Isabella
Eu acordei com duas certezas e uma raiva.
A primeira certeza: eu estava na cama do Ethan Hale.
A segunda: eu tinha cedido.
A raiva… era por eu estar respirando melhor do que respirava há semanas.
A luz da manhã entrava pelas frestas da cortina como uma língua de ouro impertinente, iluminando o absurdo da cena: eu, enroscada no lençol dele, com a cabeça no travesseiro dele, e o cheiro dele impregnado em tudo como uma assinatura. Um perfume limpo, caro, e perigosamente familiar como se o quarto inteiro tivesse sido feito para dizer meu sem abrir a boca.
Ethan estava ao meu lado. Não colado. Não invadindo. Mas perto o suficiente para o corpo dele aquecer o ar entre nós.
Eu virei a cabeça devagar e vi o rosto dele sem a armadura completa: a sombra de barba que ele sempre parece recusar admitir, a boca relaxada (o que era uma ofensa pessoal, considerando o estrago que aquela boca fazia em mim), e uma expressão… quieta. Humana. Como se o mundo não estivesse tentando enforcá-lo desde sempre.
Ridículo.
Eu devia levantar e ir embora com dignidade.
Só que, quando tentei, meu pulso reclamou sob a faixa. E, pior: minha memória resolveu me trair com imagens da noite anterior.
A mão dele tocando a minha no escuro. O jeito como ele respirou quando eu não soltei. O olhar dele, pesado, perguntando sem palavras se era escolha — e não ordem.
E eu lembrava da minha própria voz, baixa e firme:
Sem contrato na cama.
Ele tinha aceitado.
O que não significava que eu tinha saído ilesa.
Eu sentei na cama, puxando o lençol para me cobrir mais do que precisava, porque meu orgulho acordou antes do meu bom senso. Meu corpo, por outro lado… meu corpo parecia satisfeito demais com a vida. Traidor.
Olhei para Ethan outra vez, só para confirmar se ele ainda era um problema.
Ele mexeu o rosto no travesseiro, como se sentisse meu olhar. Os olhos abriram devagar, escuros, e me encontraram como se já estivessem me procurando antes mesmo de acordar.
— Você tá encarando como se eu tivesse cometido um crime — ele murmurou, a voz rouca de sono, indecente.
Eu cruzei os braços.
— Talvez você tenha.
Um canto da boca dele ameaçou subir. Aquele micro-sorriso que parecia raro e, por isso, irritante.
— Você tá brava.
— Eu tô lúcida.
— A lucidez costuma vir com café.
— Eu não tomo café com homens que trancam portas.
Ele não se levantou de uma vez. Ficou ali, apoiado num cotovelo, me observando como se eu fosse um relatório que ele não conseguia concluir. O olhar dele desceu rápido — não de um jeito vulgar, mas atento, como se checasse se eu estava bem. E eu odiei que isso me atingisse.
— Você dormiu — ele disse, simples. Como se fosse vitória.
— Não se empolga — eu rebati. — Meu corpo apagou de exaustão. Não é romantização.
Ele soltou um som baixo, quase uma risada, e isso me pegou desprevenida. Ethan Hale rindo era um evento apocalíptico.
— Você tem uma cláusula para tudo, Isabella.
— Claro. — Eu apontei para o travesseiro dele. — Cláusula número um: não seja bonito antes do café. É desleal.
Ele arqueou a sobrancelha, e por um segundo o quarto inteiro pareceu menos prisão e mais… perigo gostoso.
— Eu não tenho culpa.
— Tem sim. — Minha voz saiu mais leve do que eu queria. — Você nasceu culpado.
O sorriso dele sumiu no mesmo instante em que a realidade voltou, como se alguém tivesse puxado o freio.
— Eu mandei retirar as câmeras deste andar — ele disse, como quem entrega uma moeda rara. — Do corredor. Da área do seu quarto. E deste.
Eu congelei.
— Você… o quê?
— Retirei. — Ele sustentou meu olhar. — Você pediu escolha. Pediu privacidade. Aqui você tem.
Meu estômago apertou, porque isso era grande. Não era só segurança. Era concessão.
— E o que você ganha com isso? — eu perguntei, desconfiada.
— Menos motivos pra você me odiar — ele respondeu, baixo.
Eu ri, sem humor.
— Tarde demais.
Ele sentou na cama também, ficando perto o suficiente para eu sentir o calor dele sem encostar. E, mesmo assim, parecia encostar.
