Capítulo 8

613 Palavras
Naquela noite não conseguiu dormir. A todo instante achava que o homem de olhos azuis e rosto furioso, voltaria. Qualquer barulho que ela ouvira já era motivo para tremer em sua cama, também já era de se esperar, afinal, quem não ficaria com medo se na calada da noite um bando de homens desconhecidos invadisse a sua casa? Já havia amanhecido quando o sono começou a vencer a batalha que Laura travava durante a noite, porém, não podia dormir. O dia seria corrido igual ao anterior, tinha que levar sua irmã para a escola, correr atrás de um emprego, sua vida não podia parar, ela não seria para sempre “a menina que a mãe se suicidou”, uma hora todos iriam esquecer aquilo e tudo voltaria ao normal, mas não o normal que desejara. — Por que a mãe do Billy disse que o papai é um safado? — Nicolle perguntou ao chegar na sala. Seus cabelos estavam soltos e enfeitado com uma tiara cor-de-rosa. O uniforme da escola impecável sem nenhuma mancha. — Ele disse também, que a mamãe dele falou que a nossa mãe se matou, mas eu falei que não era verdade. Laura não sabia o que fazer, nunca havia se imaginado naquela situação. Ela sempre foi responsável, ajudava nos afazeres de casa, cuidava da mãe quando as crises de depressão falavam mais alto, sempre foi a filha certinha, mas ela nunca havia sido mãe, e era isso o que estava se tornando, mãe de sua própria irmã. — Quando alguém falar essas coisas pra você, não ligue. Eles estão com inveja porque a nossa mãe era linda. Você lembra como ela era, não é? — Lembro. Ela tinha um cheiro gostoso. — Nicolle riu, mas logo tampou sua boca escondendo os dentes que faltavam. — Sim, ela tinha. — Lembrou-se da mãe, melancolicamente. — Bom, vamos para a escola. Hoje quem vai te buscar sou eu. De mãos dadas, elas saíram de seu apartamento. Andaram até o elevador e assim que as portas de ferro se abriram, entraram. Elas poderiam ter descido as escadas, eram apenas três andares, mas os pés de Laura ainda doíam devido ao sapato apertado que usara no dia anterior quando saiu a procura de emprego. m*l deu tempo de sair do elevador e o síndico do prédio as abordaram. — Era com você mesmo que eu queria falar. — Wilson, o síndico, dono e zelador do edifício, falou. O senhor de idade avançada, careca com a pele enrugada, era o homem mais sovina que Laura já havia visto. — Bom dia, senhor Wilson. — Não me venha com bom dia e nem com historinhas. Já esperei tempo demais. Quero o dinheiro dos aluguéis atrasados e desse mês também. — Eu não tenho no momento, mas prometo que... — Promete nada! — ele gritou. Nicolle que estava segurando a mão da irmã, grudou na perna de Laura, com medo do velho ranzinza. — Você tem sete dias, ouviu bem? Sete dias para conseguir o meu dinheiro, ou vou jogar você e sua irmã no olho da rua. Estamos entendidos? — Aquela era uma pergunta retórica, não precisava que alguém respondesse em voz alta, todos já sabiam a resposta. Envergonhada pela situação que o pai havia lhe deixado, ela respirou fundo enquanto o homem se distanciava.Agora havia duas dividas para pagar. Dívidas que nem eram dela. Ela sorriu para a irmã na tentativa de acalmá-la. Com o sorriso meigo de sempre, Laura pegou a menina no colo e saiu dali. Como repetira para si mesma na frente do espelho do banheiro, a vida continua. E foi com esse pensamento que ela iniciou o dia.
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