*Michael PoV*
Nunca imaginei que um sincero pedido de desculpas fosse algo tão libertador. Mudei minha atitude completamente com Amber Lee, assim como ela mudou comigo, até porque de nada adiantaria me desculpar e continuar a ser um imb&cil. Rico e Pete tinham razão e hoje percebo o quanto ela é especial.
Parei de pressioná-la por causa de seus deslizes. Apenas continuava a tocar e cantar sem interromper. Às vezes, até sorria ou piscava, levando na esportiva, e era ricamente recompensado com sua evolução. Aos poucos, seus erros praticamente desapareceram. Ainda há muito o que fazer, como tornar tudo menos mecânico. Pelo menos, chegamos em um ponto comum. Estamos fazendo o que amamos, juntos e sem brigas. Essa percepção conseguiu me acalmar e mesmo o Pete voltou a sorrir. O clima estava pesado demais até para ele.
No dia seguinte, fizemos um último ensaio antes da apresentação. Pedi ao Rico que viesse nos ajudar a levar os equipamentos para o show, pois eu queria passar algum tempo sozinho com ela antes de tudo. Meu amigo chega no meio de um intervalo. Depois da conversa que tivemos naquele almoço, eu já esperava por alguma provocação ambígua.
ㅡ Ola! Vim ver como estão, chiquititos.
ㅡ Ninguém matou ninguém.
A brincadeira do meu baterista faz Rico cair na risada. Depois, ele nos cumprimenta com um aperto de mão e beija Amber Lee no rosto, o que eu não gosto nem um pouco. Ele a examina um momento e começa com sua gozação.
ㅡ Que pena! Estava louco para arrancar o seu couro! Eu faria isso se tivesse tocado em um fio de cabelo dela. ㅡ Ele diz isso olhando zombeteiramente para mim. Eu apenas tenciono uma corda no meu instrumento. Depois, ele volta sua atenção para ela. ㅡ Vamos. Mostre-me o que pode fazer. Afinal, hoje é a grande noite!
Obrigado pela pressão, amigo. Realmente, estamos precisando...
Como lendo meus pensamentos, ela fala ironicamente.
ㅡ Obrigada por aumentar a pressão sobre nós!
ㅡ Estou com você de todo o coração, ojitos. Confio em você. Vai arrasar! Com seu rostinho lindo e seu talento não há dúvidas, certo, Michael?
Ele e Pete possuem um prazer quase mórbido em me deixar desconfortável.
ㅡ Sim.
Rico se senta sobre uma caixa, enquanto começamos a tocar. Ele observa Amber Lee atentamente. Não houve notas erradas, ninguém saiu do ritmo e tudo foi harmonioso. Ela parece contente e, eu, aliviado. Ao terminarmos, ele bate palmas e se aproxima dela sorrindo.
ㅡ Você está perfeita! Perfeita! ㅡ Ele joga muita ênfase em suas palavras, como que para me lembrar disso. ㅡ Sem dúvida, vocês serão um sucesso hoje!
ㅡ É melhor mesmo, é uma oportunidade incrível que só vamos ter por sua causa, Amber Lee! Não é, Michael?
Retiro minha guitarra e a coloco sobre o amplificador, ignorando o comentário do Pete. Meu olhar se cruza com o dela, entretanto, prefiro não falar nada ainda. Esses dois aqui estão loucos para curtir com a minha falta de jeito. Ela fica ligeiramente desconfortável com o meu silêncio. Então, Rico pressiona uma tecla em seu instrumento para lhe chamar a atenção e dispersar a tensão que começava a querer surgir.
ㅡ Você vai ficar bem, Amber Lee. Tenho certeza que tem o que é necessário e muito mais.
Eu também.
Pete sai de sua bateria e começa a recolher tudo.
