*Amber Lee PoV*
Idïota! Grosso! Estüpido!
É o que fico gritando na minha cabeça, enquanto desço as escadas. Quando alcanço a rua, as lágrimas que estive segurando começam a brotar com força e eu me dou conta do que aconteceu.
O que foi que eu fiz? Joguei fora essa oportunidade…
Sinto uma mão no meu ombro e me viro assustada. Respiro aliviada ao ver o Pete.
ㅡ Desculpe, não queria te assustar.
ㅡ O que você quer?
ㅡ Uma última chance, Amber Lee. Eu sinto muito. Sei que as coisas estão complicadas…
ㅡ Complicadas? ㅡ Passo a mão pelo rosto para limpar as lágrimas e o encaro, apontando um dedo furioso para o prédio do qual acabei de sair. ㅡ O seu amigo é complicado! Sinceramente, não deveria ser você a me pedir desculpas!
ㅡ Sim, eu sei… ㅡ Ele coça a nuca um pouco sem graça antes de continuar. ㅡ Vamos combinar que você também não tem facilitado as coisas. Michael tentou te pedir desculpas naquele dia, mas você o interrompeu e não quis mais saber de nada. Você não sabe como é difícil para ele lidar com você. Ele está muito frustrado com o gelo que você tem dado nele.
ㅡ Eu não sou o problema aqui, Pete!
ㅡ Concordo. Definitivamente, você é a solução. Em todos os sentidos.
Olho para ele, confusa, e pisco algumas vezes.
ㅡ Do que está falando?
ㅡ Eu não sou o dono do problema para te responder. Porém, posso dizer uma coisa: Nunca vi o Michael tão nervoso e ansioso perto de uma garota. Ele jamais se importou. Você é diferente, Amber Lee.
ㅡ Você está querendo dizer que ele se importa comigo? Ele tem uma maneira muito esquisita de demonstrar isso!
ㅡ Por que ele não sabe lidar com… ㅡ Ele limpa a garganta e fala tão baixo que quase não o escuto. ㅡ Com o que ele quer de você.
Eu fico de boca aberta. Não posso acreditar que, o homem que mais pegou mulheres nessa cidade, esteja tendo dificuldades comigo. Não que eu não tenha percebido como ele me olha, é descarado. Contudo, é surreal o que o Pete acabou de dizer.
ㅡ Qual é, Pete! Essa desculpa esfarrapada não cola! Michael é o maior…
ㅡ Colecionador de mulheres? Sim, ele foi.
ㅡ Foi?
ㅡ Desde que ele te conheceu, que eu não o vi com mais ninguém. Para um cara ativo como ele, isso é um recorde. Acho que ele nunca passou mais de duas noites sem uma transa e, mesmo assim, eram garotas diferentes o tempo todo. Sabe, s&xo sem compromisso era a zona de conforto dele. Então, você surgiu e o tirou de sua concha. Obviamente, ele não quer apenas s&xo com você, vai além disso e, infelizmente, ele ainda não descobriu como se expressar. Se fosse em outros tempos ou outra mulher, ele já teria seguido em frente por não ter conseguido nada. Entretanto, você é especial.
Não consigo encontrar palavras para expressar como me sinto. É um misto de surpresa, alegria, descrença e confusão. Sequer ouço meus próprios pensamentos de tão alto que o meu coração bate. Ele tamborila desenfreado no meu peito. De um jeito muito torto, tudo começa a fazer sentido. Contudo, eu tenho minhas ressalvas.
Michael não age como se gostasse de mim, às vezes parece exatamente o oposto. Porém, não posso ignorar o fato de que havia algo mais nas duas únicas vezes que tivemos algum contato físico. Quando ele me ajudou com o computador no trabalho e seu abraço no estúdio para me consolar. Ter me encurralado contra a parede nos bastidores não conta, não tínhamos o convívio que temos hoje em dia.
ㅡ Pete, não importa se sou especial ou não. A verdade é que eu e o Michael somos um desastre juntos.
ㅡ Porque os dois estão sempre na defensiva. Alguém tem que dar o primeiro passo e se desarmar.
Cruzo meus braços e bufo.
ㅡ Hunf! Você quer dizer que eu tenho que ceder primeiro? É isso?
ㅡ Não. Apenas estou dizendo que, talvez, um simples sorriso sincero derreta a calota polar na qual Michael se esconde.
Quando paro para pensar, poucas foram as vezes em que sorri sinceramente para ele e sobrariam dedos em uma única mão se eu fosse enumerar. O medo de me revelar diante dele é assustador.
Mordo o lábio inferior e olho de soslaio para Pete.
ㅡ Ele… Ele não saiu com mais ninguém? Eu vi ele beijar uma garota no dia que a Dorothy saiu da banda.
ㅡ Sim, ele beijou, porém não passou disso e foi a única escorregada que ele deu nesse tempo depois de te conhecer. Eu vou te dizer algo que o próprio Michael me disse, porém nunca fez muito sentido para mim. Quando ele está com uma fã, não é o nosso Michael. Sei lá, é como se fosse outra personalidade. Ele jamais acreditou no amor e nunca viu a menor sinceridade nessas demonstrações de afeto das fãs. Elas querem uma fantasia e é o que ele dá. Sem sentimentos ou apegos. Eu não sei fazer isso, mas ele consegue separar as coisas como se fosse uma fórmula de matemática.
