Capítulo 26 — Relógio de Pulso

1837 Palavras
Ethan Eu percebi antes de ela abrir a boca. Isabella entrou na sala como quem veste calma por cima de um incêndio. Não era a postura — ela sempre teve. Era o detalhe: o jeito como ela segurava a bolsa perto demais do corpo, como se carregasse algo que pudesse cortar por dentro. O olhar dela não me procurou de imediato. Ela varreu o ambiente, calculando saídas, câmeras que já não existiam naquele andar, e gente que talvez estivesse ouvindo mesmo sem estar. Mudança. E eu odeio mudanças que eu não provoquei. Eu estava com a camisa aberta no colarinho, o nó da gravata solto na mão. Voltei do hospital com a paciência no limite e o sangue frio funcionando como motor de guerra. Ainda assim, quando vi a faixa branca no pulso dela, um pedaço da minha raiva caiu no chão e virou outra coisa. Cuidado. Um cuidado que me irritava como fraqueza. — Você saiu do quarto? — perguntei, e soou mais como acusação do que como pergunta. Ela fechou a porta atrás de si com um clique curto. — Eu moro aqui também, lembra? O sarcasmo dela era uma lâmina. Eu não recuei. — Não some sem avisar. — Eu não sou seu GPS humano. Eu dei dois passos até ficar perto o suficiente para ver as olheiras leves que ela escondia com maquiagem e a tensão que ela fingia não ter no maxilar. Eu tinha vivido tempo demais cercado de gente treinada para mentir. Isabella mentia diferente. Isabella mentia quando estava com medo de… sentir. — Tem alguma coisa em você hoje — eu disse, baixo. — Você tá escondendo. Ela riu uma vez. Uma risada curta, dura. — Engraçado você falar isso. A frase veio com veneno. Meu estômago fechou. Eu podia adivinhar o caminho: acusação. Confronto. Verdade. Sangue. — O que aconteceu? — perguntei, mantendo o tom controlado, mas eu já sentia a tensão subindo pelo meu pescoço. Isabella caminhou até o centro da sala como se estivesse indo para um ringue. Parou, me encarou e levantou o queixo. — Eu abri um arquivo. O ar mudou. — Que arquivo? Ela segurou meu olhar por um segundo longo demais, como se quisesse me punir com silêncio. E então a palavra que ela soltou me atingiu como um tiro que não faz barulho: — Dívida. Eu não pisquei. Não dei a ela a satisfação imediata do impacto, mas por dentro eu senti o velho instinto de fechar portas, esconder pastas, trancar tudo de novo. — Isabella. — Você comprou a dívida do hospital. — A voz dela saiu firme, só que os olhos… os olhos estavam cheios de uma dor raivosa. — A dívida da minha mãe. Meu peito apertou. Eu não respondi, e o silêncio virou sentença. Ela avançou um passo. — E sabe o pior? — ela continuou. — Não foi “ajuda”. Foi… alavancagem. Estratégia. “Urgência emocional”. Eu li. Eu vi a sua assinatura. A palavra assinatura foi o soco final. Eu senti minha mandíbula endurecer. Senti o controle tentando me salvar. Senti também uma parte de mim a parte que tocou o pulso dela no escuro querendo dizer algo diferente. — Você não entende. — Eu entendo o suficiente! — ela cortou, a raiva finalmente subindo. — Você não me encontrou por acaso. Você me puxou para um contrato com a minha garganta. Com a doença da minha mãe. Você causou o colapso da minha família e depois apareceu como… solução. A frase me atravessou de um jeito estranho, porque eu senti o que ela estava dizendo… e senti o quanto aquilo era injusto e verdadeiro ao mesmo tempo. Eu dei um passo, e ela não recuou. Corajosa. Maldita. Meu olhar caiu no pulso enfaixado dela, como se meu corpo insistisse em lembrar que ela já tinha se machucado por causa dessa guerra. — Seu pulso… — eu disse, e a palavra saiu mais baixa. Isabella olhou para a faixa como se só agora lembrasse. — Não muda de assunto. — Eu não estou mudando. — Minha voz ganhou um tom que eu não queria: cuidado. — Quem encostou em você hoje? Ela abriu a boca para atacar, mas hesitou. Um segundo de vulnerabilidade. — Não foi hoje — ela mentiu. Eu sustentei o olhar. Eu sabia. Eu sempre sei quando alguém tenta me poupar. A raiva que eu guardei desde o hospital voltou, mas não como violência. Voltou como necessidade de impedir. — Eu fui ao hospital — eu disse. Ela piscou. — Foi o quê? — Um médico mandou mensagem pra você. Dr. Rafael Nunes. — Eu vi a expressão dela mudar, surpresa e desconfiança. — Eu precisava saber se era armadilha. E era. Os olhos dela ficaram maiores por um instante. — Você foi… me vigiar? — Eu fui impedir que te usassem. — Minha voz saiu firme. — Donovan está tentando criar acesso a você por todos os lados. Ela respirou fundo, como se estivesse tentando decidir se eu era proteção ou jaula. — E você? — ela devolveu, com a voz mais cortante. — Você é o quê, Ethan? Porque pra mim… você tá no centro disso. Eu senti a pergunta cravar. O pen drive. Os arquivos. A minha assinatura. O meu mundo virando a vida dela de cabeça pra baixo. Eu podia explicar. Eu podia dizer que eu comprei aquela dívida antes