De mãos lavadas, elas continuaram a caminhar pelo abrigo até encontrar o refeitório. Um lugar grande e frio. Haviam oito fileiras de mesas, todas feitas de concreto. Os bancos eram feitos do mesmo material que as mesas. Uma cozinha com uma enorme janela de madeira estava aberta, como se
fosse uma cozinha interligada com a sala de jantar. — Oi, sou Elise e esse é meu esposo Tom. — Uma mulher alta de cabelos quase brancos e óculos, estendeu a mão em sua direção. — Sejam bem-
vindas. Aqui somos uma família. Daremos abrigo, comida e respeito.
— Obrigada. Sou Laura e essa é minha irmã Nicolle. — Nicolle agarrou nas pernas de Laura e escondeu seu rosto nelas. A pequena não era acostumada com pessoas estranhas. — Ela é um pouco tímida. — Entendemos — falou Tom, que até agora não havia se pronunciado. Ele era um homem alto, igual a sua esposa. Cabelos grisalhos e barba curta. Um homem bonito considerando que já devia ter quase sessenta anos. — Vocês devem estar morrendo de fome. Vamos almoçar.
Laura não quis demonstrar, mas sua barriga gritava por comida. Ela não comia nada desde a noite passada quando fez os dois últimos pacotes de
macarrão instantâneo.
Sentada ao lado de sua irmã, devorava toda a comida em seu prato. Para ela, aquele macarrão com queijo e frango frito eram os melhores que já
havia comido em sua vida. Não existe coisa melhor do que comer quando se está morrendo de fome, e era isso o que ela sentia.
Nicolle não ficava atrás, ela comia com tanto prazer que às vezes chegava a se engasgar.
Pela primeira vez depois que suas vidas viraram um total caos, se sentiram bem. Sentiram-se protegidas e amparadas.
— Estava uma delícia — Laura falou a Elise, assim que acabou a refeição. — Como diz aquele ditado: matei o que estava me matando.
Elise riu.
De mãos dadas, Laura e Nicolle voltaram para sua cama. Ela precisava pensar no que faria para sair daquela situação. Nãopoderiam ficar para sempre
no abrigo, uma hora elas teriam que sair dali, mas que saíssem para uma vida melhor, ou mais ou menos estável, assim pensava a moça.
— Estou com sono. — Nicolle coçou seus olhos e bocejou.
— Deixa eu tirar as bolsas de cima da cama para... — Laura pausou o que falava quando deu falta de uma bolsa. Desesperada, Laura começou a
procura pela bolsa, mas estava sendo em vão. — Não, não pode ser!
O desespero se abateu sobre ela. Laura não queria aceitar que a haviam roubado. Nem os pacotes de biscoito que dona Cecilia as deu estavam lá.
Definitivamente, haviam roubado sua bolsa. Ela não estava segura nas ruas, não estava segura dentro do abrigo, não estava segura em lugar algum, porém, aquele era o único teto que ela tinha no momento, era aquilo ou dormir na rua.
— Preciso respirar — Laura falou. Colocou sua irmã na cama, a cobriu e saiu.
Já era início da noite quando Laura percebeu. Ela estava tão perdida em seus pensamentos que nem viu as horas passarem.Andou até o portão de ferro e encostou sua cabeça nas grades. Ela já estava farta de tudo aquilo.
— Dia difícil? — Uma voz conhecida a faz levantar seus olhos. Era ele.
— Nem te conto.