*Michael PoV*
Retorno para casa com um milhão de ideias na cabeça. Amber Lee chega pouco tempo depois e seguimos para o estúdio.
Preciso fazer tudo certo. Quero que ela entenda que as minhas intenções são sinceras.
Só o que eu precisava hoje era desse ensaio. Perder-me na música, com ela ao meu lado. Meu mundo costumava ser particularmente solitário. Porém, quando Amber Lee surgiu, senti a necessidade imensa de uma mudança. É assustador compartilhar esse mundo com ela e, ao mesmo tempo, extremamente satisfatório.
De repente, ouço uma nota errada no teclado. Só então me dou conta de como ela me olha. Ela fica vermelha de vergonha. Eu adoro isso. Vou em sua direção e apoio um braço no teclado.
ㅡ Sinto muito. Não estava concentrada.
ㅡ No que você estava pensando?
ㅡ Oh... Sobre nós, a banda, a música, essa estranha nova vida...
ㅡ Você gosta dessa nova vida?
ㅡ Claro! Só que parece bom demais para ser verdade…
Sorrio de forma sincera e acaricio sua bochecha. Amo a sensação de tocar sua pele macia.
ㅡ É real... Nós estamos tocando juntos. Você não percebeu?
ㅡ Eu e você, sozinhos no mesmo ambiente sem brigar? Não, não me escapou. Só acho esquisito que esteja sendo tão legal. Você costumava ser tão arrogante e intragável...
ㅡ Acho que foi o mecanismo de defesa que criei com o tempo. Não permito que qualquer pessoa se aproxime de mim.
ㅡ Quer dizer que você está deixando eu me aproximar?
Dou de ombros e me afasto para voltar ao microfone, ainda sorrindo.
ㅡ O que você acha? Está pronta para tentar de novo?
*Amber Lee PoV*
Sua súbita mudança de assunto me confirma a resposta, contudo eu o pressiono mesmo assim.
ㅡ Então, eu não sou qualquer pessoa, porém você só não quer admitir?
Seu sorriso amplo é um colírio para os olhos. Ele se limita a cantar e eu o acompanho no teclado.
Ele se esconde muito bem. Acho que vou ter que fazer como o Rico sugeriu e aprender a ler nas entrelinhas.
Depois de umas duas ho®as, fazemos uma pausa e seguimos para a sala. Normalmente, seria o fim do ensaio, entretanto, acho que concordamos mutuamente em não deixar a noite acabar. Começamos a gostar da companhia um do outro, mesmo que fiquemos sem dizer uma única palavra. Nossos olhares dizem tudo.
Estamos em seu sofá, tomando uma cerveja, enquanto ele afina um violão. Acho admirável como ele faz isso com perfeição. Nunca fui boa com instrumentos de corda, apesar de gostar muito.
Volto minha atenção para os papéis que trouxe, quando seu olhar curioso me encontra. São trechos avulsos de músicas que estive escrevendo. Desde que o conheci, minha cabeça não pára. Foi como se ele tivesse despertado essa minha paixão dormente, assim como fez com a música. Quando penso como a gente brigava, é difícil acreditar que ele tenha sido o gatilho para que eu superasse meu bloqueio e que, hoje em dia, estejamos em paz.
ㅡ Você quer voltar para o estúdio e tocar?
Adoro fazer isso com ele, no entanto estou exausta.
ㅡ Seria legal, mas minha cabeça vai explodir e meus dedos eventualmente sangrarão se eu tocar qualquer coisa agora.
Michael ri do meu comentário ridículo e eu amarroto os papéis nas minhas mãos. Então, sinto sua movimentação e sua mão pousa na parte de trás do meu pescoço. Eu congelo. Giro apenas as pupilas dos meus olhos na direção dele. Ele está extremamente sem graça, tanto, que nem olha para mim. Sua atenção está presa no instrumento em seu colo. Não rejeito seu contato, que faz uma leve massagem na minha nuca. É gostoso. Embora, eu deva admitir que também seja engraçado esse lado romântico desajeitado dele. Ele tenta parecer indiferente, mas seu corporal o denuncia.
Quem diria que, um dia, eu veria Michael Denver, o garanhão da cidade, agir como um inocente rapaz, completamente perdido ao tentar conquistar sua primeira namorada…
ㅡ O que são todos esses papéis que você trouxe? Vai fazer ho®a extra em casa?
Eu paralizo, meio que amassando as folhas entre meus dedos. Sinto falta de seu contato, quando ele retira sua mão do meu pescoço, para voltar a manusear o violão. Mordo meu lábio, com a dúvida sobre contar ou não a respeito dos meus textos.
