34 - Não é um encontro

2532 Palavras
*Michael PoV* Chego ao escritório bem cedo. Não dormi direito, para variar. Isso está se tornando um péssimo hábito. Temos que começar a ensaiar juntos para colocar as coisas nos eixos. Hoje também é o dia de pegar os dados do Grupo MEI na boate. É tanta coisa ao mesmo tempo... Resolvo tentar adiantar o encontro com McGregor e minha fonte, assim terei mais tempo livre para o ensaio. Para minha surpresa, quando abro meu laptop pessoal, que trouxe apenas por causa dessa situação, vejo que tenho uma mensagem. É do Lightwire. Surgiu um imprevisto e ele precisa que o encontro seja depois das vinte e três ho®as. Suspiro fortemente, sabendo que terei que marcar o ensaio para bem antes disso. Aviso o novo horário ao McGregor e ligo os meus computadores para mandar um e-mail a Amber Lee. Simples e conciso. Vamos trabalhar juntos. Nada mais. “Hoje à noite, às vinte ho®as.” Digito o meu endereço e envio a mensagem. Ela me responde confirmando da mesma forma. Não posso evitar ficar decepcionado, porém, o que eu esperava? Respiro fundo, mando uma mensagem ao Pete confirmando o ensaio e tento, pelo resto do dia, me concentrar no que tenho que fazer. Nos meus e-mails, encontro um do McGregor. Vejo fotos e orçamentos dos novos equipamentos que ele quer trazer para a empresa. É o que me anima um pouco. Resolvo assumir as rédeas e entrar em contato com o fornecedor eu mesmo. Tudo para ter certeza que faremos um bom negócio. Até porque, quanto mais eu me ocupar, menos tempo terei para fantasiar com ela. *Amber Lee PoV* Recebo uma mensagem do Michael marcando o ensaio da banda. É curta e direta. Eu suspiro e respondo da mesma forma. Rico estica os olhos na direção da minha tela e sorri. ㅡ Ele marcou? ㅡ Sim. O ensaio. Não é um encontro, então tire esses pensamentos esquisitos da sua cabeça. ㅡ Eu não pensei nada, ojitos. Suspiro forte diante de seu ar zombeteiro, que procuro ignorar pelo resto do expediente. Tarefa difícil, já que ele parece ter embarcado em uma louca missão de me juntar com seu amigo. Não sei porque ele acha que combinamos tanto. Tirando a música, não temos mais nada que nos aproxime. Então, eu me dou conta que, além das poucas informações em seu perfil de trabalho, não sei mais nada dele. Estreito meu olhar sobre Rico, concentrado em seu desenho, e tento buscar qualquer pista de algo que me diga mais sobre a vida de Michael. ㅡ Sabe, você nunca me falou muito sobre o Michael. Ele é daqui de Nova Iorque? Tem algum parente próximo? Nesse momento, a caneta digital na mão dele trava de forma abrupta e ele morde o lábio inferior, sem me encarar. ㅡ Ele é daqui, sim. ㅡ E? Rico suspira fortemente e deixa seu equipamento sobre a mesa. Bagunça seus cabelos mais ainda e me encara. ㅡ Não creio que deva ser eu a falar sobre a vida dele para você. É assunto dele, ojitos. Levanto uma sobrancelha desconfiada e o encaro. ㅡ Rico, você vive me dizendo que o Michael não é o bicho de sete cabeças que ele mesmo se pinta. E, a julgar pelo que vi até agora, duvido que ele tenha qualquer tipo de conversa nesse sentido comigo. Eu preciso saber onde estou pisando antes de quebrar a minha cara. ㅡ Bom… ㅡ Ele coça a nuca, ainda procurando as palavras. Eu cruzo os meus braços, sem demonstrar intenção de recuar. ㅡ Ele tem um pai, mas não estão em bons termos. Não sei nem dizer se algum dia estiveram. M@l se falam, o velho dele é realmente uma pessoa difícil, sabe… Engulo em seco e não sei se quero continuar a ouvir. Eu mesma estou sem falar com os meus pais. Saber