32 - A nova integrante

2714 Palavras
*Michael PoV* ㅡ Que merd@! O xingamento do Pete destoa do silêncio fúnebre no bar. Passo as mãos pelos cabelos para tentar me acalmar, pois estou à beira de esmurrar a mesa ou a parede para extravasar a raiva e o estresse. Porém, a situação já está tão feia, que recorro ao mínimo de razão que ainda me resta. Pete começa a dispersar as fãs. Ele sempre foi o cara calmo e centrado, que ameniza as coisas no final das contas. Não eu. Sempre quebro ou estrago tudo o que toco. O que a Dorothy fez foi minha culpa. Acho que nunca fui incisivo o suficiente, para ela entender que jamais vai acontecer algo entre nós dois. Não da forma como ela quer. Uma sensação desesperadora toma conta de mim, quando lembro que a próxima apresentação daria uma chance real a Everlasting de ser notada por uma produtora. Talvez até gravar um álbum, entrar em turnê pelo país. O sonho de adolescência, que virou a paixão da vida adulta, se tornaria realidade. Eu suspiro gemendo alto, retorno para o backstage e entro no camarim. Ando de um lado para o outro, me sinto um animal enjaulado. Simplesmente, não vejo solução e teremos que cancelar nossa apresentação, o que não ficará bem para a imagem da banda. Dar adeus a tudo o que planejamos, jogar fora todo o trabalho e sacrifícios que fizemos em nome da Everlasting. Pete acabou me seguindo, assim como Rico e Amber Lee. Queria muito poder dar a atenção que ela merece. Eu iria dispensar aquela tiete logo, antes da Dorothy resolver chutar o balde. No entanto, agora minha mente só consegue ferver de ódio. Antes eu tivesse levado uma facada no peito, seria mais misericordioso. Meu baterista se joga no sofá, com as mãos largadas sobre os joelhos. Ele está tão destruído quanto eu. É duro ver um sonho ser despedaçado assim. ㅡ Dessa vez estamos realmente ferrados, Michael… Dorothy não pode fazer isso, não agora! Ela sabe o quanto isso é importante para nós… ㅡ Ela não se importa! Chuto uma caixa no chão com raiva. ㅡ É o show das nossas vidas... Mas que s@co! Pode ser o nosso começo! Se mandarmos bem, um produtor pode nos notar... Eu sei de tudo isso... ㅡ Você consegue nos imaginar tocando apenas com um violão e uma bateria em um show desses? Um dueto? Não foi o combinado… Estamos f0didos! Acabou! Vamos ter que cancelar... Ouvir-me dizer isso em voz alta me dói na alma. ㅡ Temos que convencer a Dorothy a voltar... Pete sempre é tão esperançoso... Ela está instável demais. Mesmo que voltasse atrás, poderia nos abandonar novamente. ㅡ Ela é mais teimosa que uma mula. Não podemos confiar nela por enquanto. Considerando que ela concorde em voltar, o que aconteceria se ela desse outro piti no dia anterior ao show? ㅡ Você terá que falar com ela, Michael. Ela vai te ouvir. Isso é pouco provável, levando-se em conta que a rejeitei. Mais uma vez. Certamente foi o gatilho, somado ao álcool e à droga que ela tomou, que nos colocou nessa situação. Devo ser a última pessoa na face da Terra que ela gostaria de ver no momento. ㅡ Não… As palavras se perdem no fundo da minha garganta. Enterro as mãos nos bolsos e continuo zanzando de um lado para o outro. Acho que vou abrir um buraco no chão de tanto andar. Essa sensação de impotência é frustrante demais. Então, ouço Rico pigarrear, até havia esquecido que ele estava aqui. Quando o encaro, ele está com a mão erguida, igual a uma criança esperando a autorização do professor para falar. ㅡ Hei. Deixe-me lembrá-los de que a Amber Lee toca e ela tem um teclado. Talvez, possa ajudá-los no show, não? Pelo menos, até a Dorothy se acalmar. E mais, ela tem uma voz linda. *Amber Lee PoV* Rico e eu seguimos atrás de Michael e Pete. Eles ficaram muito abalados com o que aconteceu. Eu nem consigo acreditar. A Dorothy é louca! O que