Merliah
Merliah m*l teve tempo de saborear a última garfada do frango ensopado. A porta da cozinha se abriu, e um dos seguranças de Jhonny apareceu, o rosto impassível.
— Patroa Merliah, o chefe pede que a senhorita vá ao escritório dele. Agora.
Merliah trocou um olhar significativo com Nanda. O show de Jhonny havia acabado, e a negociação começaria.
— Diga a meu pai que estou a caminho — Merliah respondeu com a voz firme. Ela se levantou, ajeitou a roupa e beijou Nanda na testa.
— Lembre-se do plano — Nanda sussurrou, a preocupação em seus olhos. — Use o cérebro, não o coração.
Merliah subiu as escadas, sentindo o peso do diploma em uma mão e a coroa invisível na outra. Ela parou na frente da porta de mogno maciço do escritório.
Ao entrar, o cheiro de charuto estava mais forte do que nunca. Bravo estava sentado na sua cadeira de couro, com papéis espalhados pela mesa e uma expressão que não era mais de pai, mas de chefe.
— Sente-se, princesa — Bravo ordenou, apontando para a cadeira à frente. — Acabou a palhaçada de faculdade. Você voltou para casa e vamos falar de negócios.
Merliah sentou-se, mantendo a postura ereta e o olhar fixo no dele.
— Eu não voltei para falar de "negócios", Pai. Eu voltei para ser nutricionista.
Bravo soltou uma risada seca, que soou mais como um trovão na sala.
— Nutricionista! Você acha que eu investi milhões de dólares em sua educação em Harvard para você ficar calculando calorias de morador? Seu lugar é aqui! Você é minha herdeira!
— E é exatamente por ser sua herdeira que eu preciso de uma base sólida — Merliah rebateu, acionando o plano de Nanda. — O que os "negócios" precisam agora é de legitimidade. Não posso simplesmente aparecer e começar a dar ordens. Eu preciso de uma fachada limpa.
Ela se inclinou na mesa, a voz cheia de convicção. — Eu vou ficar na Rocinha. Eu vou ser sua filha, sua herdeira, mas publicamente, eu serei a Doutora Merliah Rodrigues Vianna. Vou abrir um consultório, criar um projeto social de nutrição para as crianças e os idosos. Eu vou mostrar a todos que a herdeira é uma profissional brilhante que se importa com a comunidade.
Bravo a observou, interessado. Ele gostava do jeito que ela falava de poder, mesmo disfarçado de "obra social".
— Você quer usar seu diploma para fazer marketing? — ele perguntou, um sorriso lento se formando.
— Eu quero usar minha influência para estabilizar a sua posição, Pai. Com a minha faculdade, eu trago respeito e uma história que a polícia não pode derrubar facilmente. Você me dá o tempo para montar isso, e eu dou a você a legitimidade.
O silêncio na sala era tenso, apenas o tilintar do gelo no copo de Bravo podia ser ouvido. Ele bateu na mesa, não em raiva, mas em concordância.
— Você tem a cabeça do seu pai, garota. Tudo bem. Você terá o seu consultório. Mas não se engane. É um período de testes. Você faz o seu "projeto social" por seis meses. Depois, você se senta aqui e pega o que é seu.
Merliah assentiu. Ela havia vencido a primeira batalha. Mas ao sair do escritório, sentiu um peso no peito. O plano era bom, mas ela tinha acabado de se prender na Rocinha por pelo menos mais seis meses, com a pessoa que ela mais tentava esquecer.
Merliah saiu do escritório de Jhonny, o corpo tenso pela negociação, mas o alívio de ter ganhado seis meses de liberdade era palpável. Ela desceu as escadas, pensando em ligar para Nanda para celebrar o sucesso do plano.
Foi quando chegou ao patamar que dava para a sala de estar que ele apareceu.
Miguel estava escorado na parede, à sombra do vão da escada, esperando. Ele não estava com Felipe e Jessie; ele estava sozinho e pronto para o ataque.
— Bela negociação — Miguel disse, a voz baixa, grave, mas carregada de uma ironia que fez Merliah parar. — Usando a Nutrição para ser a "Princesa do Povo". Seu pai engoliu direitinho.
Merliah sentiu a raiva subir. Ele a viu como uma manipuladora, não uma sobrevivente.
— O que você estava fazendo, escutando a conversa? — ela devolveu, cruzando os braços, tentando parecer inabalável.
— Não precisa escutar quando a voz de Bravo ecoa por todo o andar. Além disso, eu sei ler as entrelinhas, Merliah. Você não quer a coroa, mas está presa aqui.
Ele se desencostou da parede e deu um passo em direção a ela. A proximidade dele era um perigo físico.
— Por que você voltou, de verdade? — ele perguntou, a voz ficando mais íntima. — Foi só pela sua mãe?
Merliah sentiu o chão sumir. Ele estava muito perto, o cheiro de sua colônia amadeirada invadindo seus sentidos.
— Isso não é da sua conta, Miguel. Eu voltei porque é a minha casa. E eu não tenho que te dar satisfação. Você é filho do meu padrinho, afilhado do meu pai... meu... irmão, lembra?
A palavra "irmão" soou áspera, quase como uma maldição. O rosto de Miguel se fechou em uma expressão de dor e fúria contida.
— Não use essa palavra comigo — ele sibilou, a mão dele subindo rapidamente para segurar o braço dela. O toque não era gentil, mas a eletricidade entre eles era inegável.
— Você pode ter passado três anos em Harvard fingindo que é a Dra. Merliah Rodrigues Vianna, mas aqui, no meio dessa sala, eu sou a única pessoa que sabe quem você realmente é. E eu sou a única que sentiu sua falta.
Merliah tentou puxar o braço, mas ele a segurou mais firme.
— Me solta, Miguel! Não complica as coisas!
— As coisas já estão complicadas desde a primeira vez que nos beijamos na laje quando tínhamos quinze anos, Merliah! Você acha que sumir resolveu alguma coisa? Eu te vi hoje e o mundo parou!
Os olhos dele eram um incêndio, e ela sabia que se ficasse mais um segundo, seria consumida.
— Resolve, sim! Resolve se eu manter distância, se eu mantiver meu foco. Você é proibido, Miguel! Você é a p***a do meu padrinho, e eu sou a afilhada do seu pai! Nós não podemos.
— E quem disse que a gente se importa com o que podemos? — ele perguntou, o rosto a centímetros do dela.
Ele soltou o braço dela de repente, mas apenas para deslizar a mão para a nuca dela, puxando-a para perto. A tensão explodiu: Miguel a beijou. Não foi um beijo de carinho, mas uma explosão de desejo e frustração acumulados por três anos de separação e proibição. Merliah resistiu por uma fração de segundo, mas a saudade e a paixão foram mais fortes. Ela o beijou de volta, entregando-se ao caos.
O barulho da tosse discreta de Nanda, vinda do corredor, fez com que eles se separassem abruptamente, a respiração ofegante, os corações disparados e a certeza de que a primeira regra havia sido quebrada em menos de uma hora de seu retorno.