*Michael PoV*
Pete me ajudou a levar os instrumentos de volta para o estúdio no meu apartamento, já que Rico se prontificou a levar Amber Lee para casa. Às vezes, me pergunto se ele não faz isso para me provocar. Com certeza a resposta é sim. Após organizar tudo no estúdio, eu observo um momento minha Telecaster na parede ao lado das demais. Comecei a fazer coleção desses instrumentos, porém ela foi a primeira. Foi como tudo começou.
ㅡ Tudo bem, parceiro? ㅡ Pete faz sua pergunta com a mão no meu ombro. Apenas sacudo a cabeça positivamente. Ele cruza os braços sobre o peito e também admira minha Fender. ㅡ Ela realmente é linda e forte.
Olho para ele com a testa franzida.
ㅡ Desde quando gosta de algum instrumento que não seja de percussão?
Ele pisca e sai andando de volta para a sala.
ㅡ Eu não estava falando da guitarra...
Suspiro derrotado. Ele vai querer me questionar a qualquer custo. Melhor que seja agora, que estamos sozinhos. Vou para a cozinha e pego duas cervejas para nós. Entrego-lhe uma e sento-me na poltrona, olhando para ele, que está no sofá.
ㅡ Pergunte...
ㅡ Por que mudou de ideia? Você parecia querer comê-la viva.
Fato.
ㅡ Eu a vi tocar uma vez, Pete. No happy hour do Butterfly. E, o que eu ouvi, mexeu comigo e me fez voltar a pensar em incluir um teclado na banda. Você sabe que eu sempre quis algo assim para a Everlasting, deixaria nosso som mais encorpado, até comprei um suporte para o teclado, porém nunca achei alguém bom o suficiente.
ㅡ Eu sei. Então, se ela é tão boa assim, por que a rejeitou no começo?
ㅡ Sabe o que mais me aterroriza nisso tudo? Que ela surte no meio do palco, saia correndo, desmaie, ou qualquer outra coisa que nos exponha ao ridículo.
ㅡ Isso é um paradoxo, sabia, parceiro?
ㅡ Eu sei… Não posso deixar a banda morrer, Pete. Se a Dorothy realmente não quiser mais tocar, pelo menos teremos a Amber Lee. Tive sorte na vida, ganhei muitas chances. Não que eu merecesse. Quero dar uma chance à ela também. Toda vez que ela fala de música, seus olhos brilham como se algo estivesse preso dentro dela, gritando para sair.
Seu olhar se torna sério e ele me encara profundamente.
ㅡ Ah, merd@, Michael... Você tem uma queda por ela...
Procuro conter a minha surpresa por sua perspicácia. No final, acabei falando demais.
ㅡ Não diga bobagens, Pete!
ㅡ Cara, dá para cortar com uma faca a tensão entre vocês, e não é só pelo fato dela entrar para a banda. Você gosta dela. Pelo o que percebi, é recíproco.
Também notei isso, gênio.
ㅡ Ela é da Everlasting agora. Não daria certo misturar as coisas. Além do mais, ela também trabalha na McGregor Corporation, em outro setor diferente do meu.
ㅡ É, o Rico me disse que ela trabalhava com ele e como ela parou lá.
Eu fico tenso de repente. Rico não é do tipo que quebraria uma promessa, mas eu tenho que ter certeza mesmo assim.
ㅡ O que ele te contou?
ㅡ Que um filho da mãe tentou abusar dela e ele chegou a tempo de impedir. Como ela era formada em Marketing, a Lauren levou o currículo dela e o gerente a empregou, mesmo ela não tendo experiência. ㅡ Ele alisa o queixo, pensando alto. ㅡ Eu sempre achei que a McGregor Corporation fosse mais exigente com relação aos seus candidatos. Acho que alguém intercedeu por ela, mas a Lauren e o Rico não têm bala na agulha para… ㅡ Desvio meu olhar para o chão diante da expressão surpresa dele. ㅡ Foi você, não foi?
ㅡ Eu o quê?
ㅡ Você mexeu os pauzinhos junto ao chefão, não mexeu? Não tem outra explicação. O seu CEO vive te ligando, como se você fosse o segundo no comando daquela empresa.
ㅡ Não delire, Pete… ㅡ Ele cruza os braços e me encara com determinação. Eu só posso suspirar. ㅡ Está certo. Fui eu. Pedi ao McGregor para dar uma chance para a Amber Lee e o gerente do setor acatou, mas prometa que nunca contará para ela, está bem?
ㅡ Por quê? Isso poderia acabar com toda essa tensão entre vocês, sabia?
ㅡ Talvez, contudo seria totalmente errado. Ela poderia até achar que eu estaria atrás de algum favor dela. O pior é que eu sei que ela é boa. Por isso, acabei concordando com a ideia do Rico. Ela é fabulosa, Pete.
Ele abre os braços de forma teatral, como se tivesse encontrado o pote de ouro no final do arco-íris.
ㅡ Você não percebe? É o destino lutando para juntar vocês! Não bastasse todas essas situações os envolvendo, agora ela caiu como uma luva para a banda! Michael, você seria um imb&cil se deixasse essa chance passar.
Recosto mais na poltrona e respiro profundamente.
