— Vamos? — Como nos filmes de cinema, Juan abriu a porta do banco de trás do carro.
— Ele é seu namorado, Laura?
— Não! — Rapidamente, Laura respondeu. Seu rosto estava vermelho e seus olhos quase saltando para fora. — Ele é um amigo do papai que vai nos ajudar hoje. Agora entra no carro.
Se ela pudesse cavar um buraco no chão e enterrar sua cabeça ali dentro, ela faria. Nicolle sabia como deixar Laura em situações constrangedoras.
— Você sabe que seu pai ainda me deve, não é? — Laura concordou com um aceno de cabeça. — E você terá que pagar. Eu não vou ficar sem meu
dinheiro.
— De quanto estamos falando?
Ele riu.
Negou com o dedo e disse que amanhã conversavam. Para ela estava
bom, naquela noite ela não iria se preocupar com dívidas ou qualquer outra coisa que não fosse dormir.
Juan andava com seu carro pelas ruas de Nova Iorque como se fosse o dono. Seus olhos fixos na pista, mas às vezes deslizavam para as coxas de
Laura. Ela usava uma calça jeans apertada, o que deixava suas pernas destacadas. Ela sabia que ele a olhava, mas preferiu fingir que nada acontecia.
— Ela dormiu — Juan disse ao olhar para trás. Nicolle dormia no banco do passageiro. O sinto de segurança a protegia, não deixando que ela
caísse.
— Ela presenciou muita coisa hoje. — Laura não havia se dado conta de que o carro já não estava mais em movimento. Só quando Juan tirou a chave
da ignição foi que ela viu que um prédio modesto estava ao seu lado. — É aqui?
— Sim. Vamos, eu levo sua irmã.
Laura protestou, ela não deixaria que um desconhecido carregasse sua irmã nos braços, mas Juan era teimoso, e não desistia. Ele carregou Nicolle em seu colo até o quarto andar. Parou em frente a uma porta branca com o número dezoito gravado.
— A chave está debaixo do tapete. O dono deixou aqui para que entrássemos. Pegue.
Laura abaixou e pegou uma chave dourada. Girou na fechadura e entrou. Seus dedos percorreram a parede e logo encontrou o interruptor. Quando as luzes se acederam, Laura soltou um suspiro de alívio. Ela sentiu seus olhos encherem de lágrimas. Finalmente, dormiria segura, pelo menos até
resolver o que faria da sua vida no dia seguinte.
As paredes da pequena sala eram em cores pastéis. Dois sofás vermelhos, uma mesa de centro e uma televisão moderna. Esses era os móveis
da sala. Nas paredes, algumas prateleiras vazias decoravam ambiente.
— Pode ficar o tempo que quiser. Sua irmã está dormindo no quarto. — Juan falou ao se aproximar por trás. — Enquanto estiver aqui, estará segura.
Eu prometo.
Laura sentiu seu corpo tremer. Ela não negaria que Juan era um homem atraente, seus olhos azuis e braços tatuados a deixavam hipnotizada.
— Obrigada, mas será só por essa noite. — Laura se afastou. — Eu nem teria como pagar para ficar aqui. — Eu já disse, dance na minha boate. Você receberá um salário e com isso pagará a dívida de seu pai.
Ele sempre a lembraria que o devia, mesmo que não fosse ela a causadora da dívida. Ela queria saber o porquê seu pai havia feito isso com ela.
O motivo de ter abandonado a família.
— Você sabe o porquê ele pediu dinheiro? — Com medo da resposta, Laura perguntou e virou de costas. Seus olhos fixaram nas pequenas janelas da sala. — Ele te falou alguma coisa?
— Não. Ele pegou o dinheiro e foi embora.
— E isso foi quando? — Juan não respondeu. Ele sabia a que Laura se referia. — Juan?
— Quando sua mãe faleceu mesmo? Talvez um mês antes disso.
Não precisou que ele falasse mais nada, Laura soube que o dinheiro que seu pai havia pegado fora usado para ir embora de casa. O mesmo maldito
dinheiro que ele a deixou para pagar.
