Capítulo 2 - primeiro dia

777 Palavras
Marina Marina acordou antes do despertador tocar. Ficou alguns segundos olhando para o teto do pequeno apartamento, tentando organizar os pensamentos enquanto o coração batia mais rápido do que deveria. Não era ansiedade r**m — era aquela mistura estranha de expectativa, responsabilidade e algo que ela ainda não sabia nomear. Era apenas o primeiro dia. Ainda assim, parecia mais do que isso. Levantou-se com cuidado, tomou um banho demorado e escolheu a roupa com atenção. Um vestido simples, confortável, nada chamativo. Prendeu o cabelo em um coque baixo, passou um pouco de hidratante nos lábios e respirou fundo diante do espelho. — É só cuidar de uma criança — disse para si mesma. Mas sabia que não era só isso. Quando chegou à casa de Gael, o céu ainda estava nublado, e o portão se abriu com o mesmo silêncio solene do dia anterior. Marina entrou sentindo-se pequena diante da construção imponente, mas, curiosamente, menos deslocada. Dona Lúcia a recebeu na porta da cozinha. — Bom dia, querida. Chegou cedo. — Gosto de chegar — Marina respondeu com um sorriso. — O senhor Gael já saiu para caminhar com o Miguel. Eles devem voltar a qualquer momento. Marina assentiu e deixou a bolsa sobre a cadeira, observando o ambiente com mais calma. A cozinha tinha vida própria. Não era luxuosa demais, mas organizada, clara, acolhedora. Um lugar onde histórias poderiam acontecer. — Quer um café? — Dona Lúcia ofereceu. — Aceito, sim. Obrigada. Enquanto esperava, Marina ouviu vozes no jardim. — Marina! Miguel entrou correndo, o ursinho Tobias preso sob o braço, o rosto iluminado por um sorriso aberto. — Você voltou! Marina se abaixou automaticamente. — Eu prometi. Miguel aproximou-se mais um pouco, como se precisasse confirmar que ela era real. — Papai disse que você ia cuidar de mim. — Vou ficar com você quando ele estiver trabalhando — explicou. — E fazer companhia também. Miguel pensou por um instante. — Tobias gosta de companhia. — Então já somos três — Marina respondeu, fazendo-o sorrir. Gael entrou logo atrás do filho, vestindo roupas simples de caminhada. Parou por um segundo ao ver a cena. Marina ali. Miguel sorrindo. A cozinha viva. — Bom dia — ele disse, a voz firme, mas mais suave do que no dia anterior. — Bom dia — Marina respondeu, levantando-se. Houve um breve silêncio. — Obrigada por chegar cedo — Gael acrescentou. — Gosto de começar o dia com calma. Ele assentiu. — Miguel precisa ir para a escola em quarenta minutos. — Dá tempo — ela respondeu com segurança. — Posso preparar o café dele? Gael hesitou apenas um segundo. — Claro. Marina seguiu para a bancada, e Miguel a acompanhou como uma sombra falante. Falou sobre a escola, sobre uma apresentação que teria em breve, sobre como a professora gostava quando ele desenhava casas. — Casas? — Marina perguntou. — É — ele respondeu. — Eu sempre desenho casas. — Por quê? Miguel deu de ombros. — Porque gosto de saber onde as pessoas moram. A resposta ficou ecoando na mente de Marina. Depois que Miguel saiu para a escola com o motorista, a casa pareceu pausar. Gael serviu café para os dois e sentou-se à mesa, mantendo uma distância respeitosa. — Quero conversar sobre a rotina — ele disse. — Claro. — Miguel é sensível a mudanças. Ele precisa de previsibilidade. — Crianças gostam de se sentir seguras — Marina respondeu. — Rotina ajuda nisso. Gael observou-a por alguns segundos. — Quero deixar claro que esta casa tem limites — disse. — Não espero que você… ultrapasse seu papel. Marina sustentou o olhar. — Meu papel é cuidar do Miguel — respondeu com firmeza. — E respeitar a história de vocês. Algo no peito de Gael se contraiu. O restante da manhã foi dedicado a pequenos detalhes. Marina conheceu o quarto de Miguel, organizou brinquedos, separou materiais escolares. Tudo com cuidado, sem mudar nada que parecesse importante demais. Ela percebeu fotos antigas, guardadas com discrição. Uma mulher sorridente, Miguel menor, Gael diferente — mais leve. Não perguntou. Quando Miguel voltou da escola, correu direto para Marina. — Você ficou! — Fiquei. Ele a abraçou com força, sem pedir permissão. Marina retribuiu com cuidado, sentindo algo apertar no peito. Gael assistiu à cena do alto da escada. Naquela noite, depois que Miguel dormiu, Gael caminhou pela casa. Havia brinquedos fora do lugar. Uma luz acesa na cozinha. Um cheiro leve de comida caseira. A casa não estava silenciosa. E isso o assustou. Porque, pela primeira vez em muito tempo, o silêncio não parecia mais uma escolha. Parecia solidão. E ele não tinha certeza se queria continuar vivendo assim.
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