que o Michael passa por algo parecido, só faz com que eu me sinta culpada por tê-lo julgado. Sempre achei que seu jeito arrogante, debochado, convencido e irritante fosse fruto do seu ego gigantesco por causa de sua aparência. Talvez, seja apenas um mecanismo de defesa. ㅡ Por que o súbito interesse nele? Está pensando em dar uma chance? Um novo sorriso convencido cresce em seus lábios e eu gaguejo. ㅡ Ch-chance? Para o quê? ㅡ Não sei… É você quem está perguntando. Por que não me conta? ㅡ Não estou interessada nele dessa forma! Tire essas minhocas da cabeça! ㅡ Tudo bem… Rico tenta segurar o riso, porém eu noto o esforço que faz. Apenas solto o ar com força, tentando organizar minhas ideias. ㅡ Estive pensando se não fui muito dura com ele, como fui com a Dorothy. Eu não sabia do problema dela e falei aquela besteira no auge da minha raiva. Talvez, eu esteja fazendo a mesma coisa com o Michael. Só isso. Vamos fazer parte da mesma banda. Tem uma coisa que a minha avó sempre me dizia, que os integrantes de uma banda devem estar em harmonia. Eu e Michael… Somos uma mistura muito volátil. ㅡ Dentro de uma panela de pressão… ㅡ É… O semblante dele muda, ficando mais empático, e sua mão pousa em meu ombro. ㅡ Ojitos, eu não gosto de falar da vida dele, pois ele mesmo não se sente à vontade com isso. Seria como trair a confiança dele, mesmo que ele nunca saiba que foi eu quem abriu a boca. Eu vou saber e isso para mim é o suficiente. Amizade é confiança. Só o que eu posso te contar, é que ele é uma pessoa maravilhosa, mesmo que te xingue, te esnobe ou ria da sua cara. Porque, no final de tudo, ele sempre vai dar o sangue dele para te ajudar sem pensar duas vezes. Minha primeira reação é ficar surpresa. Depois, eu sorrio para o meu amigo. ㅡ Obrigada, Rico. *Michael PoV* Saio do trabalho no horário, pois quero chegar cedo em casa e me certificar que as coisas estejam em ordem. É a primeira vez que ela vai ao meu apartamento. Tudo tem que estar perfeito. Depois de um banho, visto uma roupa casual e confortável. Bermudão preto e minha camiseta preta favorita, com uma caveira enorme estampada no peito. Então ouço a campainha. Pete avisou que se atrasaria uns dez minutos. Só pode ser ela. Respiro forte para assumir o controle de mim mesmo e abro a porta. Por que um short, meu Deus? Só para me torturar com a visão das suas pernas? Não é curto demais e nem vulgar, ainda assim, é um tormento. Ela está parada diante de mim, também me sondando com o olhar. Pete tem razão em um ponto. Estamos a fim um do outro. Ela não olha desse jeito para ele ou para o Rico. De certa forma, estou contente por ela ter vindo. Afasto-me um pouco para deixá-la entrar. Percebo o teclado que ela traz debaixo do braço. Decido quebrar o silêncio constrangedor entre nós. ㅡ Dá. Parabenizo a mim mesmo pelo comportamento primitivo. Sequer consigo dizer uma frase simples de forma correta. Tanto, que ela nem entende meu gesto educado. Aponto com o queixo para seu instrumento e só então ela o entrega a mim, que coloco sobre a mesa de centro, depois de remover a capa. Fico impressionado por ver um modelo profissional, sinal que ela leva a sério o que faz. Talvez, ela seja realmente quem precisávamos para completar a Everlasting. Mais uma razão para não estragar tudo com um romance. Vamos continuar com a educação. É a melhor forma de lidar com essa situação esquisita. ㅡ Você quer beber alguma coisa? Ela aceita e vou na cozinha pegar duas cervejas. Também preciso beber algo para relaxar. Quer dizer, relaxar para o