Capítulo23

1229 Palavras
Laura estava estranha, calada e um pouco insegura. Ela sentia coisas que jamais havia sentido antes. Uma atração louca e confusa que estava fazendo sua cabeça latejar. Tentando disfarçar, ela cruzou suas pernas, ditou o lugar onde iria e seguiram o caminho em silêncio. “Laura, Laura... O que eu não faria para que você não tivesse que dançar naquela boate” — Pietro pensava, e sem que Laura notasse, ele a olhava pelos cantos dos olhos. Suas pernas cruzadas deixavam um pouco de pele amostra. Sua coxa bem torneada o deixava com vontade de apertá-la. Se ela não fosse tão importante e especial para ele, com certeza já estaria pelado sobre seu corpo a fodendo como se não existisse o amanhã. Mas Laura era diferente, ela estava carregando um fardo tão grande nas costas, sozinha, quando seu pai estava curtindo e aproveitando o melhor da vida ao lado da sua mãe. Pietro tinha vergonha de ser filho de quem era. Tinha raiva de David. Por causa dele, ela estava levando a vida de qualquer jeito para poder sustentar a irmã, uma responsabilidade que não era dela, porém, Laura era madura o suficiente para saber quando tinha que lutar pelas coisas. Vinte e cinco minutos, esse foi o tempo exato que o táxi percorreu até a escola onde a irmã de Laura estudava. Retirando umas notas da bolsa, Laura se ofereceu para pagar a corrida, porém, Pietro era um homem educado que sempre puxava a cadeira para a dama sentar. Ele não deixaria que Laura pagasse por aquela corrida. — Eu pago — disse ele, tocando levante em sua mão. — Faço questão, por favor. — Obrigada. — Laura sorriu, guardando o dinheiro na bolsa. Assim que Pietro pagou ao taxista, Laura e ele saíram do carro. O céu ainda estava nublado, as nuvens carregadas anunciavam que mais uma forte chuva estava por vir. Eles andaram rápido e lado a lado até a entrada da escola. Laura havia tomado a decisão de que sua irmã não teria o mesmo destino que o dela. Ela estudaria nas melhores escolas, vestiria as melhores e mais bonitas roupas, teria uma infância e adolescência digna, seu caráter seria formado e quando ela chegasse na vida adulta, estaria pronta para tomar as próprias decisões. Mas até que isso acontecesse, Laura lutaria por ela. A frente da escola estava cheia de mães e alguns pais de alunos. Todos olhavam para Laura e Pietro. “Os dois formam um belo casal” — pensou uma senhora de cabelos brancos, pele enrugada e casaco de pele. E sim, era verdade. Eles ficavam bem juntos. — Vocês moram por aqui? — Pietro perguntou. — Mais ou menos — respondeu Laura, olhando para o portão. — Dá para ir andando, uns quinze minutos. — Posso chamar outro táxi. Laura não conseguiu responder. Um mini furacão de trancinhas surgiu correndo até ela. — Oi, Laura. Choveu muito. Você viu? — Nicolle, com sua voz meiga de criança, perguntou a irmã. — Sim, meu amor. Os olhos rápidos da pequena Nicolle foram para o homem alto de cabelos loiro- escuros usando terno, que estava ao lado de sua irmã mais velha. Ela não o conhecia, não sabia se era amigo ou não, porém, algo dentro dela fez com que ela sorrisse para ele, mostrando os dentes que faltavam na frente. — Oi. Meu nome é Nicolle, com duas letras L. E o seu? Laura riu. — Oi, Nicolle com duas letras L, eu sou o Pietro — respondeu ele, sorrindo. Era impossível não se encantar por ela. Seu jeitinho inocente de criança conquistava o coração de todos ao seu redor. — Vamos? O tempo está feio e não quero que você pegue chuva. — Laura ajeitou a capa de chuva na irmã. Pegou a mochila cor-de-rosa e colocou nas costas. — Pietro, eu nem sei como te agradecer. Sério mesmo. Você está me fazendo um grande favor. — Não me agradeça Laura. Apenas compareça amanhã no endereço que vou te mandar. — Pietro sacou o celular do bolso e entregou para Laura. — Anote seu número aqui, por favor. Te mandarei todas as informações necessárias. Laura não pensou muito, pegou o aparelho das mãos grandes do rapaz e rapidamente gravou seu número nele. Todos se despediram e não demorou muito para que cada um estivesse seguindo seu caminho. Laura não parava de sorrir quando chegou em casa, parecia uma criança alegre ao ganhar um presente de natal. Ela sentia que, finalmente, as coisas começariam a dar certo em sua vida. *** Na cozinha, ela tentava fazer alguma coisa para sua irmã comer, mas o rosto de Pietro e seu sorriso galante não saiam de sua cabeça. — Laura? Laura? LAURA! — gritou Nicolle, trazendo de volta para a realidade sua irmã. Laura percebeu que a panela que ela havia colocado no fogão estava queimando. Seus pensamentos haviam ido tão longe que ele nem se lembrava mais do que estava fazendo. — Merda! — esbravejou, irritada. — Lá se vai o arroz. Com auxílio de dois panos de pratos, Laura tirou a panela de arroz queimado do fogão e colocou sobre a pia. Frustrada, ela olhou para sua irmã que a encarava sem entender nada. — O que acha de pedirmos comida? — Eba! Quero sobremesa também. Eu mereço. Estou me comportando na escola nova, mesmo eu sendo diferente das outras crianças. Franzindo o cenho, Laura dobrou os joelhos e ficou na altura de Nicolle. Acariciou seu rostinho gordinho e conseguiu ver as lágrimas que se formavam em seus lindos olhinhos. — Porque você disse que é diferente das outras crianças? — Nicolle fungou. — Nick, alguém está fazendo alguma coisa para você? Negando com a cabeça, Nicolle respondeu: — Todas as crianças da minha sala têm mamãe e papai, e eu não. Eles ficam falando que ninguém me quis, por isso foram embora. — Soluçando, a pequena Nicolle agarrou o pescoço de sua irmã e chorou. Laura sentiu seu coração se partir, se é que ela ainda tinha um coração. Seu peito começou a doer, tamanha era a raiva que ela estava sentindo naquele momento da vida. Não disse nada, apenas continuou abraçada a sua irmã até que ela se acalmasse. Laura não viu o tempo passar. Abraçadas, as irmãs entraram em seus mundos diferentes e ali ficaram. Nicolle chorava porque queria seus pais de volta, e Laura não parava de pensar em como faria para que sua irmã nunca mais tivesse que passar por tal sofrimento. — Meu anjo... — começou Laura. — Nem sempre as coisas acontecem como queremos. Uns tem só papai, outros tem só a mamãe, e tem aqueles que não tem ninguém. Mas isso não significa que eles são diferentes. Todos somos iguais. Por baixo da pele, corre o sangue da mesma cor, os ossos são brancos. Então quando alguém falar que você é diferente, não importa o motivo, não fique triste. Do mesmo jeito que tem pessoas que não tem o pai ou a mãe, também tem aqueles que são apenas fracos por julgarem. Você é incrível, Nicolle. Ouviu? — Eu te amo, Laura! — disse Nicolle, saindo do abraço de sua irmã. — Não me deixe. — Jamais irei te deixar. Eu também te amo, meu anjo. Mais alguns abraços foram dados, lágrimas derramadas e então, finalmente, Laura ligou para o restaurante pedindo comida.
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