— Mamãe, mamãe, mamãe! — Laura gritava ao entrar em casa. — Mamãe, olha o que eu ganhei da professora.
Laura tinha seis anos de idade. Seus cabelos escuros, balançavam enquanto corria
até o quarto de seus pais.
— Deixe-me ver, meu anjo. — Núbia, sorriu ao vê-la. Laura entregou mostrando a estrela dourada em forma de medalha.
— A professora deu a medalhinha para quem fez a tarefa certa, e eu fiz. — Feliz, Laura pulou nos braços da mãe.
Anos depois Laura já não era tão pequena. Ela acabara de completar seus doze anos. Olhava seu reflexo na frente do espelho e se perguntava o porquê não era igual as suas amigas. Todas tinham corpos moldados que faziam os garotos da escola enlouquecerem, porém ela não tinha. Seus s***s eram tão pequenos que m*l podiam ser notados.
— O que você faz aí parada? — Núbia perguntou. — Christina está esperando na sala.
Suspirando um pouco triste, Laura pegou sua mochila e a colocou em frente aos seus s***s. Sua mãe a conhecia bem, sabia sempre o que se passava com sua filha sem ao menos ela falar nada.— Tudo no seu tempo. As coisas acontecem de forma natural, mesmo que às vezes pareçam que vão demorar anos, mas uma hora elas acontecem. — Núbia abraçou forte Laura e saiu a deixando refletir em suas palavras.
Seis anos à frente, Laura dançava feliz com seus amigos em sua pequena festa de dezoito anos. Era uma data importante para ela, seria quando sua maioridade chegaria e assim ela poderia, finalmente, entrar na escola de artes e cursar balé como sempre sonhou. Seu pai não a apoiava, dizia sempre que ela não seguiria os passos da mãe, pois menina de família não dançava para os outros. Era como se ela estivesse se insinuando para os homens.
— Eu disse que não queria uma festa aqui! — David gritou, fazendo com que todos ouvissem. — Laura, acabe com isso!
— Papai, é só uma reunião, nada demais.
— Você está dançando e se insinuando. Não quero filha minha assim, igual a uma...
David não terminou de falar, foi em direção ao som e desligou a música. Com o rosto enrugado, ele abriu a porta e enxotou para fora de sua casa os amigos de Laura como se fossem cães sarnentos.
Ela não podia falar nada, sabia que sua opinião não seria ouvida.
Laura chorava sem perceber. Seu rosto já estava completamente tomando pelas lágrimas. Lembrar de sua antiga vida fazia seu peito arder de saudades. Ela daria qualquer coisa para ter mais alguns momentos ao lado de sua mãe. Laura se culpava por não ter ficado em casa no dia em que Núbia decidiu tirar sua própria vida. Talvez, ela a tivesse impedido. Outra lembrança a atingiu com força total, mas essa não era tão antiga.
Trajando um vestido preto até a altura de suas coxas, Laura prendeu seus cabelos em um r**o de cavalo alto. Passou um batom vermelho nos lábios e salpicou um pouco do perfume preferido de Núbia. Ela estava indo ao enterro de sua mãe. Era como se estivesse morrendo aos poucos, a dor a sufocava cada vez mais.
Laura havia deixado Nicolle com sua vizinha, sua irmã era muito nova para ter que passar por algo tão doloroso como ver sua mãe sendo enterrada.
Trinta e três minutos depois o ônibus já havia deixado Laura próximo ao lugar.
Caminhando, lentamente, ela entrou no cemitério. O cheiro de velas e rosas invadiam suas narinas fazendo seu estômago revirar. Mais alguns passos e, entrou na capela. Um caixão de madeira com o corpo de sua mãe estava posto no centro. Havia duas coroas de flores uma de cada lado do caixão, algumas velas e dois bancos de madeiras, que acomodaria seis pessoas em cada um.
— Mamãe... — Laura chorou ao vê-la sem vida. — Mamãe, me perdoa, por favor. Se eu soubesse que a senhora não estava bem, eu tinha ficado. Eu... Eu... Ah, mamãe. Porque me deixou?
Laura chorava com a cabeça apoiada no caixão. Ela não conseguia falar sem que engasgasse em suas próprias palavras. Seu corpo tremia e suas pernas balançavam. Ela levantou o rosto e olhou a sua volta. Estava sozinha. Ninguém tinha ido ao funeral. Laura decidiu não contar para ninguém além de dona Cecilia que havia lhe dado dinheiro para o
enterro.
— Eu prometo cuidar da Nicolle. Prometo dar a ela um futuro bom, digno. Prometo também que não vou desistir do meu sonho. Vou ser uma bailarina. Irei orgulhá-la. Eu só queria que a senhora estivesse aqui para ver tudo isso.
Laura não teve tempo para chorar outra vez, dois homens que eram encarregados de realizar o sepultamento chegaram e avisaram que estava na hora. Eles fecharam o caixão e o carregaram até onde uma cova aberta os aguardavam. Devagar e com cuidado, desceram o
caixão.
— Descanse em paz, mamãe. Eu te amo! — Laura jogou uma flor vermelha sobre o caixão antes de que começassem a jogar terra.
— Laura, porque está chorando? — Nicolle perguntou.
— Não é nada. Vamos procurar o banheiro para lavarmos nossas mãos.
Laura tentava passar calma e tranquilidade a sua irmã, por mais que ela não sentisse o mesmo, porém, era o seu dever como irmã mais velha proteger e cuidar de Nicolle.