46 - Convivência

2478 Palavras
*Michael PoV* Passamos a semana nesse ritmo, ensaiando todas as noites. Apesar das piadas de duplo sentido, não consigo ser mais grosseiro com ela. Por consequência, ela se aprimora cada vez mais no estilo musical da banda. Quanto mais tocamos juntos, mais essa “coisa” cresce no meu peito. É um encanto mortal. Resolvi chamá-la para almoçar hoje. O que posso fazer? Sua presença é quase uma necessidade. Ela tem o dom de acalmar a b&sta dentro de mim. Peço um suco de uva enquanto a espero no restaurante. Procuro manter um ar neutro e tranquilo quando ela chega e caminha na minha direção. Ela se senta diante de mim um pouco desconfiada. Nunca baixa a guarda. Dou um tapinha na mesa com meus dedos e sorrio, divertido com essa situação. ㅡ Quando você vai descer do muro, little bunny? Ela estreita um olhar irônico sobre mim. ㅡ Como se você não fizesse a mesma coisa… Suas pernas se esticam embaixo da mesa, porém logo ela as recolhe quando encostam nas minhas. Eu dou risada disso, até parece ter levado um choque. ㅡ Fato. Porém, eu estou evoluindo e, como eu te disse, decidi descer do meu muro. Por que você não tenta fazer o mesmo? ㅡ Perigoso demais para a minha saúde mental. ㅡ Só se você se apaixonar por mim. ㅡ O que não é o caso. ㅡ Ainda… *Amber Lee PoV* Se ele soubesse que eu já tenho sentimentos por ele, ficaria intragável. É melhor não revelar o que sinto por enquanto. Mas, se ele acha que vou cair nessa conversa mole, ele realmente precisa se esforçar mais. Pete não estava brincando quando disse que ele era virgem de namoro. Essa lembrança me diverte e ele fica curioso. ㅡ O que é tão engraçado? ㅡ Ah… Nada! ㅡ Mudo drasticamente de assunto. Aceitei esse almoço para que nos conhecêssemos melhor em primeiro lugar. O resto, o tempo irá mostrar. ㅡ À propósito, já escolheu as músicas para o disco? Ele sorri e tira um envelope da parte interna do terno que me entrega. Há algumas partituras dentro. ㅡ As últimas músicas. Dê uma olhada. Quando dominar todas elas, seremos capazes de escolher. Fico confusa com a informação. Ele é o líder da banda, imaginei que fosse fazer essa parte sozinho. ㅡ Seremos? ㅡ Sim. Já tenho a opinião do Pete e queria a sua também. É um trabalho em conjunto, então seria legal que todos os integrantes da banda participassem. Por essa eu não esperava… Começo a examinar os papéis com animação. Fazer parte das escolhas das músicas é algo fabuloso. ㅡ Jamais pensei que fosse dizer isso, no entanto nunca imaginei que você fosse mandar tão bem. Eu o encaro agradecida, pois sei que ele não faz elogios à toa. Pelo menos, ele sabe reconhecer seus erros e admirar um talento quando o vê. Acabo não resistindo à tentação de brincar com ele. ㅡ Cuidado, Michael... Você pode acabar se apegando a mim… *Michael PoV* Tarde demais, little bunny... Tarde demais... Embora no fundo eu saiba que já esteja enredado, não vou admitir sem saber como ela se sente de verdade. É mais seguro dessa forma. Recosto na cadeira, apoiando as mãos sobre a mesa. ㅡ Qual é? Você me conhece. Sou o cara irritante, que não perde uma oportunidade de te provocar. ㅡ Isso é verdade… Inclino-me sobre a mesa, apoiando meus cotovelos, e pego uma mecha de seu cabelo macio. Brinco como se tivesse um pedaço delicado de seda na mão. Ela não faz a menor ideia do efeito que tem sobre mim. Algum dia, vou agradecer ao