eu não daria por uma oportunidade dessas… Tudo o que eu queria, quando fugi de casa e vim para essa cidade, era a chance de tocar e de perseguir o meu sonho. Um sonho que a minha avó cultivou até os últimos dias de sua vida. Não consigo entender como alguém tem isso e joga tudo para o alto dessa forma. Observo os rapazes da banda debatendo sobre ter que cancelar a apresentação. Isso não é bom, até uma leiga nesse mundo musical como eu sabe disso. O Dream Theater é uma banda famosa, não é qualquer um que consegue uma ponta em um show deles. Entendo toda a frustração dos rapazes, principalmente do Michael, que mais parece um animal ferido perambulando e rosnando pelo camarim. Queria tanto abraçá-lo e confortá-lo agora… Eu contenho meu ímpeto, pois, na verdade ele também tem sua parcela de culpa. Lauren me disse que a Dorothy é apaixonada por ele. Vê-lo se atracar com outra garota deve ter doído, assim como doeu em mim. Agora, me sinto até culpada. Eu fui dura demais com a Dorothy. Talvez, eu faça parte da decisão descabida que ela tomou em deixar a banda. Do nada, Rico ergue a mão como um colegial pedindo autorização para falar. O que ele diz, me faz entrar em parafuso. ㅡ Hei. Deixe-me lembrá-los de que a Amber Lee toca e ela tem um teclado. Talvez, possa ajudá-los no show, não? Pelo menos, até a Dorothy se acalmar. E mais, ela tem uma voz linda. O quê? Fico sem reação, completamente chocada. Apesar disso, sinto uma euforia nascer em algum lugar dentro de mim. Será que eu seria capaz? Pete levanta como se tivesse levado um choque e me agarra pelos ombros. É tão repentino, que eu fico congelada no lugar. Os olhos dele brilham com esperança. ㅡ É claro! Essa é uma ótima ideia! Você tentaria com a gente, Amber Lee? Estou aterrorizada e excitada ao mesmo tempo. De repente, tudo o que eu sempre busquei está se concretizando. Até Michael quebrar o meu lindo sonho. ㅡ Não, pare! O que você está fazendo? ㅡ Ele me encara friamente, duvidando claramente da minha capacidade. ㅡ Amber Lee? Sério? Você já olhou para ela? Nós temos uma banda de metal, não uma orquestra de escola! ㅡ Como é que é? Quem ele pensa que é para me julgar desse jeito? Se ele acha que vai me intimidar e me fazer recuar, está muito enganado! Não vou perder essa oportunidade de forma alguma! *Michael PoV* Meus olhos vagam do Rico para ela, que está completamente aturdida pela sugestão. Eu também. Amber Lee pode até saber tocar, porém enfrentar uma plateia em um grande show é algo completamente diferente de um happy hour no Butterfly. E, pelo o que eu saiba, ela não tocou mais por causa do que o Fabian fez. Uma apresentação como a abe®tura de um show do Dream Theater requer controle, segurança e um s&x appeal capaz de envolver o público. Coisas que não creio que ela tenha. Pior do que ter que cancelar, seria fazer papel ridículo por causa da inexperiência dela. Sem chance! Quando estou prestes a negar, Pete se levanta e a agarra pelos ombros, o que a deixa mais assustada ainda. Ele se comporta como se estivesse diante do Santo Graal. ㅡ É claro! Essa é uma ótima ideia! Você tentaria com a gente, Amber Lee? Estou sonhando. Não, é um pesadelo. Put@ merd@, Pete! Por que vai atrás das ideias malucas do Rico? ㅡ Não, pare! O que você está fazendo? ㅡ Olho para ela de cima a baixo friamente. Está na cara que ela não tem condições. ㅡ Amber Lee? Sério? Você já olhou para ela? Nós temos uma banda de metal, não uma orquestra de escola! ㅡ Como é que é? Achei que ela fosse ficar aliviada pela minha negativa, visto que até tremeu na base quando a sugestão surgiu. Porém, aqui está a coelhinha assustada, me encarando de forma tão insolente, que parece querer se transformar em uma leoa. A reputação da banda está em xeque. Não vou por todas as minhas fichas