que Donovan comprasse. Que eu coloquei a mão no incêndio para impedir que outro homem colocasse e chamasse de “resgate”. Eu podia dizer que não era por bondade — era por estratégia — mas que estratégia também salva. Eu podia dizer o nome que ela ainda não conhecia. Eu podia abrir a parte mais feia do meu passado. Mas abrir demais é dar a Donovan uma arma nova. E eu já tinha dado armas demais ao mundo. — Não foi como você pensa — eu disse, cada palavra medida. — Mas eu não vou te contar tudo agora. O rosto dela endureceu. — Claro. O rei do controle não dá explicação. Só manda. — Eu não mando em você — eu respondi, rápido demais. Mentira parcial. — Eu estou tentando manter você viva. — Viva… ou sob sua posse? — ela sussurrou, e o jeito como ela disse posse foi um desafio e uma ferida. Meu peito subiu e desceu. Eu senti o sangue pulsar. Senti a linha fina entre proteção e domínio se esticar até quase arrebentar. — Você quer a verdade inteira? — eu perguntei, aproximando o rosto do dela. — A verdade inteira é que Donovan quer te destruir em público só pra ver eu falhar. — Então eu sou o seu ponto fraco — ela disse, com um sorriso sem humor. Eu devia negar. Eu não neguei. — Você é o ponto que ele escolheu pra me quebrar — eu corrigi, e a voz saiu mais baixa. — E eu não vou deixar. Isabella me encarou. Por um segundo, a raiva dela vacilou e virou outra coisa. Dúvida. Medo. Aquele tipo de medo que nasce quando você percebe que a ameaça é real… e que o homem na sua frente, apesar de tudo, está disposto a incendiar o próprio império por você. — Eu não quero ser seu troféu — ela disse, mais fraca. — Você não é troféu. — Eu levantei a mão devagar, como quem pede permissão sem dizer. Meus dedos pairaram perto do pulso dela. — Você é… risco. Os olhos dela desceram para a minha mão e voltaram para o meu rosto. — Não toca — ela avisou, mas a voz não veio com força. Veio com tremor. Eu congelei. — Eu paro se você pedir — eu disse, firme. — Você me ensinou isso. Ela engoliu seco. E, no silêncio que se abriu, nós dois lembramos da noite no meu quarto. Da regra. Da escolha. A respiração dela ficou mais rápida. A minha também. — Você me fez acreditar que eu tinha escolha — ela sussurrou. — E agora eu descubro que você já tinha decidido por mim antes de eu entrar nessa casa. A culpa bateu como um soco cego. — Eu decidi te tirar da mira de gente pior do que eu — eu respondi, e a verdade saiu crua. — Eu decidi que ninguém ia comprar a sua dor antes de mim. Isabella arregalou os olhos, como se a frase fosse absurda demais para existir. — Você ouviu o que você acabou de dizer? Eu ouvi. E odiei. — Eu sei. — Minha voz falhou um milímetro. — Eu sei o quão monstruoso soa. Mas o mundo em que eu vivo não dá opções limpas. Ela deu um passo, e agora estávamos perto demais. O cheiro dela me atravessou. A coragem dela me desmontou. E a raiva dela… me puxou como ímã. — Eu devia te odiar — ela disse, quase num sopro. — Eu sei. — Eu devia sair dessa casa. — Eu sei. — Mas eu… Ela não terminou. Eu vi a decisão no rosto dela — aquela decisão perigosa, impulsiva, que nasce quando a dor encontra desejo. Eu não pensei. Não calculei. Não quis. Só aconteceu. Minha mão segurou a cintura dela, firme, e eu a puxei contra mim. Isabella soltou um som baixo de surpresa — e, por um segundo, eu senti o corpo dela resistir… só para, no instante seguinte, escolher. O beijo explodiu. Não foi gentil. Não foi educado. Foi fome com raiva, foi choque com verdade, foi dois inimigos se encontrando no único lugar onde não existe argumento: a boca. Ela agarrou minha camisa, puxando com força, e eu senti a coragem dela virando incêndio. Eu beijei como se pudesse apagar a frase “assinatura” da cabeça dela, como se pudesse reescrever o passado com saliva e promessa. Ela mordeu de leve meu lábio — provocação e punição — e eu perdi o fôlego num som preso. Minha mão subiu pelas costas dela, segurando, não prendendo. E, quando eu senti o corpo dela tremer, eu me afastei um centímetro, procurando os olhos dela no escuro do próprio desejo. — Diz pra eu parar — eu murmurei, a voz áspera. — E eu paro. Os olhos dela brilhavam. Raiva e vontade, misturados. — Não para — ela sussurrou, e foi a permissão mais perigosa que eu já recebi. Eu beijei de novo, mais fundo, mais lento, como se agora eu quisesse marcar o que era nosso sem transformar em posse. Minha testa encostou na dela por um segundo, nossas respirações se misturando. E eu senti, com uma clareza c***l, que eu estava cruzando outra linha. Não a do contrato. A do sentimento. No corredor, do lado de fora do nosso silêncio, meu telefone vibrou em cima da mesa. Uma vez. Duas. Eu não olhei. Porque, naquela fração de mundo sem testemunhas, eu só conseguia pensar numa coisa: eu precisava contar a verdade a ela… mas a verdade completa podia matar nós dois.
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