Rico por tê-la colocado no meu caminho. ㅡ Juntos... Nós dois... Deveria me estapear pela minha falta de coordenação com as palavras perto dela. Contudo, é o que consigo dizer no momento. Terminamos nosso almoço e retornamos para o trabalho. Confesso que estou gostando desse “relacionamento” com ela. É algo novo, puro. Foi como se eu finalmente encontrasse a peça que faltava em um enorme quebra-cabeças. Enquanto eu divago, meu celular toca. Não reconheço o número e nem está na minha agenda, porém decido atender mesmo assim. ㅡ Alô? ㅡ E aí, Michael? Quanto tempo! ㅡ Jim? ㅡ Olha só! Vejo que não se esqueceu dos velhos amigos! Trinco os dentes de raiva. Esse idïota é um c®etino. ㅡ Nunca fomos amigos! O que você quer? ㅡ Calma, cara! Só queria avisar que vi a Dorothy hoje... Merd@! ㅡ Fique longe dela! Ela já tem problemas demais sem a sua ajuda! Ele ri de forma irônica. ㅡ O que eu posso fazer se ela corre para mim sempre que você a deixa na mão? Encerro a chamada abruptamente. Que cara abusado dos infe®nos! Tento ligar para Dorothy, porém ela não atende. Mais uma vez. Suspiro derrotado ao imaginar a razão pela qual ela procurou esse traficante. Apoio o cotovelo no braço da cadeira e o queixo no punho fechado, batendo um pé no chão nervosamente. Eu já mudei de número umas cinco vezes por causa dele. Porém, sempre que a Dorothy o procura, fornece o meu celular. Ela sabe como eu não suporto o que ele faz. É uma forma de me atingir, pois ele nunca perde a oportunidade. Se ele estivesse na minha frente, o teria posto a nocaute, como da última vez. Respiro fundo, passando a mão pelo rosto. Não é ho®a de perder a cabeça. Tive um almoço maravilhoso e a noite promete. F0da-se esse bandidinho de merd@. *Amber Lee PoV* Sinto uma mão no meu ombro e me viro, para dar de cara com a Lauren e seus olhos pidões. Ela me viu sair para almoçar com o Michael e voltar com ele. Com certeza está curiosa sobre como foi. Decido fazer uma pausa e a levo para a sala de descanso. Rico nos segue, pois ele já imagina o que vamos conversar e adora tricotar com a gente. ㅡ Então, amiga? Quero todos os detalhes! Eu sorrio com seu ar faceiro e pego o café que Rico preparou para todos. ㅡ Michael me deu o restante das partituras das músicas da banda para que eu possa ensaiá-las. ㅡ Eu não disse, ojitos? Sua posição na Everlasting está garantida! Apesar da alegria do Rico, Lauren ainda não está satisfeita. ㅡ O que mais? ㅡ Bom, ele também quer a minha opinião sobre quais músicas serão colocadas no disco. ㅡ Só isso? ㅡ O que mais você esperava, amiga? ㅡ Ah, sei lá! Vocês passaram a ho®a do almoço inteira juntos e só falaram sobre a banda? É quase impossível conter a risada diante do bico decepcionado dela. Mordo minha boca levemente ao me lembrar da conversa ambígua dele. Ele disse que queria me conquistar… O jeito dele me abordar mudou, quer dizer, ainda há as provocações, porém são muito mais leves. Virou nossa brincadeira, que nos faz relaxar. Mesmo que ele não saiba o que fazer às vezes, ou se enrole com as palavras, é emocionante perceber seu esforço adorável. ㅡ Isso! ㅡ Isso o quê, Lauren? ㅡ Você pensou em algo agora e seus olhos brilharam! Tenho certeza que o Michael faz parte desse pensamento! Eu me engasgo com o café e Rico me dá uns tapinhas nas costas. Limpo a garganta e dou um sorriso montado para disfarçar. ㅡ Eu… Eu não sei… ㅡ Como