Pré-visualização gratuita Capítulo 1 – A casa silenciosa
GAEL
Gael sempre acreditou que o silêncio era um aliado.
Durante anos, ele foi o som mais constante da sua vida.
O silêncio do escritório no último andar do prédio de vidro que levava seu sobrenome. O silêncio do carro de luxo percorrendo ruas que ele m*l enxergava, sempre atento ao celular, aos relatórios, às decisões que movimentavam milhões. O silêncio da casa grande demais para duas pessoas — e depois, grande demais para apenas uma.
Naquela manhã, porém, o silêncio parecia diferente.
Gael parou no alto da escada de mármore e observou a casa como se a estivesse vendo pela primeira vez. A luz entrava pelas janelas amplas da sala, desenhando sombras suaves nos móveis claros. Tudo estava exatamente onde deveria estar. Impecável. Organizado. Frio.
— Bom dia, papai.
A voz pequena quebrou o silêncio com delicadeza.
Gael virou-se imediatamente, o rosto sério se transformando no mesmo instante. Miguel estava no último degrau, o cabelo castanho despenteado e o ursinho de pelúcia preso contra o peito como um escudo.
— Bom dia, campeão — respondeu, abaixando-se para ficar na altura do filho.
Miguel sorriu, um sorriso tímido, daqueles que ainda guardavam uma pontinha de saudade.
— Você sonhou hoje?
Gael assentiu.
— Sonhei que você ia querer panqueca no café da manhã.
Os olhos de Miguel brilharam.
— Com chocolate?
— Sempre.
A cozinha era o lugar menos silencioso da casa, ainda que o som se resumisse ao barulho suave da frigideira, ao estalar discreto da massa e às conversas simples entre pai e filho. Miguel se sentava à bancada, balançando as pernas, contando histórias desconexas sobre a escola, sobre um desenho que havia visto, sobre um colega que tinha dito algo engraçado.
Gael escutava tudo.
Ele sempre escutava.
Depois da morte de Helena, aprendera que ouvir Miguel era a forma mais segura de se manter de pé. O garoto era sua âncora. Seu motivo. Seu lembrete diário de que, apesar da dor, a vida ainda insistia em continuar.
— Papai — Miguel chamou, mordendo a panqueca — por que a casa é tão grande?
Gael parou por um segundo.
— Porque… — pensou rápido — porque foi construída para guardar muitas histórias.
Miguel franziu a testa.
— Mas agora ela só guarda a gente.
A frase atingiu Gael com uma precisão c***l.
Ele respirou fundo, apoiando as mãos na bancada.
— Às vezes, campeão, as casas ficam grandes demais. E isso não é culpa de quem mora nelas.
Miguel assentiu, mesmo sem entender completamente.
— Eu acho ela muito silenciosa — completou.
Gael não respondeu.
Porque ele achava o mesmo.
Depois de deixar Miguel na escola, Gael voltou para a mansão sentindo o peso da decisão que vinha evitando há meses. A recomendação vinha de todos os lados: da terapeuta do filho, da governanta, até de sua própria irmã.
Ele precisava de ajuda.
Não porque fosse incapaz de cuidar de Miguel — jamais permitiria que alguém pensasse isso —, mas porque havia coisas que ele não conseguia oferecer. Não sem se despedaçar no processo.
Chegou em casa e encontrou a governanta, Dona Lúcia, organizando flores na sala.
— Senhor Gael — ela disse, gentil — recebi mais alguns currículos hoje.
Ele suspirou.
— Deixe sobre a mesa do escritório.
— O senhor vai mesmo entrevistar alguém?
Gael assentiu.
— Miguel precisa de alguém que esteja aqui quando eu não puder.
Dona Lúcia sorriu, compreensiva.
— E o senhor também.
Ele não respondeu.
O escritório de Gael ficava no fundo da casa, longe dos quartos, como se ele tivesse, inconscientemente, separado trabalho e memórias. Sobre a mesa, uma pilha organizada de currículos o aguardava.
Ele sentou-se, afrouxou a gravata e começou a folhear os papéis sem muita expectativa.
Nomes. Idades. Experiências.
Até que um currículo chamou sua atenção.
Marina Duarte.
Não havia nada de extraordinário ali. Formação simples, experiência como cuidadora infantil, boas recomendações. O que o fez parar foi a pequena anotação escrita à mão no canto da folha: *“Acredito que cuidar é, antes de tudo, criar um lugar seguro.”*
Gael releu a frase duas vezes.
Lugar seguro.
Ele pensou em Miguel, no jeito como o filho se encolhia quando a saudade apertava. Pensou no silêncio da casa. Pensou em como tudo parecia grande demais, vazio demais.
Pegou o telefone.
— Dona Lúcia — chamou.
— Sim, senhor?