nessa garota que, para início de conversa, só me provocou desde o começo. Seria impossível me apresentar ao lado dela. Ela nem sabe o que toca! Fora que uma banda deve ter química entre os integrantes. Tirando a óbvia tensão s&xual entre nós dois, não há mais nada. É o que fico repetindo para mim mesmo, tentando me convencer. Ela não se intimida com meu ar frio e desdenhoso. Devo estar perdendo o jeito. ㅡ Quem você pensa que é? Eu toco desde os cinco anos! Não sou amadora! Banda de metal ou não, amigo, não tem mais ninguém nessa sala capaz de te ajudar! Como ela ousa falar assim comigo? Eu sei muito bem a merd@ na qual estou! Eu deveria calar sua boca com a minha, o que seria uma péssima ideia. Ela parece tão furiosa quanto eu. ㅡ E tem mais, senhor Michael Denver. Fiz um curso profissionalizante de música. Posso tocar do rock ao jazz, se você quer saber! Minha avó era backing vocal em uma banda de jazz bem conhecida, a Velvet Sky, que, se não me engano, não é o seu caso. Sua “famosa” Everlasting precisa desse show e, aparentemente, você precisa de mim! Que audácia! Mulher dos infe®nos! Pior é que eu sei que é verdade. Li seu currículo e o curso que ela fez é quase uma faculdade. Sinto meu corpo todo tremer e rezo para que ela não perceba. Estou com uma raiva enorme e, ao mesmo tempo, ex©itado com a hipótese de passar mais tempo com ela. É o que vai acontecer se ela entrar para a banda. Longas noites de ensaio no meu estúdio, no meu apartamento. Porr@! Não posso arriscar a reputação da banda por causa de uma traπsa! ㅡ Só depende de você, Michael. É capaz de superar o seu sarcasmo e preconceito? Você é capaz de se comportar como um profissional de verdade? ㅡ Ela coloca um dedo no meu peito. Qualquer outra pessoa teria o braço quebrado por isso. ㅡ Experimente-me. Veja se atendo às suas expectativas. Essa frase é tão ambígua que quase deixo cair minha máscara. Só o que eu mais quero é passar mais tempo com ela. Ela continua seu discurso lógico e me atinge em cheio ao falar do Pete. ㅡ Não é a minha vida em jogo. Você decide, mas saiba que você não é o único envolvido. ㅡ Ela estica o braço na direção do meu baterista, porém eu não olho para lado algum. Minha atenção é toda dela. ㅡ Eu não preciso de você, Michael. Você é quem precisa de mim. Impulsivamente, pego uma mecha de seu cabelo. Não sei qual foi a razão disso. O fato dela permitir o meu toque, acalma a tempestade dentro de mim. Resolvo me afastar um pouco, dando uns três passos para trás. Preciso ter a mente clara e focada na decisão que vou tomar. Por tudo o que ela disse, parece capaz. No entanto, a Everlasting é toda minha vida, pelo menos, a parte boa. Não suportaria ver esse trabalho de anos jogado fora, de uma forma ou de outra. Seja porque deixei passar essa oportunidade, ou porque permiti uma estranha estragar tudo. As palavras do Pete voltam como um bumerangue na minha cabeça. Oportunidade… Talvez, eu esteja sendo duro demais. ㅡ Eu vou atender às suas expectativas. Dê-me uma chance de mostrar do que sou capaz. Espero sinceramente que sim. Mordo meus lábios sem sequer perceber. Os olhos dela me observam de forma muito incisiva. Há um brilho diferente neles, e não sou eu quem está causando o fascínio que vejo, mas a possibilidade de tocar conosco. Ela disse tocar desde criança... Geralmente, quando isso persiste por tanto tempo, está enraizado na alma. Como acontece comigo. Existe uma força dentro dela que chama por isso. Consigo ver, agora que a ira dentro de mim se foi. Ira causada pela Dorothy e acabei descontando nessa garota, que está apenas tentando me ajudar. Eu sou um idïota. Contudo, será trabalho. Mais do que nunca, não posso misturar as coisas. É pela banda. Se eu me deixar levar e me envolver com ela, posso colocar tudo