Laura quis gritar, socar algo para que sua raiva fosse dissipada. Procurando com seus olhos, ela encontrou uma almofada branca sobre o sofá.
Com toda sua força, ela a socou, socou e socou. Ela jamais tinha sentido algo tão r**m como naquele momento. Um sentimento o qual ela estava segurando dentro de si desde o dia em que percebeu que estava sozinha, sem pai e sem
mãe, pois Núbia havia tirado a própria vida e seu pai fugido feito um bandido. Ela queria odiar seu pai, queria desejar seu m*l, porém não conseguia. Mesmo ele sendo o motivo pelo qual sua mãe estava morta, ela ainda assim não conseguia odiá-lo.
Vendo toda aquela situação, Juan agiu sem pensar. Abraçou Laura e apoiou sua cabeça em seu peito.
— Me solta! — gritando, Laura bateu em Juan. — Me solta, merda!
Juan não a soltou. Ele sabia que ela precisava de alguém forte. Sabia que Laura era só mais uma garota que teria que deixar seus sonhos morrerem
como várias que conhecia, mas assim era a vida.
Laura continuava lutando contra o aperto dos braços de Juan. Ela não queria ajuda, muito menos dele, porém, sabia que nada podia fazer. Então
deixou ser levada pelas lágrimas que, finalmente, rolavam pelo seu delicado rosto. Seu corpo trêmulo estava sendo amparado pelos braços de Juan, que
não falava nada, apenas continuava ali, parado. Aquela situação era normal, afinal, ele era dono de uma boate onde acontecia de tudo. Muitas das meninas que trabalhavam para ele era por necessidade. Umas tinham filhos para sustentar, outras uma mãe, um pai ou avós que precisavam de remédios ou tratamentos caros. Ele estava acostumando a ver todo o tipo de situação, até
mesmo os surtos e choros.
Um pouco mais calma, Laura o afastou com força. Aquela não era ela. Ela jamais se deixaria ser abraçada por um homem desconhecido. O mesmo
homem que a ofereceu um emprego onde ela teria que se despir para poder pagar a dívida de seu pai e dar de comer a sua irmã.
Seu rosto estava todo vermelho devido ao choro. Seus olhos inchados e o nariz escorrendo.
— Desculpa por isso — disse ela sem jeito. — Obrigada.
— Não me agradeça, ainda... — Piscou um olho para ela e caminhou até a porta. — Você e sua irmã estão seguras. Ninguém fará nada contra vocês.
Amanhã volto para conversarmos sobre o emprego na boate. Boa noite, Laura.
Assim que Juan saiu, Laura correu e se jogou contra a porta a fechando. Ela ainda continuava nervosa, seu coração estava acelerado e sua
respiração falhando. Tudo o que Laura queria naquela noite era um banho e depois dormir o sono dos justos. Necessitava.
Curiosa, procurou pelo banheiro e na primeira tentativa o achou. Não era um cômodo grande, mas para aquele banho, estava ótimo. Rapidamente, se
despiu, ligou a ducha quente e entrou de uma só vez. A água caia sobre sua cabeça e descia pelos seus ombros, passeando pelo seu corpo e levando embora o cansaço, tristeza, raiva e desespero, pelo menos por algumas míseras horas. A
água parecia ser mágica, ela fazia com que Laura se sentisse menos suja interiormente.
Enrolada na toalha, voltou para sala, pegou de dentro de umas das bolsas um vestido velho e o vestiu. Desligou as luzes e foi para o quarto onde
Nicolle dormia, ressonando alto como se parecesse um adulto. Ela puxou as cobertas e deitou. Experimentou a maciez do colchão que foi aprovado por ela com um sorriso de satisfação. Repousou sua cabeça cansada no travesseiro e deixou ser levada pela escuridão e sono.
Naquela noite, Laura não sonhou, não teve pesadelos. Ela apenas dormiu abraçada a sua irmã e agora filha.