— Marque uma entrevista para amanhã. Com Marina.
Do outro lado da cidade, Marina segurava o celular com as mãos trêmulas.
— Claro, amanhã estarei aí — respondeu, tentando manter a voz firme.
Assim que desligou, sentou-se no sofá pequeno do apartamento e respirou fundo.
Ela não sabia exatamente por quê, mas algo naquela oportunidade parecia diferente.
E, naquele mesmo instante, sem que nenhum deles pudesse imaginar, o silêncio da casa de Gael estava prestes a mudar.
Porque o amor, mesmo quando chega devagar, nunca chega sozinho.
Ele vem com alguém.
E, às vezes, muda tudo.
[...]
Marina
Marina chegou dez minutos antes do horário marcado.
Ela sempre chegava.
Parou em frente ao portão alto da propriedade e respirou fundo, segurando a alça da bolsa com força suficiente para os nós dos dedos ficarem claros. A casa era maior do que ela havia imaginado — não de um jeito ostentoso, mas imponente, silenciosa, como se observasse quem ousasse atravessar seus limites.
— É só uma entrevista — murmurou para si mesma.
Ainda assim, o coração batia rápido.
Quando o portão se abriu, Marina sentiu um leve arrepio. O jardim bem cuidado, as árvores altas, o caminho de pedras claras… tudo parecia bonito demais para alguém como ela. Ajustou o vestido simples, passou a mão nos cabelos presos em um coque baixo e seguiu.
Dona Lúcia a recebeu com um sorriso acolhedor.
— Você deve ser a Marina.
— Sou sim, senhora.
— Pode me chamar de Dona Lúcia. O senhor Gael já vai recebê-la.
Enquanto atravessava o hall de entrada, Marina notou os detalhes: fotos discretas nas paredes, móveis claros, um cheiro suave de café. Não era uma casa fria. Era uma casa quieta.
Gael estava no escritório quando Marina entrou.
Ele se levantou imediatamente.
— Marina, certo?
— Sim — ela respondeu, estendendo a mão.
O aperto foi breve, respeitoso. Gael a observou com atenção silenciosa. Ela não parecia nervosa demais, nem confiante demais. Havia algo tranquilo em seus olhos.
— Obrigado por ter vindo — disse ele. — Pode se sentar.
Marina sentou-se na cadeira à frente da mesa, mantendo a postura ereta.
— Eu li seu currículo — Gael começou. — Suas referências são boas.
— Eu gosto do que faço — ela respondeu. — Cuidar não é só um trabalho pra mim.
Ele se lembrou da frase escrita à mão.
— Você escreveu que acredita que cuidar é criar um lugar seguro.
Marina sorriu de leve.
— Sim. Crianças precisam sentir que pertencem a algum lugar.
Gael sentiu algo apertar em seu peito.
— Miguel tem sete anos — explicou. — Ele é… sensível.
— Crianças sensíveis costumam ser muito observadoras — ela disse. — E muito carinhosas, quando se sentem seguras.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável.
Foi interrompido por passos leves no corredor.
— Papai?
Miguel apareceu à porta, segurando o mesmo ursinho de pelúcia.
Gael se levantou de imediato.
— Campeão, essa é a Marina.
Miguel olhou para ela com curiosidade.
Marina se abaixou, ficando na altura dele.
— Oi, Miguel. Seu ursinho é muito bonito.
Miguel apertou o brinquedo contra o peito.
— Ele chama Tobias.
— Um nome importante — ela disse, sorrindo. — Ele cuida bem de você?
Miguel assentiu.
— Sempre.
Gael observava a cena com atenção.
— Você gosta de desenhar? — Marina perguntou.
— Gosto.
— Depois você pode me mostrar.
Miguel sorriu, tímido.
— Papai, ela pode ficar?
A pergunta veio simples, direta.
Gael engoliu em seco.
— Vamos conversar, campeão.
Miguel assentiu e saiu, lançando um último olhar curioso para Marina.
Ela se levantou devagar.
— Desculpa se fui muito direta.
— Não — Gael respondeu. — Foi… natural.
Ele respirou fundo.
— Marina, eu não procuro apenas alguém para cuidar do meu filho. Procuro alguém que respeite o que somos.
— Eu entendo — ela disse, com firmeza. — Não quero ocupar um lugar que não é meu. Só quero ajudar a cuidar.
Gael assentiu.
— Você pode começar amanhã?
Os olhos de Marina se encheram de surpresa.
— Posso.
— Então seja bem-vinda.
Ela sorriu.
E, naquele instante, sem que nenhum deles dissesse em voz alta, algo começou a mudar.
A casa já não parecia tão silenciosa.
Porque o amor, quando chega, costuma começar assim.
Devagar.
E sempre com alguém.