Ele é profissional e minhas canções são tão cruas ainda…
No final, decido me abrir, mesmo morrendo de vergonha. Quem não arrisca, não petisca e eu nunca vou saber o que preciso melhorar se não perguntar.
ㅡ Não... Na verdade... Eu estou escrevendo uma coisa…
*Michael PoV*
Percebo um brilho de admiração quando Amber Lee me observa afinar o violão. É algo mútuo. Também a admiro por se superar da forma que fez. Ela saiu de uma pianista clássica, que só tocava na sala de casa, para uma tecladista de uma banda de metal, que arrasa diante de uma multidão. Ela é extraordinária.
É uma atmosfera estranha que nos envolve. Dou-me conta que não sei como chegar até ela de uma forma que não me ache um sedutor barato. Na verdade, nunca precisei chegar em garota alguma e perceber isso é embaraçoso. Todas sempre vieram até mim, então não faço ideia de como criar um clima romântico.
ㅡ Você quer voltar para o estúdio e tocar?
É o que consigo dizer, pois a música fala por nós e é o nosso ponto de equilíbrio. Embora, eu deva admitir estar cansado.
ㅡ Seria legal, mas minha cabeça vai explodir e meus dedos eventualmente sangrarão se eu tocar qualquer coisa agora
Rio com sua sinceridade exagerada. Eu gosto disso nela, ela é verdadeira. Espreguiço-me um pouco e coloco meu braço no apoio do sofá. Foi só uma desculpa para tocá-la. Pressiono seu pescoço levemente, fazendo uma espécie de massagem. Sinto uma vergonha enorme e nem consigo encará-la nesse momento. Fico olhando as cordas do meu violão, no entanto, percebo o peso de seu olhar sobre mim. Estou tão desconfortável, que resolvo mudar o foco para dispersar a tensão.
ㅡ O que são todos esses papéis que você trouxe? Vai fazer ho®a extra em casa?
Retiro minha mão de sua pele e me encolho no sofá, dedilhando um acorde qualquer no instrumento que seguro. Ela morde o lábio envergonhada e eu praguejo internamente minha vontade de fazer o mesmo, porém não sei como avançar.
ㅡ Não... Na verdade... Eu estou escrevendo uma coisa...
Isso é novidade.
Coloco o violão sobre a mesa de centro e olho para ela surpreso e com a curiosidade à flor da pele.
ㅡ O que você está escrevendo?
ㅡ Você não vai rir de mim, vai?
ㅡ Como se fosse meu estilo! ㅡ Ela soca meu braço de brincadeira com a minha ironia e eu rio. Isso me faz muito bem. ㅡ Qual é, little bunny… Mostre-me o que está escrevendo.
Como ela não fala nada, pego eu mesmo as folhas de suas mãos. Ela grita e se joga sobre mim para pegá-las de volta, o que é ridiculamente engraçado. Limito-me a segurar sua testa com uma mão, mantendo-a longe o suficiente. Ela luta para recuperar seus textos e nossos corpos se esfregam um no outro.
Há momentos em que sinto seus s&ios pressionando meu peito, sua coxa roçando no meu memb®o. Não consigo sequer ouvir direito nossa algazarra, de tão alto que o meu coração bate. Uso todo meu autocontrole para não ter uma e®eção aqui e agora, não pegaria bem. Eu a agarro pela cintura com um braço e a seguro firme. Nossos olhares se chocam. É tão extasiante, que estamos ofegantes pelo atrito. Finalmente, ela deixa sua cabeça cair no meu ombro, derrotada.
Começo a ver os papéis que tomei dela e a excitação da brincadeira perde o lugar para outra coisa. Solto-a e leio em silêncio cada frase, analisando o conteúdo e a métrica. Passo uma folha após a outra, concentrado.
Os textos dela são muito bons.
Quando termino, eu a encaro seriamente. Ela parece alguém no banco dos réus esperando a sentença.
ㅡ Você escreveu isso?
ㅡ Sim, eu te disse... Por quê? É tão ruïm assim que você vai ter vergonha de tocar comigo? Ou acabou de perceber que conheceu um gênio e não tinha notado?
Eu rio e esfrego a palma da mão no topo de sua cabeça, bagunçando seu cabelo.
ㅡ Desça das nuvens, Amber Lee. Você nunca será tão arrogante quanto eu, mas, sinceramente, não são ruïns. ㅡ Na verdade, eu gostei muito, porém eles precisam ainda de algum trabalho. ㅡ Deveria revisar algumas frases para ficar perfeito. Você tem potencial.