a perder. *Amber Lee PoV* ㅡ Está bem. Pete sacode as mãos para o alto, comemorando, e suspiro aliviada que Michael tenha concordado. Ele até sorri para mim, como me dando as boas vindas. Só agora o peso da responsabilidade do que aceitei fazer me atinge. Eu vou tocar em uma banda? Céus! ㅡ Você tem mais personalidade do que eu pensava. Por um momento, fico irritada com sua observação. Porém, ao olhar em seus olhos sorridentes, vejo uma sinceridade singular. Algo que jamais pensei que ele fosse capaz de emanar. Claro, Amber Lee. Ele está acostumado com garotas fáceis e vazias, apenas interessadas em se dar bem. Vou provar para ele que sou muito mais do que um rostinho bonito. Que eu tenho talento e mereço essa chance. ㅡ Você é muito gentil. O sorriso dele se alarga, enquanto ele se apoia contra a parede, cruzando os tornozelos. Suas mãos encontram o interior de seus bolsos e Michael me observa atentamente. Pete se mete no meio desse clima cordial que se formou entre nós. ㅡ Isso é ótimo! Obrigado, Amber Lee. Tenho certeza que você vai arrasar, vamos trabalhar juntos! Se for preciso, ensaiaremos todos os dias até estarmos prontos. Muitos ensaios serão realmente necessários. Eu sou muito crua e nunca toquei para estranhos, apenas em festas na casa dos meus pais. Michael parece ler meus pensamentos e assume um ar irônico. Fecho meu rosto em uma carranca, antes de admitir minha fraqueza. ㅡ Nunca toquei em uma banda. Muito menos metal. ㅡ Bom… A princesinha se misturando com os adoradores do di@bo, pois é assim que a maioria dos metaleiros são vistos. Pergunto-me onde eu estava com a cabeça para aceitar essa situação… O comentário mordaz dele causa uma ebulição dentro de mim e não meço minhas palavras. ㅡ Pois, saiba que a princesinha aqui, tem o poder de acalmar as bestas do Apocalipse! Michael ergue levemente as duas sobrancelhas, divertido com minha resposta. Pete dá de ombros e tenta dispersar a tensão que voltou a crescer entre nós dois. ㅡ Não se preocupe, nós nos adaptaremos. Mudaremos um pouco seu look para combinar com o visual da banda. Você vai ficar perfeita! ㅡ Então, ele começa a andar para lá e para cá, divagando. ㅡ Temos apenas cinco músicas para tocar. Você me acompanha no ritmo para substituir a Dorothy. Não tiro meus olhos de Michael, enquanto Pete fica traçando uma estratégia. Logo, eu vejo seu sarcasmo e ironia se dissiparem, para o profissionalismo assumir o controle. *Michael PoV* ㅡ Nós vamos ensaiar muito, todos os dias. Se você está pensando que será como tirar férias, esqueça. Vou fazer você tocar até me implorar para parar. Está pronta para isso? ㅡ Ela concorda, com um olhar desafiador direto para mim. ㅡ Todas as noites, depois do trabalho, na minha casa. Gostaria que você fosse à minha casa para outra coisa, porém nem tudo é como a gente deseja nessa vida. Rico se levanta e a abraça, fazendo um cafuné no topo de sua cabeça, como se ela fosse um filhote de cachorro. Apesar disso me incomodar terrivelmente, eu me mantenho impassível. Está na ho®a de acabar com esse jogo perigoso. Tem muita coisa em risco aqui. ㅡ Você vai ser incrível, tenho certeza! ㅡ Diz meu amigo, que teima em manter as patas nela. Se ele não está a fim dela, como me jurou, para que tanto contato físico? A única coisa boa de toda essa história é que trocamos e-mails, para que ela pudesse receber as partituras, além de números de celular. Não que eu já não soubesse, afinal meu nível de acesso me permitiu ver essas informações em sua ficha, porém, agora, tenho uma desculpa plausível para entrar em contato com ela. Entretanto, seria péssimo criar mais um clima estranho. Se nós nos envolvermos e acabar de forma ruïm, é o fim da banda. Não vou permitir isso.
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