Capítulo 12

1129 Palavras
Juan se aproximou dela e sussurrou em seu ouvido para que Nicolle não ouvisse. — Dance em minha boate até sua dívida ser paga. Laura o encarou assustada. Ela jamais se imaginou recebendo uma proposta tão ousada como aquela. Se Nicolle não estivesse ali, ela com certeza lhe daria um tapa. — Jamais aceitarei tal proposta. — Não seja tola. Não vou oferecer de novo. Digamos que, não sou conhecido por ser muito paciente. — Laura sabia que as palavras do homem à sua frente tinham segundas intenções, sabia muito bem que gente como ele não perdoava dívidas. — Então, o que me diz? — Minha resposta é não! Pegou a mão da pequena Nicolle e correu até seu prédio. Ela ignorou as perguntas de sua irmã, Nicolle não tinha idade suficiente para saber a merda em que elas estavam, merda essa que seu pai havia criado. Puxando o ar, subiu os degraus até o terceiro andar, mas ao chegar no final da escada, ela viu seus móveis todos no corredor. Seu sofá, televisão, armário de cozinha, tudo estava jogado de qualquer jeito. — O que está acontecendo aqui? — Que bom que voltou. — O dono do prédio surgiu de dentro do apartamento. — Você tem trinta minutos para arrumar suas malas e sair daqui. — Mas senhor Wilson, eu não tenho para onde ir. Para onde vou com a minha irmã? — Seus olhos ardiam com as lágrimas começando a se formarem. — Por favor, o senhor havia me dado alguns dias... — Isso não me interessa! Arrumei um novo inquilino. Os móveis ficarão como forma de pagamento. Você tem trinta minutos. Laura ficou ali, parada em meio aos seus antigos móveis. As lágrimas começavam a rolar pelo seu rosto, o deixando molhado. Ela entrou no apartamento vazio. Olhou para a sala e viu apenas suas fotos jogadas no chão. — Não temos mais casa? — Chorosa, Nicolle perguntou. — Laura, estou com medo. — Vamos dar um jeito, eu prometo. Ultimamente, estava fazendo muitas promessas, mas não conseguiu cumprir nenhuma. Agora tinha mais uma, e sem dúvida, a mais importante. Sozinha, sem um tostão no bolso, sem emprego, com uma criança pequena para cuidar e agora sem casa, essa era a vida de Laura. Ela não parava de pensar em como sua vida mudou tanto. Ela tinha um futuro pela frente, seria uma bailarina profissional, se casaria com o homem dos seus sonhos quando ele aparecesse, porém, uma tempestade chegou e levou todos os seus sonhos por água abaixo. Com os olhos vermelhos de tanto chorar, fechou a última mala. Pegou sua irmã e deu adeus ao seu apartamento. Ali, ela tinha vivido toda a sua infância e adolescência, havia lembranças boas e ruins por todos os lugares, agora não passava de um espaço vazio e solitário. — Minha filha... — Dona Cecilia abraçou Nicolle e em seguida Laura. — Eu juro eu tentei falar, mas ele ameaçou fazer o mesmo comigo. — Velho desgraçado — Laura, resmungou. — Tudo bem. Quero agradecer por toda ajuda. Pelos abraços e carinho. Não sei para aonde vamos, mas quando as coisas melhorarem, prometo que venho visitá-la. Cecilia usou toda a sua força para não chorar, ela tinha que ser forte, as coisas já estavam ruins demais para que ficasse chorando feito uma louca pelos cantos. — Leve essa bolsa. Aqui tem alguns biscoitos e outras coisas para vocês. Tem um lugar aqui perto, o Santa Lúcia, é um abrigo criado por mexicanos há alguns anos. Peça abrigo a eles. Sempre que puder irei vê-las. — Com um abraço, Laura e Nicolle se despediram da senhora que havia sido muito mais do que uma vizinha. Elas desceram de elevador e quando as portas se abriram, lá estava ele, o dono do prédio. Seu sorriso iluminava o rosto enrugado. Possuída por uma raiva, Laura caminhou a passos largos, parou de frente para ele que a olhava com os olhos arregalados. — Está feliz agora? Estamos indo embora. — Laura bufava com raiva, mas ela utilizava aquele sentimento no momento para não ser fraca e chorar na frente dele. — Como o senhor irá dormir essa noite sabendo que uma criança de quatro anos está num abrigo? Me diga que sua consciência não pesa nenhum pouquinho? Espero que quando você colocar sua cabeça para descansar no travesseiro, a imagem da minha irmã não venha assombrar seus pensamentos. Passar bem, senhor Wilson! Ele não soube o que falar, Laura tinha sido feroz como uma leoa quando protege os filhotes, falou tudo o que estava engasgado em sua garganta e saiu de cabeça erguida.Seu coração estava quebrado, ele nem sequer existia mais, apenas um pedaço de carne que insistia em ficar pulsando. Laura caminhou com sua irmã ao lado, com as mochilas nas costas, duas malas nas mãos e lágrimas nos olhos, até o abrigo que dona Cecilia falou. O local parecia ser amplo, um portão grande de ferro separava o abrigo da rua. Ela chamou por alguém. Uma jovem miúda de cabelos claros mais ou menos da sua idade, abriu a porta e olhou para o portão. — Oi, preciso de ajuda. — Envergonhada, Laura falou. A jovem que antes estava parada na porta, agora caminhava até elas. — Bem-vindas ao Abrigo Santa Lúcia. Sou Jane a filha dos donos. — Sorrindo, Jane abriu o portão. — Entrem, vamos conhecer o local. Meus pais logo conversarão com você. Laura e Nicolle caminharam atrás de Jane, que tagarelava sem parar. Enquanto a moça dava instruções sobre o abrigo, Laura olhava com atenção as crianças que andavam de um lado para o outro, sorrindo como se tudo estivesse normal. Alguns adultos arrumavam suas camas. — Aqui é onde as mulheres e crianças dormem. — Jane apontou para uma sala enorme. Várias camas estavam alinhadas no local. Mulheres de todas as idades dormiam ali. — Na outra ala é onde os homens dormem. Aqui é proibido ter relações sexuais, em respeito aos outros. Suas camas serão estas, vocês podem juntar as camas. Minha mãe vai mostrar onde fica o banheiro e o refeitório. Laura colocou suas malas sobre a pequena cama de ferro. Nicolle olhava assustada para todos ao seu redor, e não era para menos, algumas mulheres que estavam ali as olhavam de um jeito estranho. — Não quero ficar aqui. — É provisório, até eu arrumar um emprego. — Sorriu. — Venha, vamos juntar nossas camas. Juntas, as duas arrastaram as camas e as uniram lado a lado. De dentro de uma das malas, Laura tirou uma colcha grande cor-de-rosa, apropriada para uma cama de casal. Abriu sobre as duas camas e assim formou uma cama só. A cada gesto que ela fazia, memórias de sua mãe arrumando seu quarto, invadiam sua mente.
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