ㅡ Bom, ainda tenho que arrumar algumas coisas para o show. Vou dirigir a van. Rico, você me dá uma mão? ㅡ Foi como um acordo silencioso entre os dois, para me dar um tempo a sós com ela. ㅡ Você se encontra com a gente lá?
Confirmo com a cabeça e olho para Amber Lee ansiosamente. Talvez, seja ela quem não queira a minha companhia. Para meu alívio, ela não se opõe. Provavelmente também entende que precisamos disso. Os dois se retiram e um silêncio esquisito paira no ar novamente.
*Amber Lee PoV*
Michael leva nossos instrumentos para o seu carro e os coloca no porta-malas. Juro que tento não deixar transparecer, porém é engraçado vê-lo se digladiar para entrar em seu próprio veículo. O cara grande tentando se acomodar em seu carrinho. Algum tempo atrás, ele provavelmente ficaria emburrado por eu estar achando graça disso. Não mais.
Apesar do silêncio que se tornou nosso companheiro inseparável, as coisas têm funcionado entre nós. Paramos de trocar farpas para trocar sorrisos. Não brigamos mais e confesso que me derreto toda vez que ele sorri para mim. Da mesma forma, ele não é indiferente ao meu sorriso.
Por causa dessa trégua, pude perceber como Michael se transporta para outra dimensão quando está tocando. Exatamente da mesma forma que eu e isso me deixa mais confortável ao lado dele.
Queria descobrir uma maneira de unir esses dois mundos…
Ambos estamos ansiosos, é muita pressão. Ele batuca com os dedos no volante, eu brinco com os meus uns nos outros. Decido ser a primeira a quebrar o nosso silêncio.
ㅡ Tenho certeza que tudo vai dar certo. O último ensaio foi muito bom.
Michael me olha um momento para, depois, voltar sua atenção para a direção. Posso estar enganada, porém havia algo, embora eu não saiba definir o que foi.
Gostaria de saber ler pensamentos, seria mais fácil lidar com ele.
Eu suspiro, enquanto observo a paisagem.
ㅡ Obrigado por estar aqui, Amber Lee.
No começo, eu fico em choque. Acho que nunca vou me acostumar com esse Michael gentil.
Qual é o meu problema?
Sinto seu olhar sobre mim e sorrio.
*Michael PoV*
Eu a encaro rapidamente, depois dela dizer que vai ficar tudo bem. O calor de seu olhar me invade, como já fez muitas vezes. Volto minha atenção para a estrada e a ouço suspirar em resposta.
Está na ho®a de me deixar envolver também. Exigi tanto isso dela, entretanto, a mantenho distante de mim.
ㅡ Obrigado por estar aqui, Amber Lee.
Ela fica tão chocada, que seus olhos quase fogem da cabeça. Não me admira sua surpresa. Eu fui muito odioso e ela ainda não se acostumou comigo sendo educado.
ㅡ Oh... Não é nada.
Paramos em um farol vermelho e, pelo tempo que ele dura, não tiro meus olhos dela. Parece que nunca me canso de admirar seu belo rosto.
ㅡ Não, little bunny. Simplesmente, é tudo. ㅡ Respiro forte, tenso como nunca estive na presença de uma bela mulher. Mais um pouco e poderia quebrar o volante de tanto que o pressiono. Decido manter uma conversa civilizada. ㅡ Você sabe quando tem que começar. “Dead Dream” tem sido o seu calcanhar de Aquiles, mas não a culpo, é uma música difícil mesmo. Só procure se concentrar, pois, quando eu entro no refrão, você sempre toca fá menor.
Percebo um leve sorriso se formar em seus lábios que tanto quero provar. Certamente, ela acha graça da forma como sou metódico e sorrio com seu ar zombeteiro. É um momento fantástico de cumplicidade.
ㅡ Não se preocupe. Eu detestaria que você ficasse de mau humor.
ㅡ Ah, sim... Você quer que eu seja... Legal?
Levanto uma sobrancelha irônica e seu sorriso tentador aumenta.
