Capítulo 21 — Tranca e Pulso

1755 Palavras
Isabella O clique da fechadura ainda ecoava no meu peito quando eu virei para ele. O quarto de Ethan era grande demais para parecer acolhedor. Parecia um território: tudo alinhado, cores sóbrias, cheiro de madeira cara e um perfume limpo que eu já tinha aprendido a associar a perigo. As cortinas deixavam passar um recorte da cidade lá embaixo luzes como brasas e, mesmo assim, eu me senti numa jaula. Eu dei dois passos até a porta e testei a maçaneta. Trancada. Meu sangue subiu como febre. — Abre. Agora. Atrás de mim, o silêncio dele veio pesado, controlado. Eu senti, antes de ouvir, a presença dele se aproximando — como se o ar mudasse de densidade quando ele decide ocupar um espaço. — Não. Uma palavra. E eu quis quebrar alguma coisa. Virei rápido, encarando aquele homem que parecia ter nascido com o direito de dizer “não” para o mundo inteiro. — Você enlouqueceu? — minha voz saiu baixa, mas cortante. — Você me tranca no seu quarto como se eu fosse… o quê? Um objeto que você guarda quando dá problema lá fora? Os olhos dele estavam escuros, e eu vi o que ele tentava esconder: algo que parecia raiva… mas não era só isso. Era medo. Um medo violento, envergonhado, travestido de controle. — Lá fora não foi “problema”, Isabella — ele disse, devagar. — Foi um ataque. — E você acha que a solução é me aprisionar? Ele deu um passo e ficou entre mim e a porta sem encostar em mim. Mesmo assim, parecia que encostava. A distância era pequena o suficiente para eu sentir o calor dele, o perfume, a respiração contida. — A solução é eu ter certeza de que ninguém entra aqui — ele respondeu. — Nem fotógrafo, nem conselheiro, nem Donovan, nem Valentina… nem a p***a do mundo inteiro. Eu ri, sem humor. — E eu? Eu entro nessa lista de “ninguém”? Porque parece que sim. Ele não desviou o olhar. — Você está tremendo. Meu orgulho reagiu como tapa. — Eu não. — Está, sim. — A voz dele ficou ainda mais baixa, mais perigosa, como se falar alto fosse perder o último fio de controle. — E não é de frio. Senti um rubor subir pelo meu pescoço, odiando a traição do meu próprio corpo. O pior era que ele tinha razão: meu pulso latejava, meu estômago estava em nó, e o impacto do que aconteceu minutos atrás não o beijo de mentira, mas a maneira como ele me olhou no salão, a decisão abrupta de me proteger havia deixado uma marca profunda em mim. — Você destruiu um acordo por minha causa — eu disse, tentando agarrar a raiva como escudo. — E agora tá compensando isso com poder. Quer que eu te agradeça? Os olhos dele estreitaram. — Eu não fiz aquilo por gratidão. Eu fiz porque eu quis. A frase caiu entre nós com um peso indecente. Eu engoli seco, e a sala pareceu ficar menor. — Você… quis — repeti, como se testasse o gosto. O maxilar de Ethan estava rígido, sem que ele sequer piscasse. A mão que havia usado para trancar a porta agora pendia ao lado do corpo, um esforço visível para evitar tocar em algo que pudesse se estilhaçar. — Você não entende o que Donovan faz quando encontra uma brecha — ele disse. — Ele não quer só dinheiro. Ele quer espetáculo. Quer humilhação. Quer ver eu reagir como hoje. — Então eu sou seu ponto fraco? — eu provoquei, mas a pergunta veio com um medo real por baixo. Por um segundo, a máscara dele vacilou. E foi aí que eu vi a rachadura. — Você é um alvo — ele respondeu, como se cada palavra fosse arrancada. — E eu… não aceito. Não aceito que toquem. Que sujem. Que levem. Eu li tudo sem ele dizer. E aquilo me deu raiva e um tipo de vertigem. — Você não aceita… ou você não suporta perder controle? — eu avancei um passo também, sem perceber. — Porque tem diferença, Ethan. A aproximação se intensificou, tornando-se física. Meu peito roçava o dele, e a tensão no ar era palpável, como a eletricidade que antecede um trovão. Seus olhos desviaram para minha boca um movimento rápido e instintivo e senti meu corpo reagir. No entanto, agora eu não estava apenas sendo atraída; eu estava escolhendo permanecer ali. — Abre a porta — eu sussurrei, mas minha voz não tinha a força de uma ordem. Tinha a fragilidade de um pedido. Ele não se moveu. — Se eu abrir, você vai sair e ele vai te encontrar de novo. — Você não sabe disso. — Eu sei o suficiente — ele disse, e a voz dele arranhou. — Eu sei o que eu vi no seu rosto quando aquele homem falou com você. Eu sei o que eu senti quando Donovan te olhou como se você fosse só uma peça. Ele respirou fundo, como se estivesse prestes a perder a compostura, e eu vi a mão dele subir, parar no meio do caminho… e desistir, como se tocar em mim fosse cruzar um limite que ele ainda tentava respeitar. Aquilo me atingiu de um jeito