico e o Pete, contudo, são uns dos poucos dentro da empresa com quem mantenho algum laço mais estreito, costumamos até almoçar juntos, como hoje. Ambos são cubanos e n&gros e, enquanto o primeiro adora um hambúrguer com muito queijo e bacon e está acima do peso, o segundo é mais preocupado com seu físico. Almoçar no trailer de fast food do outro lado da rua para o Oscar sempre é como estar no paraíso. Já Daniel reclama de não ter sua salada costumeira. Chego a achar engraçado a cara dele ao observar Oscar babando e devorando seu sanduíche gorduroso. Eles aproveitam e me colocam a par de tudo o que aconteceu no setor enquanto estive fora.
M@l percebo o tempo passar, quando me dou conta, é o fim do expediente. Como cheguei atrasado por causa daquele infeliz, fico além do horário para adiantar o serviço. Ainda tenho muita coisa para organizar.
Acho que vou levar a semana inteira para entrar no ritmo de novo, pois ainda me sinto exausto da viagem.
Então, o telefone interno sobre a minha mesa toca. Identifico no visor digital que é o ramal do setor de Marketing.
Só pode ser o Rico. Que os Céus me protejam…
ㅡ Estou ocupado.
É o que eu respondo assim que atendo a chamada.
ㅡ Hei! Eu nem falei nada ainda! E se fosse el jefe te ligando?
ㅡ Quando o McGregor quer falar comigo, ele liga diretamente para o meu celular, não do ramal do 42º andar, onde você trabalha. ㅡ Há um tom de ironia na minha voz e eu me divirto tirando sarro dele para compensar suas brincadeiras sem noç@o. A vida me tirou um irmão e uma mãe, porém me presenteou com três irmãos para compensar: Rico, Pete e Dorothy. Estiveram presentes por mim em momentos difíceis, assim como eu estive por eles. ㅡ Seu gerente sabe que você está usando o telefone do setor?
ㅡ Ah, tá legal, seu exibido! Estaria ocupado demais para me dar uma ajuda aqui com um computador em pane total?
Olho para o relógio no meu monitor. São 18h25m. Tento despistá-lo, já que estou esgotado.
ㅡ Rico, você sabe que eu não faço esse tipo de serviço. Sempre que você quebrar o computador, pode acionar o Help Desk.
ㅡ Eu não quebrei nada! Não tem mais ninguém no Help Desk. Vai, mano. Preciso terminar um trabalho para o Edward.
Fico com pena dele. Ele e Edward nunca se deram muito bem. Talvez pelo fato de seu gerente ser um almofadinha, que passou o "pente fino" em oitenta por cento das funcionárias, coisa que o Rico jamais aprovou. Eu também sou mulherengo, porém não misturo negócios e prazer. Nunca é uma boa combinação. Decido ajudá-lo, o problema deve levar uns cinco ou dez minutos para resolver, não vou morrer por causa disso.
ㅡ Para sua sorte, estou de bom humor hoje...
ㅡ Você sabe o que é isso?
Ele dá uma risadinha baixa e eu suspiro.
ㅡ Você quer a minha ajuda ou não?
ㅡ Si! Si! Si!
ㅡ Estou a caminho.
Encerro a ligação e saio, trancando a sala em seguida. Quando a porta do elevador se abre em seu andar, ele já está me esperando. Ele me puxa pelo braço e me guia até o computador problemático. Engraçado que não é o dele, mas o da partição ao lado.
ㅡ Não se contentou em quebrar apenas o seu computador? Teve que fazer merd@ no do seu colega de trabalho também?
Ele coça a nuca, um pouco sem graça e fala aos sussurros.
ㅡ Veja que situação ingrata a minha. Eu precisava de um arquivo desse computador, porém a dona dele ficou jogando paciência e essa coisa travou. Você consegue consertar antes que ela retorne da pausa do café?
Eu reviro os olhos e me sento diante do equipamento defeituoso. Ele não estava brincando.
Como alguém consegue fazer tamanha bagunça? Até parece coisa de amador. Essa mulher que trabalha com ele deve ser uma boçal.
Enquanto tento acessar o sistema, percebo um perfume familiar na baia.
Jasmim...
Lembro-me da amiga dele imediatamente. Isso está virando uma obsessão. Resolvo tentar pescar alguma informação sobre ela.
ㅡ Então, você tem falado com a Amber Lee?
ㅡ Na verdade, falei com ela hoje. Por quê?
ㅡ Por nada. Você não pegou ninguém depois do show. Achei que talvez sua amiga te consolasse.
ㅡ Em primeiro lugar, fique sabendo que peguei uns números de telefone.
ㅡ Eu peguei duas garotas ao mesmo tempo...
A cara de paspalho dele é hilária enquanto me gabo.
ㅡ Fala sério, Michael! Você é intragável às vezes, sabia? ㅡ Ele pisca e ri baixinho. Sei que está só brincando. ㅡ Bom, em segundo lugar, como eu falei, Amber Lee é apenas uma amiga é não é esse tipo de chica fácil com a qual você está acostumado.