ㅡ Algo desse tipo, mas acho que essa palavra não existe no seu vocabulário. Além do mais, você sabe o que isso significa?
Sua sinceridade leva o melhor de mim e eu acabo rindo alto. Tento ser o mais sincero que posso também.
ㅡ Eu escolho as pessoas com as quais quero ser legal.
ㅡ Ah, pelo visto não sou uma delas.
ㅡ Pelo contrário… Você é uma das poucas pessoas que conseguiram me dobrar.
ㅡ Isso quer dizer que somos amigos?
Opa! De maneira alguma vou permitir que a gente caia nessa história de amizade! Eu quero muito mais…
ㅡ Digamos que eu esteja pensando sobre o assunto.
Ela se sacode alegremente no banco e eu acho graça. Pela primeira vez, estamos conseguindo conversar sem provocações ou brigas exaustivas. É reconfortante.
*Amber Lee PoV*
Lauren faz a minha maquiagem e traz minha roupa, uma calça preta e uma camiseta branca com brilho. Não é bem o look de uma metaleira, no entanto ainda me sinto deslocada com tudo isso e prefiro ficar confortável. A casa de shows está lotada e eu estou acabando com o esmalte das unhas no backstage. Meu estômago parece querer jogar tudo para fora. Olho de soslaio para Michael. Sua roupa preta, calça e botas com fivelas, a camisa transparente só na frente para exibir aquele peito e abdômen fabulosos, deixando-o mais s&xy que a razão poderia afirmar.
Ele parece uma rocha de tanta confiança. Claro, já esteve no palco um milhão de vezes, enquanto eu estou quase surtando aqui na minha primeira vez.
Desvio meu olhar quando o dele me encontra. Suspiro forte e volto a devorar as unhas, sacudindo uma perna de nervoso.
ㅡ Medo do palco?
Pete me dá um belo sorriso e eu tento achar o meu para corresponder, porém só consigo rosnar algo indecifrável. Ele me abraça rapidamente e segura meus ombros para me encarar.
ㅡ Em primeiro lugar, você deve relaxar. Tente respirar de forma mais lenta…
Eu faço como ele pede e até ganho uma massagem nas têmporas. Confesso que é bom, mas eu queria que fosse outra pessoa a me ajudar desse jeito.
Um choque cruza o meu corpo quando ouço o nome da banda ser anunciada. Pete me dá uma piscadela e se afasta. Então, vejo Michael, já com seu instrumento ao redor do peito. Ele fecha seus olhos, inspira e expira profundamente, passando a mão pelas cordas da base até o final do braço de sua guitarra de forma muito gentil. Quando ele abre os olhos novamente, parece outra pessoa, outra entidade.
Isso o que ele fez foi como um ritual?
Ele dá passos seguros para dentro do palco, seguido por mim e Pete. Na verdade, não consigo tirar meus olhos dele, até estar diante do meu teclado. Outra faceta desse homem que tanto me encanta está se revelando diante de mim, conforme ele se aproxima do microfone. Baixo meu olhar para o meu instrumento e sinto meus lábios se esticarem. Aliso levemente as teclas, do primeiro ao último dó, e respiro profundamente como vi Michael fazer. Ouço as batidas das baquetas do Pete marcando a contagem.
Entro no meu tempo corretamente, com uma segurança que não achei que fosse capaz de encontrar. Eu sei onde a busquei e encaro essa fonte. Aqui, ao seu lado, com as luzes que caem sobre nós, ele é ainda mais perfeito. Ouço sua voz penetrante e as notas elétricas que arranca de sua guitarra. Um arrepio percorre o meu corpo e logo estou tomada por ele e pela música que nos envolve. Uma conexão que eu não sentia há muito tempo, com o meu coração bombeando rapidamente o sangue que ferve dentro de mim. Eu me entrego a esse momento e sinto o elo que a música cria entre nós. O sorriso que dou para ele, é o maior que já mostrei em toda a minha vida, pois finalmente encontrei o lugar onde pertenço.