perigoso. Porque Ethan Hale, o homem que manda, estava hesitando. — Então qual é a sua ideia? — eu perguntei, a garganta apertada. — Me deixar aqui até eu aceitar tudo? — Não — ele respondeu, e a palavra saiu mais humana do que ele queria. — Minha ideia é… você respirar. Eu soltei uma risada curta, tremida. — Eu consigo respirar sem você trancar portas. — Consegue? — ele devolveu, e os olhos dele escureceram de um jeito que me queimou por dentro. — Porque eu vi você no corredor do hospital. Eu vi seu pulso sangrando. Eu vi você tentando ser forte enquanto alguém te segurava. Meu pulso formigou sob a faixa, lembrança viva. Minha raiva vacilou. Ethan deu um passo a mais. Agora, não havia distância. Havia só o espaço de uma respiração. — Não faz isso — eu murmurei. — O quê? — Me olhar assim. Como se… Como se ele tivesse permissão para me querer. Ele inclinou a cabeça um pouco, e eu senti a respiração dele tocar meu rosto. Um arrepio me atravessou inteira. — Como se eu fosse sua? — ele completou, num sussurro. Eu devia dizer não. Eu devia empurrá-lo. Eu devia exigir a porta aberta. Eu levantei a mão, encostando-a no peito dele. Não era um gesto para afastá-lo, mas sim para sentir. O tecido do terno estava frio, contrastando com o calor tenso do corpo por baixo. A verdade c***l, no entanto, a que eu tanto odiava, era que eu desejava algo mais. — Como se eu fosse… escolhida — eu corrigi, a voz falhando. Os olhos dele prenderam nos meus. E, por um segundo, ele pareceu quase… perdido. Como se o controle dele fosse um edifício e eu tivesse puxado uma viga. — Isabella… — ele disse meu nome como se fosse aviso e pedido ao mesmo tempo. Eu senti o quase-beijo acontecer antes de acontecer. O mundo todo pareceu prender o ar comigo. Eu não recuei. Só ergui o queixo, encostando a testa de leve na dele. — Se você vai me beijar… — eu sussurrei, e meu corpo inteiro vibrou com a ideia — então não faz isso como contrato. Ele ficou imóvel, como se minhas palavras fossem uma regra nova escrita na pele dele. — Explica — a voz dele saiu áspera. Eu respirei fundo, tentando não tremer, tentando ser inteira. — Sem jogos. — Minha mão subiu para a gravata dele e segurou, firme. — Sem usar meu corpo pra calar imprensa, conselho, rival… ou pra me punir. Na cama, não tem contrato. Tem escolha. Os olhos dele desceram para minha mão na gravata, depois subiram para meus olhos. — E se eu perder o controle? — Então você para — eu disse, firme, e senti a coragem nascer da própria vontade. — E você me ouve. Se eu disser “não”, é não. Se eu disser “para”, você para. Eu não vou ser mais uma coisa que você controla porque tá com medo. A palavra “mais uma” pareceu atingir uma parte escondida dele. Ethan respirou fundo. A mão dele subiu devagar, como quem pede permissão, e tocou meu rosto com cuidado absurdo — o tipo de cuidado que quase dói. — Você não é mais uma — ele disse, baixo. Eu senti meu coração bater no pulso. — Então prova. Eu não sei qual de nós dois se mexeu primeiro. Só sei que, quando a boca dele encontrou a minha, não teve imprensa, não teve conselho, não teve Donovan. Teve calor. Teve fome contida virando verdade. O beijo começou lento — quase respeitoso — como se ele estivesse se segurando na minha regra. Mas a tensão entre nós já estava armada há dias, e bastou o primeiro toque para tudo pegar fogo. A mão dele deslizou para minha cintura, firme, e eu senti o corpo dele reagir como se eu fosse uma tentação que ele odiava precisar. Eu prendi a gravata e puxei um pouco, escolhendo também, marcando meu lugar naquela decisão. Ele soltou um som baixo contra minha boca — frustração e desejo — e o beijo aprofundou, quente, real, sem plateia. Eu tremi, sim, mas não de medo. Tremi porque eu queria. E, quando eu quase perdi o fôlego, ele se afastou só o suficiente para encostar a testa na minha, respirando pesado, olhos escuros como noite. — Sem contrato — ele repetiu, como se estivesse aceitando um juramento. Eu toquei a boca dele com o olhar e senti minha própria ousadia doer. — Sem contrato. Ele fechou os olhos por um segundo, como se aquilo fosse a coisa mais difícil do mundo. Quando abriu, a mão dele foi até a fechadura atrás de si. O clique da trava girando veio baixo, definitivo. A porta abriu. Ele não disse “vai”. Não mandou. Só ficou ali, de lado, oferecendo o que eu exigi: escolha. E eu fiquei parada, com o peito subindo e descendo rápido, o pulso latejando, a boca ainda quente do beijo. Eu poderia sair. Eu poderia fugir. Eu olhei para o corredor… e depois olhei para ele. A linha já tinha sido cruzada. E eu, pela primeira vez, escolhi ficar do lado de dentro.
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