A essa altura paro de prestar atenção nele e foco no computador diante de mim. Tento algumas combinações de teclas, sem sucesso. A área de trabalho está acessível, porém o sistema da empresa entrou em pane. Fora o monte de janelas de programas abertos que não consigo identificar completamente congelados.
Talvez haja algum problema com a conexão da rede.
Abro uma nova janela para fazer um diagnóstico, o que se mostra ineficaz, já que ela também congela.
Não gosto de forçar um boot, porém isso aqui está complicado.
Então, sinto uma presença atrás de mim. Eu poderia dizer estar completamente surpreso por ver justamente ela, Amber Lee, quando viro minha cabeça. No entanto, não estou. É bem típico do Rico. Esse computador provavelmente é dela e ele aproveitou para realizar esse "reencontro". O mais engraçado é perceber a expressão no rosto dela ao me ver. É um misto de surpresa, euforia e desejo.
ㅡ Michael está verificando qual o problema do seu computador, ojitos. Não vai demorar muito.
Eu quase posso ouvir a gargalhada mental dele. Com certeza está se divertindo às nossas custas. Estou mantendo o controle aqui, porém ele viu o quanto essa garota me provocou ontem.
Talvez agora seja diferente...
Meu cérebro me alerta do meu lema interno: "Não se envolver com funcionárias". Porém, quando olho para ela, trajando uma blusa social branca e uma saia justa preta, me vejo mandar essa regra para o infe®no.
Essas pernas... Muito melhor do que quando a vi de calça jeans. Chega a ser um atentado contra o meu bom senso.
Ela tenta disfarçar sua surpresa inutilmente e parece tão incomodada que, se um buraco se abrisse no chão, ela com certeza pularia dentro dele. É até divertido imaginar o que se passa na cabeça dela e não consigo evitar tirar sarro da situação.
ㅡ Rico me disse que você estava jogando paciência no computador.
Meu tom é irônico e ela olha para o meu amigo, que se limita a encolher os ombros rindo. Ele diz um monte de bobagens. Você não deveria levar a sério o que ele fala.
Afiada como sempre na resposta... Isso vai ser engraçado.
Rico grunhe reclamando, porém nós dois o ignoramos. Para minha surpresa, ela resolve entrar na brincadeira.
ㅡ Eu sou tão boa na paciência, que o meu computador está precisando se recuperar da surra que levou.
Sorrio mais ainda, imaginando outras coisas nas quais deva ser boa também. S&xo, por exemplo? Porém, não importa o quanto eu deseje descobrir, não posso evitar continuar a tirar sarro da situação. Até porque ela fica com um lindo rubor na face.
ㅡ Dizem que sua habilidade na digitação é tão ruïm que seu computador resolveu se matar...
Então, ela faz uma piada ambígua de muito mau gosto.
ㅡ Meus dedos são melhores em outra coisa...
Rico, que até agora só esteve ouvindo, cai na gargalhada e eu fico sem ação por um instante, enquanto ela admira o esmalte das unhas. Não esperava por uma resposta dessas.
ㅡ Esse tipo de piada não é tão engraçada vindo de uma mulher.
ㅡ Poderia ser pior. O que está fazendo com o meu computador?
Ela tem o dom de me deixar no limite entre o desejo de beijá-la e a vontade de xingá-la.
Que raio de pergunta é essa? Não é óbvio?
ㅡ Estou tentando consertar a bagunça que você fez, não estou?
ㅡ Não. Só consigo ver um músico v@diando com um equipamento tecnológico caro.
Sorrio para ela divertidamente, apesar de não ter gostado do termo "v@diar".
Eu trabalho pra cass&te!
ㅡ O músico tem mais habilidades com o mouse, que a pessoa que deveria usá-lo todos os dias.
Rico se afasta e se apoia contra uma parede sorrindo, enquanto observa nosso duelo de provocações.
Está achando divertido, não é? Engraçadinho...
ㅡ Para o seu governo, não sou expert em computadores. Apenas armazeno informações nele.
ㅡ Nossa... Isso parece um trabalho bem complicado. Não te cansa?
ㅡ Não é cansativo ser um imbecïl?
Eu seria preso se tentasse beijá-la agora só para fazê-la engolir cada provocação e alegasse insanidade mental temporária depois? Ela certamente jogaria uma cadeira em mim.
Percebo de canto de olho meu amigo morder o dedo na tentativa de segurar o riso. Ele é um sacana mesmo. Devo confessar que é estimulante quando ela me esnoba desse jeito.
ㅡ Você não tem ideia, realmente é um desafio... Enfim, para a sua sorte, posso resolver o caos que você causou no computador.
ㅡ Eu não te pedi nada, muito menos sua ajuda! ㅡ Ela batuca no encosto da cadeira, como que para me fazer sair. ㅡ Caia fora da minha cadeira! Vamos, mexa-se!
Observo seu gesto com desdém. Decido me levantar lentamente sob seu olhar fulminante. Mais um pouco e acho que levaria um tapa. Ela já tentou antes, não custaria nada uma segunda vez.
Rico tinha razão. Ela não é uma garota qualquer. É tão orgulhosa quanto eu. Só que esse computador não vai voltar a funcionar pela graça divina. Quero só ver como ela vai se virar.