quê? Isso não é um encontro amoroso. Não vamos terminar a noite na minha cama, mesmo que eu queira muito isso. É trabalho. Apenas trabalho. Evito olhar em seus olhos quando lhe entrego sua bebida para que ela não perceba o caos que causa dentro de mim. ㅡ Pete está atrasado, mas já está a caminho. Amber Lee também parece desconfortável. Fico andando em círculos pela sala, enquanto ela se senta em meu sofá. ㅡ Sua casa é legal. ㅡ Hum, obrigado. Que situação... Uma garota linda na minha casa e está completamente fora do meu alcance. Sinto seu olhar penetrante em mim e resolvo encará-la. Ela tenta manter uma conversa. ㅡ Seu apartamento é completamente diferente de como eu tinha imaginado. Levanto uma sobrancelha, achando graça da situação. Ela ainda me acha um ser primitivo. Sento na poltrona diante dela e tomo um gole de cerveja. ㅡ Você imaginou que eu morasse em uma caverna? ㅡ Sim... Ou em uma gaiola para animais perigosos... Sorrio discretamente e continuo a observá-la. Normalmente, não tenho dificuldade em desenvolver um diálogo, porém, na presença dela, as palavras me fogem. Meu cérebro tão perspicaz fica completamente sobrecarregado. Mulher para mim nunca foi problema. No entanto, Amber Lee me tira dos eixos. Percebo o nervosismo dela, quando ela batuca com os dedos no braço do sofá. Depois, confere a ho®a no relógio do seu celular. Tenho que tentar quebrar esse clima desconfortável. Como vamos tocar juntos desse jeito? ㅡ Você conseguiu achar fácil o caminho? Foi o melhor que pude pensar no momento. ㅡ Hum... Sim... Não me parece que você costume ter gente em casa com frequência, ou estou errada? Franzo a testa em descrença. Ela podia parar com esse tipo de pergunta. Não sou um bicho! ㅡ Não. Normalmente prefiro ficar só a maior parte do tempo. ㅡ Isso é meio estranho para um metaleiro. ㅡ Existe vida dentro e fora do palco. O silêncio perturbador se instaura entre nós outra vez. Confiro a ho®a no meu celular. Merd@, Pete! Onde você se meteu? Tenho compromisso com o McGregor mais tarde! Quando ele finalmente chega, o clima ameniza um pouco. Contudo, começo a ficar irritado com a reação dela, no quanto ela fica feliz com a presença dele. Deve ser realmente horrível passar um tempo comigo. Como poderia culpá-la? M@l trocamos meia dúzia de frases. ㅡ Você disse que se atrasaria dez minutos, não uma ho®a! ㅡ Estou exatamente dezessete minutos atrasado, Michael. Pareceu-me uma eternidade. A cara de bobo alegre dele é insuportável. Deve ter feito de propósito. Ele me ignora, se senta no braço do sofá ao lado dela e alisa seus cabelos vermelhos. Que porr@ é essa agora? Está flertando com ela? ㅡ Do que você está reclamando, Michael? Você estava com uma companhia encantadora, não estava? Até deu um pouco de tempo para se conhecerem. Que conversa fiada é essa? Depois do que falamos ontem, como ele vem com esse papo hoje? ㅡ Sim, a companhia encantadora aqui conheceu bem o silêncio. É um complô para me enlouquecer? Infe®no! *Amber Lee PoV* O clima tem ficado cada vez mais quente. Opto por uma camiseta listrada e um short jeans com tênis. Preciso estar confortável para enfrentar a fera. Meus nervos parecem que irão saltar para fora do meu corpo. Empacoto meu teclado em sua capa protetora e pego um táxi até a casa de Michael. O bairro do Chelsea é bem pitoresco, muitas residências parecem armazéns transformados. O prédio do Michael fica bem perto do porto. Eu noto todos os detalhes da área apenas para me distrair da tensão que consome o meu corpo ao pensar que logo vou entrar em seu