ㅡ Você sabe o que penso sobre me envolver com colegas de trabalho. Além do mais, Rico me disse que ela não é o tipo de garota que embarca em uma aventura de uma noite. Você sabe como eu sou, Pete. Não paro com mulher e não tenho a intenção de me amarrar.
Nesse momento, paro de falar e mordo a bochecha internamente, olhando para o chão. Na verdade, é a primeira vez que penso sobre isso. Nunca havia me preocupado se iria ou não magoar o coração de alguém. O meu sempre esteve fechado.
ㅡ Você pensa demais, parceiro.
Eu sei disso. É mais seguro assim.
Decido mudar o assunto. Não que o tema seguinte me deixasse menos desconfortável.
ㅡ Sunny falou algo com você?
ㅡ Amber Lee deve te perturbar muito, para você preferir falar do seu pai.
ㅡ Não tenho pai. Nunca tive. Aquele sujeito é um doador de espe®ma.
Meu amigo dá uma risada rápida e contida. Tira do bolso da calça jeans um dinheiro e o coloca sobre a mesa de centro entre nós.
ㅡ Pois o doador de espe®ma recusou a grana que você mandou. Talvez, seja ho®a de tentar uma conversa amigável, sabe. Espantar os dem∅nios...
ㅡ O único dem∅nio na minha vida se chama Sunny Denver. Já se esqueceu de quando ele quebrou a minha perna para que eu não fosse atrás da minha mãe? Ou das surras que eu levava só por ter olhado para ele? Das costelas quebradas?
ㅡ Não, não esqueci. ㅡ Ele suspira, passando uma mão no rosto. ㅡ Só não quero que continue mantendo pessoas que gostem de você à distância. Você vai acabar sozinho, como o seu pai.
ㅡ Já acabou o sermão?
Ele finaliza sua bebida e se levanta. Estou terrivelmente irritado por causa dessa conversa e ele sabe disso.
ㅡ Só pense no que eu falei. Todo dem∅nio deve ser exorcizado, parceiro. Por mais doloroso que seja. Até amanhã.
Ele vai embora e fico sozinho com meus pensamentos. Pego o celular na mesa de centro e tento ligar para a Dorothy. Ninguém atende. Deixo um recado para que me ligue, o que acho pouco provável.
Acesso minha conta na nuvem e marco os arquivos das partituras das músicas que iremos ensaiar, enviando tudo para Amber Lee. Depois, revejo as mensagens do Rico e olho as fotos dela. Eu as apago, assim como o vídeo, e uma enorme tristeza me invade.
É para o bem da banda.
*Amber Lee PoV*
Assim que chego em casa, pego Mylla no colo e me sento no sofá, meu olhar vidrado no meu teclado. Estou uma pilha de nervos e, ao mesmo tempo, excitada. Não só pelo fato de que eu finalmente vou poder realizar o meu sonho, mas também pelo fato do homem que gosto também ser parte disso.
Admita, Amber Lee. Você gosta daquele ogro. Porém, não vou me ater a falsas esperanças. Michael não é o tipo de cara que se prenda a ninguém. Ele deixou isso bem claro quando beijou aquela garota, logo após ter me oferecido um brinde como quem presenteia uma rosa. Eu seria apenas mais uma em seu caderninho e isso partiria o meu coração em mil pedaços.
Eu suspiro e decido cuidar da minha gatinha. Água, comida, caixa de areia. Jogo um brinquedo velho dela fora e faço um lembrete no celular para repor. Então, uma notificação de e-mail chega. São as partituras com as músicas da banda. Saio de casa, não vou muito longe, apenas até a lan house na esquina para imprimir o material que Michael me mandou. Quando retorno, tomo um banho, como algo leve e me posiciono diante do teclado com os papéis recém-impressos em mãos, estudando-os com atenção redobrada. Por já ter ouvido essas músicas, tudo parece mais fácil.
Bom, ho®a de começar a praticar.
Coloco as partituras no apoio do meu instrumento e começo a tocar. Erro muito no começo por diversas razões. A principal é o fato de serem músicas feitas por ele. Elas falam comigo e tocam o meu coração profundamente. Então, me lembro do beijo que ele deu naquela oferecida. Minhas mãos travam sobre as teclas, enquanto meu corpo parece entrar em colapso, tremendo sem controle.
Vamos lá, Amber Lee. Você tem que canalizar essa energia e esquecer o que sente por ele.
Conforme continuo minhas tentativas, percebo que esquecer o que sinto me bloqueia muito mais. Como na noite que o conheci, deixo meus desejos aflorarem e uso como gatilho para reacender a centelha que esteve adormecida, até Michael Denver surgir na minha vida.
Conforme eu me deixo levar, os erros desaparecem, pois não penso mais em seu jeito promíscuo e arrogante de levar a vida. Eu me apego aos pequenos detalhes que ele deixou escapar sem querer. Que ele é capaz de ser gentil, atencioso e educado quando quer, apesar de preferir ser tachado como emocionalmente inacessível.
Eu fico ho®as no teclado, até meus dedos começarem a tremer de exaustão. O relógio na tela do meu celular marca três ho®as da manhã. Decido que é melhor dormir um pouco.
Eu vou te surpreender, Michael.