Gael
A mudança não aconteceu de uma vez.
Não houve um momento exato em que Gael pudesse apontar e dizer: foi aqui. Ela veio em partes pequenas demais para assustar, sutis demais para serem evitadas.
Veio no riso de Miguel ecoando pela casa numa tarde qualquer.
Veio no som de passos apressados pelo corredor.
Veio no cheiro de bolo simples assando na cozinha em uma quarta-feira comum.
Gael percebeu isso numa manhã em que desceu as escadas distraído, já falando ao telefone, e precisou parar no último degrau.
Miguel estava sentado no chão da sala, cercado de lápis de cor e folhas espalhadas. Marina estava ao lado dele, as pernas dobradas de forma descontraída, o cabelo preso de qualquer jeito, completamente alheia à presença dele.
— E aqui vai ser o quarto — Miguel dizia, apontando para o desenho.
— Hm… e esse espaço grande aqui? — Marina perguntou.
— É a sala — ele respondeu. — Pra assistir filme.
— Boa escolha.
— Papai gosta de filme — Miguel completou.
Marina sorriu.
— Então é uma sala importante.
Gael ficou ali por alguns segundos, apenas observando.
— Bom dia — disse, enfim.
Miguel se virou imediatamente.
— Papai! Olha meu desenho!
Gael se aproximou e se agachou ao lado do filho.
— É uma casa?
— É a nossa casa.
Gael sentiu algo apertar no peito.
— Quem são essas pessoas? — perguntou, mesmo já sabendo.
Miguel apontou.
— Eu… você… — fez uma pausa, olhando para Marina — e a Marina.
O silêncio que se seguiu foi breve, mas intenso.
Marina levantou-se com cuidado.
— Eu posso guardar os lápis — disse, oferecendo uma saída discreta.
— Não precisa — Gael respondeu antes de pensar.
Ela o olhou, surpresa.
— Miguel — Gael disse, escolhendo as palavras — você pode guardar o desenho no seu quarto.
Miguel sorriu satisfeito.
— Vou colocar na parede.
Quando o menino saiu, Marina permaneceu em silêncio.
— Ele se apega rápido — ela disse, por fim.
— Ele perdeu cedo — Gael respondeu.
Ela assentiu.
— Eu sei.
Não houve mais explicações.
Os dias seguintes se organizaram sozinhos.
Miguel passou a esperar Marina para contar como tinha sido a escola. Passou a pedir ajuda para tarefas simples que antes ignorava. Pedia histórias à noite — sempre as mesmas, sempre com pequenas variações.
— Hoje pode ser com final feliz? — ele perguntava.
— Sempre — Marina respondia.
Gael assistia de longe, dividido entre o alívio e o medo.
Alívio por ver o filho mais leve.
Medo por perceber o quanto aquilo lhe fazia bem.
Numa tarde chuvosa, Miguel pediu para fazer um bolo.
— Igual aquele que você fez — disse, olhando para Marina.
Ela riu.
— Acho que dá pra tentar.
A cozinha virou território compartilhado. Farinha nas mãos, risadas, música baixa tocando no rádio antigo que ninguém usava há anos.
Gael entrou no meio da bagunça.
— O que está acontecendo aqui?
— Missão importante — Miguel respondeu. — Bolo de chuva.
Gael arqueou uma sobrancelha.
— Isso existe?
— Agora existe — Marina respondeu, sorrindo.
Ela parecia… em casa.
Isso o desarmou.
Naquela noite, depois que Miguel dormiu, Gael encontrou Marina recolhendo as últimas coisas da cozinha.
— Você não precisa fazer tudo — ele disse.
— Eu sei — ela respondeu. — Mas gosto.
Houve um silêncio confortável.
— Ele fala da mãe? — Marina perguntou, com cuidado.
Gael respirou fundo.
— Às vezes.
— E você?
Ele demorou a responder.
— Eu penso nela todos os dias.
Marina assentiu.
— Amar de novo não apaga o que veio antes.
Gael a olhou com atenção.
— Você fala como se tivesse certeza.
— Eu falo como quem respeita — ela respondeu.
Naquela noite, Gael demorou a dormir.
A casa estava diferente.
Não mais silenciosa.
Aos poucos, ela começava a sorrir.
E, pela primeira vez em muito tempo, ele não sentiu vontade de fechar os olhos para isso.