Nanda
O som da tosse discreta de Nanda fez o mundo de Merliah e Miguel desmoronar. Eles se separaram abruptamente, o ar entre eles vibrando com a paixão e o terror da quase-descoberta. Sem dizer uma palavra, Miguel lançou um olhar sombrio para Merliah e desapareceu pelo corredor, misturando-se à penumbra da mansão.
Merliah ficou parada, ofegante, sentindo os lábios formigando e o peso do pecado recém-cometido. Nanda se aproximou devagar. Ela não gritou nem fez um escândalo. Seu olhar era de uma decepção profunda e medonha, pior do que qualquer repreensão.
— Você acabou de voltar, Merliah — a voz de Nanda era um sussurro tenso, mas cortante.
— E em menos de uma hora, você jogou fora todo o nosso plano.
Merliah tentou se defender, a mão ainda sobre o peito. — Mãe, eu...
— Não, Merliah! Não se atreva a mentir. Eu vi. E o Miguel... o Miguel não é o seu problema de nutrição que você pode resolver com um plano de dieta!
Nanda a puxou pelo braço e a levou para o lado, para longe de qualquer segurança que pudesse estar na escada.
— Você sabe o quanto isso é proibido! Você sabe o que o Bravo faria se visse isso? Se ele soubesse que você está flertando com o filho do padrinho, o afilhado dele, que foi criado como seu irmão?
O apelido "Bravo" para Jhonny, que Nanda usava apenas nos momentos de maior medo, fez Merliah gelar.
— Ele não gosta de ser desrespeitado, Merliah. E isso — Nanda apontou para o lugar onde eles se beijaram — é uma traição à confiança dele e aos laços que mantêm essa família e esse lugar em pé.
— Foi um erro, Mãe. Não vai acontecer de novo — Merliah prometeu, mas a própria voz soava vazia.
— Melhor que não aconteça! — Nanda a apertou, agora mais protetora do que brava.
— O seu pai está te testando. Ele te deu esse projeto para te manter ocupada, mas ele também colocou Miguel perto de você para ver se você seria forte. Não confunda a paixão com o poder, Merliah. Use o seu projeto para se salvar, não para se afundar.
A ameaça era real. Merliah sabia que o amor proibido não era apenas um drama romântico; era um perigo de vida na Rocinha, especialmente se Jhonny descobrisse. Ela engoliu o medo e a culpa. Tinha que focar no seu consultório. Tinha que focar em ser a Doutora Merliah.
Merliah mergulhou de cabeça no projeto do consultório, usando-o como uma barreira psicológica contra o beijo de Miguel e as expectativas de Jhonny. O espaço era grande e a reforma, bancada integralmente pelo pai, começou com a velocidade e a eficiência características do comando da Rocinha 2.
Em poucos dias, o antigo salão comercial foi invadido por pedreiros, eletricistas e o barulho incessante de marretas. Merliah estava lá todos os dias, de jeans e camiseta, cobrindo o rosto com uma bandana para proteger-se da poeira. Ela não era apenas a herdeira; era a arquiteta de seu próprio futuro.
A Visão da Doutora
Merliah era implacável. Ela desenhou a planta, supervisionou a instalação do piso vinílico fácil de limpar e ideal para um ambiente de saúde, e insistiu em uma paleta de cores neutras e acolhedoras para as paredes, priorizando a entrada de luz natural.
— Precisa de uma sala de espera que não pareça um hospital — ela explicou a um dos mestres de obra, gesticulando com a mão. — Quero que as pessoas se sintam seguras, não intimidadas.
Apesar da euforia, surgiram os primeiros desafios práticos. A instalação de um refrigerador industrial para o estoque de alimentos para as aulas práticas e a necessidade de reforçar a segurança do painel elétrico exigiram que Merliah usasse os contatos de seu pai para agilizar a papelada e a entrega de materiais de primeira linha, algo que uma nutricionista comum jamais conseguiria. Ela sentiu o peso do sobrenome, percebendo que a influência do pai, que ela tanto detestava, era paradoxalmente o que estava construindo seu sonho.
O consultório de Merliah estava sendo projetado para ter:
Uma Sala de Atendimento Individual com balança de bioimpedância.
Um Espaço de Educação para aulas em grupo onde ela faria o projeto social.
Uma pequena Cozinha Didática para ensinar preparações saudáveis.
Enquanto a poeira baixava e as paredes ganhavam cor, Merliah conseguia, por algumas horas por dia, se sentir livre. Livre da Rocinha , livre da herança, e, principalmente, livre da memória obsessiva do beijo de Miguel. Seu futuro profissional era limpo, e ela se agarrava a isso como a um escudo.
No final da primeira semana, a reforma estava adiantada, e o consultório já parecia ter vida. Merliah sabia que o período de tranquilidade não duraria. Em breve, a segurança seria reforçada, e Miguel inevitavelmente apareceria para exercer seu papel de "supervisor logístico".
Na manhã seguinte, Merliah estava no escritório de Jhonny, que agora parecia ter se esquecido do drama de seu beijo proibido. Ele estava no modo "empresário orgulhoso".
— Você fez um bom plano, princesa — Jhonny disse, deslizando um mapa da Rocinha pela mesa. — Você vai ter o melhor consultório da Zona Norte. E eu vou bancar tudo. Cada centavo.
Para Jhonny, financiar o projeto de Nutrição não era um custo, mas um investimento na imagem e na lealdade da comunidade.
— Eu quero algo central, pai. Acessível a todos, perto da área de comércio — Merliah apontou no mapa para um ponto estratégico.
Jhonny sorriu, entendendo a estratégia dela.
— Perfeito. Eu tenho um imóvel que está de aluguel há meses. É grande. Você pode ter seu consultório, salas de espera... o que quiser.
Merliah acompanhou o pai em um carro blindado até o local. A loja era antiga, com fachada de azulejos desbotados e o interior escuro, mas o potencial era inegável. Era um espaço amplo, com janelas grandes e uma localização de esquina, exatamente como ela queria.
Jhonny abriu a porta com uma chave mestra.
— Gostou? O espaço é seu. Você escolhe a planta, as cores, os móveis. O dinheiro não é problema.
Merliah m*l podia respirar. Ali, naquele espaço caindo aos pedaços, ela via seu sonho tomando forma. Um lugar onde ela poderia, de fato, ser a Doutora Merliah.
— Eu amei! É perfeito, pai! — Merliah exclamou, eufórica, rodando no meio do salão vazio. Ela sabia que aquele presente vinha com o preço de seis meses de servidão, mas a chance de ter seu próprio negócio era irresistível.
Jhonny a observava, satisfeito com a reação da filha.
— Ótimo. Vou acionar a equipe de reforma. E, claro, você precisará de segurança durante a obra. Não quero que ninguém pense que pode roubar o equipamento da minha filha.
Merliah sentiu a euforia esvair-se. Ela já sabia quem seria o responsável por essa "segurança".
— Eu dou a você o espaço, Merliah. Você me dá a tranquilidade de saber que você e seu negócio estão protegidos. Eu confio em Miguel para cuidar da logística e da segurança na área. Ele é o mais eficiente.
A euforia deu lugar a uma onda de pânico e frustração. Merliah havia ganhado a batalha pelo consultório, mas Jhonny havia garantido que a tensão com Miguel seria uma constante em sua vida.
— Tudo bem, pai — Merliah conseguiu dizer, engolindo em seco. — Mas o foco dele é a segurança, e o meu é o consultório.
Jhonny apenas sorriu. — Claro, princesa. Cada um no seu quadrado.