ㅡ Isso é confuso…
ㅡ Nem me fale…
ㅡ Mas, por que ele não saiu com mais ninguém? Por acaso ele está fazendo celibato para tentar a carreira de padre se a música não der certo?
Pete dá uma breve gargalhada e eu sorrio levemente. Sua risada cessa e ele me encara com seus claros olhos verdes brilhantes.
ㅡ Deveria mostrar esse sorriso para ele. É lindo… ㅡ Sinto minhas bochechas queimarem e desvio o olhar para o chão. ㅡ Quanto a ser padre, Michael não leva o menor jeito. A não ser que virgindade de namoro conte.
Dessa vez, eu acabo rindo.
ㅡ Isso é ridículo, Pete! Michael não é virgem!
ㅡ Ah, não, você não me entendeu. É bem verdade que ele dormiu com muitas garotas, mas ele nunca namorou, tipo, assumir compromisso, andar de mãos dadas, saber o nome da garota, dos pais dela ou levá-la para passear, dar flores. “Virgem de namoro”.
Só percebo o quão aberta minha boca está, quando ele usa o indicador para empurrar o meu queixo.
Michael é grosseiro porque está interessado em mim, mas não sabe como se aproximar?
A ideia é fofa, de uma forma que eu nem sei explicar. Decido dar uma chance ao destino, assim como ao Michael. Não sou supersticiosa, porém tantas foram as vezes que estivemos próximos, que até paro para me perguntar se não há uma força superior nos impulsionando um para o outro.
Começo a caminhar de volta para o prédio e Pete me segue com um sorriso bobo. Deve estar aliviado. Assim que entro no estúdio, a visão diante de mim é desoladora. Michael está em pé em um canto, com as mãos na nuca e a cabeça baixa. Jamais imaginei que o veria tão frágil. Quando seu triste olhar encontra o meu, percebo como eu quero que essa coisa, que não sei nominar, dê certo entre nós dois, porque é o mesmo desejo que vejo em sua face suplicante.
Então, eu sorrio para ele, rezando que, de alguma forma, uma ponte se estenda sobre esse nosso abismo. Ele fica surpreso e aliviado ao mesmo tempo. Vou para o meu instrumento, ele pega o dele e segue para o microfone e Pete se acomoda empolgado em sua bateria. Quando ele ergue suas baquetas no ar, Michael o interrompe levantando o braço. Seus olhos azul-gelo sempre dentro dos meus, enquanto se posiciona diante de mim.
ㅡ Sinto muito, Amber Lee… Pelas mentiras e, principalmente, pelas grosserias…
Quase caio do meu banquinho e o vejo suspirar e passar as mãos pelos cabelos por causa da minha incredulidade. Isso foi um fato inédito e não sei como não estourou a Terceira Guerra Mundial pelo fato dele se desculpar.
Ele se vira para se afastar, muito sem graça, e eu me adianto em segurar sua mão. Nossos olhos acompanham meu gesto para depois se encontrarem. Eu poderia tirar sarro da situação, mas, como Pete disse, alguém tem que se desarmar. Michael deu um passo importante e não serei eu a puxar seu tapete.
ㅡ Eu também sinto muito e… Obrigada.
Ele me encara cheio de dúvidas.
ㅡ Pelo o quê?
ㅡ Desculpe por ter te comparado àquele monstro e obrigada por você ter conseguido um emprego para mim. Você ajudou uma estranha com dificuldades e nunca pediu nada em troca. Nem de longe você seria igual a ele.
Se os olhos são os espelhos da alma, um sorriso poderia ser seu reflexo, pois o que vejo surgir em seu rosto é a mais pura felicidade. Uma felicidade que também reflete a minha, por ser capaz de provocar algo tão precioso em alguém como ele, que se esconde tão bem dentro de si mesmo.
Pelo menos, para mim, ele está se revelando e, quanto mais do verdadeiro Michael eu tenho, mais eu quero.
Seu corpo vira na minha direção e suas mãos abraçam meu rosto. Ele planta um beijo gentil e casto no centro da minha testa. Dessa vez, não consigo segurar o suspiro que me escapa.
ㅡ Prometo que vou me comportar, little bunny. Eu quero que fique comigo… ㅡ Ele meio que se dá conta da ambiguidade do que disse e corrige no momento seguinte, após limpar a garganta. ㅡ Com a banda.
Seus polegares ficam massageando minhas bochechas e eu sorrio um pouco mais.
ㅡ É… Com a banda… Gosto desse apelido.
O sorriso dele se faz presente, assim como o meu e não conseguimos tirar os olhos um do outro. Então, ouvimos o Pete tossir, o que nos traz de volta do transe no qual estávamos.
ㅡ Eh… Desculpem ser o estraga-prazeres, porém temos um show em pouco tempo. Mas, se vocês preferirem, eu posso deixar vocês sozinhos…
Não sei se foi impressão minha, no entanto tive a sensação do rosto do Michael ficar vermelho como um tomate maduro. Ele virou a cabeça tão rápido, para se esconder atrás de seus cabelos, que não pude ter certeza.
Ele corou? Que fofo!
ㅡ Você tem razão, Pete. ㅡ Somente agora ele volta a me encarar, já recuperado, e pisca para mim de forma marota. ㅡ Pronta?
ㅡ Totalmente.