covil. É só para ensaiar, Amber Lee. Não é um encontro. Pete vai estar lá, então não há razão para achar que… Eu interrompo minha linha de pensamentos quando o motorista do táxi informa ter chegado no endereço. Pago a corrida e entro no prédio, pegando o elevador para o seu andar. Fico alguns instantes diante de sua porta, sem saber o que fazer. Meu corpo treme de antecipação. Há muita coisa em jogo, então é melhor ir com calma. Finalmente, toco a campainha. Ele não demora muito a atender, porém fica um tempo me encarando da porta. Tempo demais. Troco o peso do corpo de um pé para o outro, tentando aliviar a pressão que seus olhos cristalinos exercem sobre mim. Ele me olha como se fosse me comer viva a qualquer instante… Engulo meus pensamentos e dou uma boa olhada nele. Bermudão e camiseta, bem informal, completamente diferente da imagem da empresa ou do líder da Everlasting, porém não menos tentador. Esse Michael casual é um colírio para os olhos, principalmente pelos bíceps delineados à mostra. Qual é, Amber Lee! Você veio para tocar! Finalmente, ele se afasta um pouco da porta para que eu possa entrar e eu poderia jurar que ele está tão nervoso quanto eu. Eu diria até deslocado em sua própria casa por causa da minha presença. Sequer entendo quando ele se oferece para segurar o meu teclado. Situação esquisita… Continuando com a educação, ele me oferece uma bebida para esperarmos o Pete, que está atrasado. Eu me sento em seu sofá, enquanto ele perambula pela sala, e tento puxar conversa. É mais fácil falar com uma parede. Perdida no meio desse estranho diálogo, acabo falando qualquer coisa. Ele fica visivelmente aborrecido. ㅡ Não. Normalmente prefiro ficar só a maior parte do tempo. ㅡ Isso é meio estranho para um metaleiro. ㅡ Existe vida dentro e fora do palco. Ele se aborreceu mesmo. A carranca em seu rosto é prova mais que suficiente. É melhor manter minha boca fechada e só responder o que ele perguntar. O problema é que ele não fala mais nada e quem começa a se irritar sou eu. Fala sério! Eu vim de uma cidade pequena, porém ele é quem parece o bicho do mato! Pete finalmente chega e eu fico extremamente aliviada por não estar mais sozinha com Michael, que discute com seu baterista por causa do atraso dele. Pete o ignora a princípio e se senta no braço do sofá ao meu lado. Ele faz um carinho gentil na minha cabeça e eu relaxo um pouco. Até notar a irritação aumentar dentro daqueles olhos cor de gelo. Porém, seu amigo parece não perceber. ㅡ Do que você está reclamando, Michael? Você estava com uma companhia encantadora, não estava? Até deu um pouco de tempo para se conhecerem. Será que ele se atrasou de propósito para nos dar esse tempo a sós? Foi muito legal da parte dele, pena que tenha sido em vão. Eu respiro fundo e não consigo evitar minha resposta irônica. ㅡ Sim, a companhia encantadora aqui conheceu bem o silêncio. Sem dizer mais nada, além de um grunhido gutural, Michael some por um corredor. Pete suspira e coça a cabeça um pouco sem graça, antes de fazer a gentileza de pegar meu teclado. ㅡ Sinto muito pelo comportamento do Michael, Amber Lee. Ele não é muito sociável. ㅡ Diga-me uma novidade. Eu pisco para ele, que sorri. Ele me guia pelo corredor por onde Michael passou. Não é longo, há três portas apenas. Duas são opostas e há uma no fundo. Acredito que o quarto do Michael seja uma delas. Eu me pergunto como deve ser a toca dele. Isso não importa, Amber Lee. Não foi para isso que veio. Controle-se!
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