assim, não sabe, amiga? ㅡ Não sei em que pé estamos. É vergonhoso admitir isso, porém, quando se trata do Michael, tudo é um mistério. Rico fica coçando o queixo, muito pensativo. Tenho medo quando ele fica assim. ㅡ Eu estive pensando… Vocês deveriam conversar. ㅡ Nós fazemos isso, Rico. Estivemos ensaiando desde… ㅡ Não, digo, conversa pessoal. Sem a coisa da música. Sobre vocês. Eu suspiro. ㅡ Seria mais fácil me deitar sobre a cama de pregos de um faquir, Rico… Ele nunca fala nada abertamente, sem fazer uma provocação depois. É muito confuso. Não vou comentar sobre as coisas que Michael me disse. Acho que não seria certo. Foi pessoal demais. ㅡ Bom, então você vai ter que aprender a ler nas entrelinhas. ㅡ Acho que fui reprovada nessa matéria na escola. Nós começamos a rir, quando ouvimos palmas lentas e desdenhosas. Quase derrubo o meu café ao ver a gerente do RH na porta. ㅡ Que confraternização linda! Pena que não seja nenhuma festa da empresa! Endireito minha postura e tento falar de forma mais segura possível. ㅡ Perdão, senhorita Smith. Estávamos em uma pausa, já íamos retornar ao trabalho. Ela me encara com malícia, porém se dirige a Lauren. ㅡ Senhorita Starling, a recepção não tem sua própria sala de descanso? Essa não… Ela vai atacar a Lauren por minha causa? Só por cima do meu cadáver! Quando vou abrir a boca para defender minha amiga, vejo um sorriso se esticar em seus lábios. ㅡ Claro que tem, não sabia? É linda! Infelizmente, não pude usufruir hoje dela. Tive que trazer um documento, que um cliente importante deixou na recepção, para entregar ao senhor Mortimer. Eu não quis arriscar o extravio desse documento tão necessário, então o trouxe eu mesma. Aproveitei para fazer a minha pausa aqui. Sabe, para não perder tempo. O tom dela é de uma audácia impressionante. Ela até cruza os braços, com um sorriso glorioso no rosto. Tenho certeza que ela planejou tudo isso. Lauren é esperta e não deixa pontas soltas. ㅡ Se importa se eu confirmar com o senhor Mortimer? ㅡ À vontade. Katherine gira nos calcanhares e sai da sala. Nenhum de nós resiste a tentação de espionar e ficamos na porta, vendo a gerente do RH entrar na sala do Edward. Ela sai segundos depois, emburrada. ㅡ É claro que eu não disse a ela que ele estava muito ansioso para ler o tal documento e provavelmente não queria ser interrompido… O sussurro dela para nós me causa uma risada, que eu tento a todo custo conter. ㅡ Você é má… ㅡ Aqui se faz, aqui se paga. É melhor eu voltar para o meu posto. Porém, não pense que essa conversa acabou, senhorita Taste. Ela pisca para mim e se vai. *Michael PoV* Rico fica surpreso ao me ver em sua porta. Minha motivação para vir até aqui também me deixa perplexo. Não acredito que estou fazendo isso… ㅡ E aí, mano? Algum problema? Entro em seu apartamento no Brooklyn, que mais parece um galpão que foi convertido em moradia. O teto é alto, poucos móveis na sala, porém seu toque pessoal está nos dois sacos de areia em um canto, um pequeno e um grande, para prática de Boxe. Mantenho as mãos nos bolsos, sem saber por onde começar. ㅡ Estou… Estou precisando de uns conselhos… ㅡ Ah! ㅡ Ele abre um enorme sorriso e me leva pelo o braço até seu sofá. ㅡ O tio Rico aqui tem todas as soluções para os seus problemas. Quer beber alguma coisa? Tenho aquela cerveja esquisita que só você bebe. Fico tocado com sua preocupação. Não