*Michael PoV*
Estou acostumado com uma plateia barulhenta e ansiosa, no entanto, Amber Lee não. Ela está uma pilha de nervos e provavelmente vai jantar as unhas. Conheço essa sensação muito bem. Já senti esse embrulho no estômago.
O único nervoso que sinto hoje em dia, é gerado pela presença dela. E essa calça a deixou mais gostosa do que já é, se isso for possível.
Pete se aproxima dela e coloca um braço ao redor de seus ombros, puxando-a para perto de si. Muito perto. Enquanto conversam, ele se afasta e a encara. Dá conselhos sobre como controlar a ansiedade e o medo do palco, pois a vejo inspirar e expirar várias vezes. Ele massageia suas têmporas para ajudá-la a relaxar. Desvio meu olhar antes que eu exploda com ele e me concentro no público, que já começa a fazer um estardalhaço lá fora.
Deveria ser eu a fazer isso por ela, porém não quero arriscar quebrar o frágil equilíbrio que encontramos. Posso acabar falando algo que estrague isso. Tenho que ser paciente, tudo a seu tempo.
Ouço a banda ser anunciada e fecho meus olhos apenas o tempo de puxar o ar e soltá-lo em seguida, enquanto aliso as cordas da minha Telecaster presa ao meu corpo. É algo que passei a fazer anos atrás, uma espécie de ritual que me acalma e me prepara para o espetáculo. Ao pisar no palco, aceno para a multidão que nos aplaude. Tenho um sorriso de um canto ao outro da boca. Posso não ser bom em lidar com as pessoas, mas, aqui, eu reino. Enquanto caminho em direção ao microfone com passos firmes, observo Amber Lee se posicionar atrás de seu teclado. Ela sorri para o instrumento e passa a mão sobre as teclas, como se tivesse descoberto algo. Seja lá o que for, parece que a fez relaxar. Desvio meu olhar quando Pete começa a contagem de início.
Não sei o que está reservado para nós. Só sei que agora consigo acreditar em sua capacidade.
Luzes coloridas riscam o cenário. Quando começo a cantar, sinto as batidas do meu coração ecoando ao ritmo das primeiras notas do teclado. Quase perco o fôlego com sua perfeição e é exatamente como a ouvi no Butterfly, entretanto, dessa vez, multiplicado a última potência. Giro meu rosto na direção dela e é como se me injetassem adrenalina na veia. Ela está radiante como nunca. O sorriso pleno, que tanto desejei ver todo esse tempo, ilumina seu rosto perfeito. Suas mãos sobre o teclado são ágeis e delicadas. São hipnotizantes. Seus olhos estão vidrados nos meus e não vejo mais o medo e a tensão. Vejo a mesma paixão que arde dentro de mim.
Seguimos nessa sintonia harmoniosa em todas as canções. Quando meus versos da última música terminam e iniciamos o solo final, vou em direção a Amber Lee como se fosse puxado por um ímã. Paro diante de seu teclado enquanto toco minha guitarra. As notas de nossos instrumentos se misturam, como se fizessem o s&xo que nossos corpos tanto desejam.
Pete entra em um solo de bateria arrepiante, envolvido em nossa vibe insana. É como se nos apresentássemos e agradecêssemos ao público dessa forma. Depois, ele me dá a deixa. Embarco em um solo louco e extremamente prazeroso. Olho diretamente para Amber Lee e aceno com o queixo, diminuindo o ritmo do meu instrumento, fazendo apenas uma base. Ela entende e improvisa o próprio solo. Vejo-a brilhar e é simplesmente sublime.
O sentimento que aquece o meu peito não cabe dentro de mim. Isso só foi possível graças à música que nos uniu e é maior que qualquer coisa que eu já tenha experimentado.