— Eu sei que você encontrou coisas — ele disse.
Meu sangue gelou.
Eu mantive o rosto impassível. Meu coração, porém, começou a bater como se tivesse um alarme próprio.
— Eu não sei do que você está falando.
Ele me encarou por um segundo longo, e eu vi a guerra interna dele: perguntar e arriscar ouvir uma resposta que ele não queria… ou controlar e fingir que não dói.
— Certo — ele disse por fim. Só isso. Um “certo” que parecia um acordo temporário.
Eu levantei da cama antes que minha cara me traísse. Caminhei até o banheiro dele — o banheiro dele, enorme, impecável — e fechei a porta com mais força do que precisava.
Encostei as mãos na pia e respirei.
O pen drive.
Eu escondi no lugar mais óbvio e, por isso, mais seguro: dentro do forro falso da minha necessaire de maquiagem. Quem ia revirar rímel e corretivo num império de terno e números?
Ethan podia ser um predador, mas eu duvidava que ele soubesse diferenciar um blush de um extintor de incêndio.
Lavei o rosto e encarei meu reflexo.
Havia uma marca na minha boca que não era visível, mas eu sentia. E havia outra marca, mais perigosa: aquela sensação de ter sido vista… de verdade. Não como peça. Não como esposa de contrato. Como mulher.
Isso me deixava furiosa. Porque ser vista dava vontade de ficar.
E ficar era a porta aberta para perder.
Saí do banheiro e encontrei Ethan em pé, já vestindo a camisa com movimentos eficientes. Ele parecia voltar ao modo CEO a cada botão fechado, como se a pele dele também tivesse cláusulas.
— Eu vou ter reunião cedo — ele disse. — O conselho vai tentar me sangrar pelo acordo rompido.
— Coitado do conselho — eu respondi, seca. — Eles vão descobrir que você sangra?
Ele me olhou, e eu senti o ar mudar. A coragem dele era silenciosa, mas o perigo era real.
— Você acha que eu sou de pedra.
— Você faz questão.
Ele deu um passo. Só um.
— Ontem você pediu uma noite sem contrato.
Meu pulso latejou, como se meu corpo lembrasse antes da minha cabeça.
— E eu cumpri — eu disse, firme, segurando o lençol como se fosse armadura.
O olhar dele desceu para minha boca. Subiu para meus olhos.
— Eu também cumpri.
Silêncio.
Do lado de fora, um toque discreto na porta — três batidas, intervalo calculado.
Mason.
Ethan virou o rosto, a máscara voltando.
— Entra.
Mason apareceu só o suficiente para manter o profissionalismo intacto.
— Senhor, movimento estranho no estacionamento inferior. Pode ser tentativa de fotografia. Já contido.
Ethan ficou rígido.
— Redobra o perímetro. E ninguém sobe.
— Sim, senhor.
Quando Mason sumiu, Ethan voltou o olhar para mim, e eu senti a cerca aproximar sem ele dizer nada.
— É por isso — ele falou, baixo. — Por isso eu tranco. Por isso eu prendo.
Eu respirei fundo.
— E é por isso que eu exijo regras — eu devolvi. — As minhas. Não só as suas.
Ele ficou me encarando como se eu fosse uma equação impossível.
Aí, sem aviso, ele se aproximou e tocou meu pulso enfaixado com cuidado — um toque que não era posse, era checagem. Quase ternura. Quase.
— Não some de mim hoje — ele disse, a voz baixa, controlada demais para não ser medo.
Eu engoli seco, odiando o quanto aquilo me mexeu.
— Eu não sou sua propriedade.
— Eu sei — ele respondeu. E a forma como ele disse eu sei foi pior do que qualquer “sim, você é”.
Porque soou como alguém que está tentando aprender um idioma novo… no meio de uma guerra.
Quando ele saiu, o quarto ficou grande demais de novo.
Eu fiquei parada por alguns segundos, ouvindo minha própria respiração, sentindo o cheiro dele nas paredes, e percebendo a parte mais perigosa dessa rotina:
A proximidade não era conforto.
Era vício.
E eu ainda tinha um pen drive escondido, uma verdade entalada na garganta… e uma mensagem anônima que parecia pulsar no meu bolso como um aviso.
Escolha um lado.
Eu já estava com um pé dentro da casa dele.
O problema é que, no escuro, a pele também assina contratos.