Ela ergue uma sobrancelha e eu me pergunto se falei alguma besteira.
ㅡ Quando você diz coisas como essa, sinto que não está falando apenas das minhas letras.
Quem está sendo maliciosa agora, heim?
Devolvo as folhas à ela com um sorriso, sem perder o foco.
ㅡ Estou falando sério, são muito boas. Se você trabalhar em uma delas e quiser tentar na banda, eu falo com o Pete.
Sua boca se abre de surpresa e não posso evitar olhar para ela. Pressiono meu polegar contra seus lábios, cerrando-os. Aproximo meu rosto do dela e aliso sua bochecha com meu nariz, sentindo seu perfume doce e sufocantemente tentador. Seu corpo estremece quando meus dedos deslizam por seu pescoço até a nuca, perdendo-se em seus cabelos. Passo meus lábios pela linha do seu queixo até o lóbulo de sua orelha. É quando ela pula do sofá, quase parando do outro lado da sala. Olho para ela, confuso.
ㅡ Que bicho te mordeu?
Imaginei que esse seria o momento perfeito para beijá-la. Pelo visto, o estrago que causei é maior do que eu imaginava e ela ainda não confia em mim. Tudo bem, vou ser paciente. Vou ganhar sua confiança e seu coração também.
Ela gagueja, enquanto arruma seus cabelos e pega sua bolsa.
ㅡ N-nada... Só me lembrei de que não deixei comida para Mylla.
ㅡ Mylla? É sua colega de quarto?
ㅡ Não, é a minha gata. Vou nessa. Tchau!
Sequer tenho tempo de me oferecer para levá-la em casa, pois ela sai apressadamente. Provavelmente, não aceitaria também. Deito-me de costas no sofá, com um sorriso estüpido no rosto, olhando para o teto.
Vá para casa, Amber Lee, pois o lobo mau está à espreita...
*Amber Lee PoV*
Chego em casa ofegante. Acho que não respirei o caminho todo de volta. Escoro meu corpo contra a porta, colocando a mão sobre o peito. Não consigo conter o gritinho eufórico que me escapa.
Ele sabe como tocar uma mulher… Tão diferente do Kevin…
Não sei porque comparei os dois. Até porque, não há comparação. Eles são completamente diferentes um do outro.
Kevin sempre foi um lord, até demais para o meu gosto. É o típico cara pacato, gentil, bom ouvinte, mesmo sendo chato e controlador ao máximo. Michael é selvagem, misterioso e extremamente sedutor. Tive que sair correndo de seu apartamento, porque, se eu ficasse mais um segundo na presença dele, provavelmente estaria em sua cama a essa altura.
Meus pensamentos me surpreendem. Não sei se eu seria capaz disso com ele, assim, tão cedo, com o nosso “relacionamento” ambíguo, cheio de altos e baixos.
Eu suspiro forte e olho para o canto da sala onde Mylla está, deitada em sua almofada. Acho estranho ela não ter vindo me receber, aliás há dias que ela não faz isso.
Será que está doente?
Caminho até ela e me agacho. Ela abre seus olhos, porém não me dá atenção.
ㅡ O que você tem, meu amor?
Tento acariciar sua testa, mas ela rosna para mim. Então, me lembro de algo que a minha ex-gerente me disse. Que os pets podem se sentir ignorados, se acharem que estão perdendo a atenção do tutor.
ㅡ Oh, minha garota boazinha. Eu sinto muito. Tenho estado tão ocupada com o trabalho e a banda, que estou negligenciando você.
Eu me deito no chão, meu rosto de frente para ela, e deixo minha mão perto de seu focinho. Mantenho meu sorriso para ela que, aos poucos, decide cheirar e lamber um dos meus dedos. Passo o polegar lentamente no centro de seus olhos e ela esfrega sua cabeça nele.
Demora alguns minutos para que Mylla me deixe segurá-la no colo. No final, ela não resiste ao petisco que pego para ela na cozinha.
ㅡ Vou combinar com a Stefani de te pegar algumas vezes, para você ter com quem brincar enquanto eu estiver trabalhando ou ensaiando. Que tal?
Ela mia com entendimento e ronrona no meu colo, o que me faz rir. Eu imito seu ronronar para confortá-la, sou boa nisso.
ㅡ Minha filhota ciumenta… Sei bem como é isso…
Eu suspiro, enquanto me deito com ela na cama. A crescente euforia que me toma provoca meu sorriso de satisfação.
Ele disse que dispensou aquelas oferecidas. Queria ter visto isso… Qualquer dia desses, Michael, acho que não resisto.