o visito com frequência, normalmente é ele quem vai na minha casa. Mesmo assim, ele tem esse cuidado comigo. ㅡ Só porque não tem álcool, não quer dizer que seja esquisita, Rico. Vou querer sim. Ele pega as bebidas e se senta do meu lado. ㅡ Não sei como consegue beber essa coisa. Parece um purgante. ㅡ É isso ou ter uma crise. Eu ainda abuso por causa do uísque, que deixo para ocasiões especiais sem exageros. Depois, que você acostuma, é até gostosa. Quer provar? ㅡ Eu passo. Então? Vai ficar enrolando ou vai me dizer o que o trouxe aqui? Aliás, você não deveria estar ensaiando com a ojitos? ㅡ Ele arregala os olhos. ㅡ Vocês brigaram? ㅡ Vira essa boca pra lá! O ensaio é só daqui uma ho®a. ㅡ Respiro fundo e bebo um gole da minha bebida. Minha boca está seca e parece cheia de areia. ㅡ Eu tomei uma decisão. Agora estou completamente perdido, pois não sei como agir. Estou tentando várias coisas, porém quando penso que avancei um passo, ela recua dois. Ele me encara com uma sobrancelha erguida e eu me encolho. ㅡ Deixa eu ver se entendi direito, mano. Está tentando pedir a Amber Lee em namoro? ㅡ Mais ou menos. Não tem que ter outra coisa antes? Tipo, paquera? ㅡ Ele começa a rir e eu bufo. ㅡ Qual é, Rico? Estou precisando de ajuda aqui! ㅡ Desculpe, foi mais forte que eu! Por que você só não diz “Oi, quer namorar comigo?” Leve umas flores para ela. Chicas adoram flores. ㅡ Flores? Não faz sentido, elas murcham depois. ㅡ Quem se importa se elas vão murchar com o tempo? O que conta é o gesto. Dê flores, chame-a para um cinema ou algum outro passeio. O ideal mesmo, é ser sincero. Ela vai perceber se você estiver forçando a barra e garanto que ela não vai gostar. ㅡ Eu já notei isso. ㅡ Lembro-me de algo que Ethan me disse uma vez e acabo pensando alto. ㅡ Uma mulher é como uma rosa delicada… ㅡ É uma bela forma de encarar. Como chegou a essa conclusão? ㅡ Ah, foi só algo que o Ethan me disse. Vou tentar a ideia das flores, porém acho que preciso de algo mais. ㅡ Olho para o meu amigo, que está me encarando curiosamente. ㅡ O que foi, irmão? ㅡ Você tratando o CEO assim tão informalmente. Limpo a garganta e tento desconversar. ㅡ Nós temos uma boa relação, só isso. ㅡ Olho de lado para ele. ㅡ Não precisa se preocupar, Rico. Você e o Pete sempre serão meus melhores amigos. ㅡ Seus únicos amigos, quer dizer, certo? Não vejo problema em você ter mais um. ㅡ Ele é um cara legal e muito generoso. Eu não quero abusar. Fez tanta coisa por mim… Mesmo que eu vivesse mil anos, não seria capaz de agradecer. ㅡ Bom, amigos são para essas coisas. E ajudam de graça, sem esperar nada em troca. Talvez, o McGregor possa ser mais que apenas um jefe. ㅡ É, talvez… Agora, quanto a Amber Lee… ㅡ Ela gosta de lírios. ㅡ Eu pensei que ela gostasse de jasmim, sabe, por causa do perfume que ela usa. ㅡ Ah, sim, o Giorgio Beverly Hills é muito bom, mas tenho certeza que as flores que ela mais curte são lírios, pois, no ano novo, ela encheu o apartamento dela com eles e a Lauren ficou três dias espirrando. Rico sussurra de forma marota, como se me revelasse um pequeno segredo. De fato, ele me prestou uma grande ajuda. Eu sorrio e me levanto, indo direto para a porta depois de abraçá-lo. Agora eu também sei o perfume dela. Vou preparar algo especial, que vai fazer com que ela se apaixone de vez por mim.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR