Capítulo 22 — A Noite Sem Testemunhas

1596 Palavras
Ethan Eu destranquei a porta para provar que eu não estava tentando possuir. E, mesmo assim, quando Isabella olhou para o corredor e decidiu ficar, eu senti como se tivesse trancado o mundo inteiro do lado de fora. Ela não disse nada. Só permaneceu ali, a respiração alta, o pulso enfaixado como um lembrete silencioso de que eu falhei em protegê-la antes. A boca dela ainda tinha a marca do beijo não a marca física, mas aquela sombra quente de algo que não deveria existir entre nós. O tipo de coisa que derruba homens muito mais rápido do que inimigos. Eu segurei a maçaneta por um segundo a mais do que precisava. Controle. Controle. — Eu vou garantir que ninguém chega perto de você esta noite — eu disse, num tom que queria ser neutro e saiu… carregado. Isabella sustentou meu olhar como se eu fosse um contrato que ela estava aprendendo a ler nas entrelinhas. — Você garante com cerca… ou com verdade? — ela perguntou, baixa. A pergunta tinha lâmina. E eu mereci o corte. Eu não respondi de imediato. Porque a verdade era uma coisa grande demais para caber em frases bonitas. A verdade, na minha vida, tinha nomes, datas, assinaturas e cadáveres. Passei por ela e fui até o telefone interno do quarto. Disquei um número que só existia para emergências. — Mason — eu disse quando ele atendeu, sem formalidade. — Protocolo vermelho discreto. Dois homens no corredor leste. Um na porta de serviço. Ninguém do staff circula neste andar sem você saber. E bloqueia o elevador principal. Só o de serviço, com autenticação dupla. Do outro lado, silêncio de confirmação. — Entendido. — E quero checagem de sinal no perímetro — completei. — Donovan estava confiante demais hoje. Isso me irrita. — Já acionando. Desliguei e, quando virei, Isabella estava encostada na parede, braços cruzados, tentando parecer calma. Ela não estava. A coragem dela era real e cansativa. Eu conseguia ver pelo jeito como ela apoiava o peso numa perna só, como se o corpo estivesse pedindo trégua. E eu queria dar essa trégua. Só que eu não sabia fazer isso sem controlar. — Você pode dormir aqui — eu disse. — Sem câmeras. Sem staff. Sem corredor. Só aqui. — No seu quarto — ela observou, e a ironia veio como escudo. — Conveniente. Eu dei um passo lento, mantendo a distância que a regra dela exigia. A regra dela… que eu ainda sentia na boca. — Não é conveniência. É vulnerabilidade — eu respondi, e a palavra saiu com um gosto amargo de coisa proibida. Ela piscou uma vez, surpresa. Eu não costumava admitir nada que me deixasse exposto. — Por que você tá fazendo isso, Ethan? — ela perguntou. Não com deboche, dessa vez. Com atenção. Com cuidado. E isso era pior. — Você rompeu um acordo… me puxou pra dentro… e agora age como se eu fosse uma bomba. Eu me aproximei mais um pouco, mas parei antes de invadir. O cheiro dela ainda estava no ar — um perfume discreto, pele e coragem, algo que não pertencia a esse mundo de vidro. Eu odiei o quanto aquilo me desarmava. — Porque você é uma bomba — eu disse, sem sorrir. — E porque Donovan quer acender o pavio. Isabella ficou imóvel. Eu vi a garganta dela se mover, engolindo medo que ela não queria sentir. — Ele quer me atingir através de você — ela sussurrou. — Não. — Minha voz endureceu. — Ele quer me quebrar por sua causa. Tem diferença. Ela franziu a testa. — Eu não entendo. Eu respirei fundo, sentindo o velho impulso de fechar tudo, de esconder, de mentir por omissão. A mesma estratégia que mantém impérios em pé… e corações em ruína. Mas ela tinha exigido escolha. E verdade. — Donovan Pierce não quer só dinheiro — eu disse, devagar. — Ele quer me ver perder a cabeça. Quer provar para o conselho que eu sou instável. Quer que eu vire manchete de novo. Quer que eu pareça… meu pai. A última palavra saiu baixa. Dura. O silêncio no quarto ficou espesso. Isabella deu um passo, quase involuntário, e parou. Os olhos dela perderam a raiva por um segundo e ficaram só… atentos. — Seu pai… — ela começou. — Morreu com a imprensa no pescoço e uma traição nas costas — eu cortei, rápido demais. Controle voltando com as garras. — E Donovan estava perto o suficiente para lucrar com o caos. Eu vi a expressão dela mudar, como se ela juntasse peças. A sala trancada. As cartas. As manchetes. — Então por isso você guarda tudo como um cofre — ela murmurou. — Eu guardo porque eu aprendi que, quando você perde o controle por um segundo, alguém usa esse segundo para te destruir — eu respondi. Isabella respirou fundo, e eu vi que ela queria discutir. Queria arrancar mais. Queria me desafiar. Mas a noite, pela primeira vez, parecia estar puxando a força dela para baixo. — Eu não sou seu pai — ela disse, firme. — Nem o seu conselho. Nem o seu rival. Eu sou… Ela parou, como se a próxima palavra fosse perigosa. Eu senti vontade de completar por ela. Você é minha. A frase antiga, possessiva, fácil. Eu não disse. — Você é a pessoa que Donovan escolheu para me testar — eu finalizei, frio, porque frieza era o que eu sabia oferecer sem sangrar. Mas o olhar dela cortou a minha máscara como se fosse vidro. — E o que você escolhe, Ethan? A pergunta ficou entre nós como um fio esticado. Eu pensei em cem respostas racionais: segurança, estratégia, controle, cerca. Só que o que eu escolhi hoje, no salão, não foi racional. Eu escolhi ela. — Eu escolho que você passe esta noite sem medo — eu disse, finalmente. — Mesmo que eu tenha que ficar acordado pra isso. Ela soltou um ar que parecia meio riso, meio exaustão. — Você não sabe relaxar nem para salvar uma vida. — Eu sei salvar. Relaxar é outra coisa. Isabella hesitou, depois foi até a poltrona ao lado da cama e sentou devagar. O gesto simples me acertou no peito: ela estava aceitando a trégua. Aceitando ficar onde eu podia protegê-la. E isso me deu alívio… e me deu pânico. Eu tirei o paletó, afrouxei a gravata e mantive a camisa como uma armadura. Apaguei as luzes principais e deixei apenas o abajur, uma luz baixa que não permitia sombras grandes demais. — Você pode usar a cama — eu disse. — Eu fico no sofá. Ela me encarou. — Você acha que eu vou dormir se você ficar sentado feito sentinela? — Você não precisa achar. Você vai dormir. Ela revirou os olhos, mas não discutiu. Levantou, tirou os saltos, soltou o cabelo e entrou debaixo do lençol como quem não confia no próprio descanso. Eu me deitei no sofá, de lado, encarando o teto. A cidade piscava pelas frestas da cortina. O relógio marcava segundos como se fosse um juiz. Eu ouvi a respiração dela mudar aos poucos, ficar mais lenta, mais profunda. E eu pensei: perigo. Perigo não era Donovan. Perigo era o fato de eu sentir paz com ela no mesmo quarto. Paz era fraqueza. Fechei os olhos e, como sempre, o passado tentou me puxar: flashes, gritos, um corredor, o peso do sobrenome, a voz do conselho exigindo firmeza. A morte do meu pai como uma sombra permanente. Eu acordei de repente, com o peito apertado. Um pesadelo. Minha mão se fechou no vazio, procurando o que não estava ali. O instinto era ridículo como se meu corpo tivesse decidido que o único lugar seguro naquela noite era… ela. Eu me sentei devagar, respirando baixo, e olhei para a cama. Isabella estava encolhida, o rosto mais suave no sono, o pulso enfaixado apoiado no travesseiro. Ela parecia menos lâmina, mais carne. Mais humana. E eu, por um segundo, esqueci a regra. Me levantei. Caminhei até a cama sem fazer barulho. Não para tomar. Não para prender. Só para… garantir. Só para confirmar que ela estava ali. Eu estendi a mão, parei a um centímetro do lençol. A palavra dela voltou como uma placa luminosa: Sem jogos. Sem contrato. Na cama, escolha. Eu podia recuar. Eu devia. Mas a coragem dela me desarmava. O cheiro dela me desarmava. O fato de que alguém tentou encostar nela hoje… me desarmava. Minha mão tocou o lençol, leve, perto do pulso dela. Um toque mínimo, quase nada — e, ainda assim, meu coração bateu como se eu tivesse cometido um crime. Isabella se mexeu, sonolenta, e a mão dela deslizou, encontrando a minha no escuro. Os dedos dela se fecharam nos meus com uma firmeza silenciosa, como se o corpo dela tivesse escolhido por ela. Eu congelei. Ela não abriu os olhos. Só puxou minha mão um pouco, para perto do peito dela, e suspirou. E naquele instante, sem testemunhas, sem conselho, sem câmeras, eu senti a primeira coisa realmente perigosa: não vontade. Responsabilidade. Eu me deitei na beirada da cama, por cima do lençol, sem invadir, sem prender. Só perto. A mão dela ainda segurando a minha. Meu corpo inteiro atento, como se eu pudesse impedir o mundo de entrar só por estar ali. No escuro, eu sussurrei para mim mesmo — uma promessa que eu não deveria fazer: — Ninguém toca em você. Ninguém. E, pela primeira vez em anos, eu adormeci não porque eu tinha controle… Mas porque eu tinha ela.
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