Isabella
O hospital cheirava a álcool, pressa e lembranças que eu não pedi para ter.
Eu deveria me sentir aliviada por estar ali sem escolta colada no meu corpo, sem um segurança respirando no meu pescoço como se eu fosse um pacote frágil. Ethan cumpriu a cláusula “proteção à distância”, ele disse, como se liberdade pudesse ser medida em metros. O carro ficou do lado de fora. Eu caminhei sozinha pelo corredor, sentindo uma coisa rara: ar.
Ainda era um ar vigiado, claro. No mundo de Ethan, até o oxigênio parece ter câmera.
Minha mãe estava no mesmo quarto, com a mesma palidez que me dava vontade de brigar com Deus. Quando ela dormia, parecia menor. Quando abria os olhos e sorria para mim, parecia maior do que toda a fortuna que eu não pedi. Eu sentei ao lado dela, segurei sua mão e fui falando banalidades como se o banal fosse um remédio.
— Você tá bonita, meu amor — ela murmurou, fraca, mas teimosa o suficiente para tentar me devolver ao normal.
Eu sorri.
— Eu tô viva. Já é muita coisa.
Ela fechou os olhos de novo, e eu fiquei ali, observando o peito dela subir e descer, contando respirações como quem reza sem fé.
Foi quando bateram na porta.
— Licença — disse uma voz masculina, jovem, cuidadosa.
Eu virei e vi um residente entrando com uma prancheta. Alto, cabelo escuro, olhos claros de um jeito que parecia quase gentil demais para aquele lugar. Ele olhou para mim, depois para o prontuário, e algo no rosto dele mudou um reconhecimento rápido, como um flash.
— Isabella Monteiro? — ele perguntou.
Meu estômago apertou. Monteiro. Meu sobrenome antigo. A parte de mim que ainda era minha.
— Era — respondi, seca. — Agora é… tanto faz.
Ele sorriu de leve, sem deboche.
— Lucas Sampaio — ele se apresentou. — A gente fez um semestre juntos, no curso de extensão do hospital. Você ajudou a senhora da triagem quando ninguém quis.
Eu pisquei. A lembrança veio como um sopro: eu, mais nova, sem dinheiro e com pressa de ser útil. Um corredor parecido com esse. Uma mulher chorando. Eu tentando ajudar.
— Eu lembro — eu disse, e minha voz saiu mais humana do que eu pretendia.
Lucas se aproximou com a prancheta, mas manteve uma distância respeitosa, profissional.
— Eu não ia falar nada… mas é bom ver você. — Ele olhou para minha mãe e baixou o tom. — Eu tô acompanhando parte do caso dela. Os exames de hoje mostram melhora.
Meu peito desarmou um pouco.
— Melhora de verdade? — perguntei, e odiei o tremor na minha esperança.
— De verdade. — Ele assentiu. — Ainda é delicado, mas… tem resposta boa. E isso importa.
Eu respirei fundo. Por um segundo, senti vontade de chorar, mas segurei. Chorar, para mim, sempre foi um luxo caro.
Lucas me observou de um jeito simples, sem cálculo, e comentou como se fosse apenas uma gentileza:
— Você parece mais forte do que antes.
Eu ri, sem humor.
— Ou só mais cansada.
Ele sorriu de novo.
— Mesmo cansada, você tem uma postura… diferente. Dá pra ver que você não abaixa a cabeça.
A frase bateu no lugar certo, e isso foi perigoso. Porque eu estava tão acostumada a gente me olhando como esposa de contrato, como peça, como manchete, que um elogio honesto parecia quase um toque. Um lembrete de que eu existia antes de Ethan Hale.
— Obrigada — eu disse, mais baixo. — Eu… preciso ouvir isso às vezes.
Lucas começou a explicar os exames com calma. Falou sobre medicação, sobre horários, sobre o que seria possível nas próximas semanas. Eu fui anotando mentalmente como se a informação fosse uma corda me puxando para fora do buraco.
Até que senti.
A mudança no ar.
Não foi barulho. Foi presença.
O corredor inteiro pareceu ficar mais frio, e eu soube antes de virar o rosto.
Ethan.
Ele estava na porta, terno impecável, expressão fechada demais para alguém que só “passou para checar”. Os olhos dele foram direto em Lucas e eu vi algo duro e antigo ali, como se ele estivesse medindo ameaça com a mesma frieza que mede ações no mercado.
Depois os olhos dele caíram em mim.
E, por um segundo, eu senti o beijo do capítulo anterior arder na minha boca como um segredo que ninguém ali deveria perceber.
— Isabella — ele disse. Só meu nome. E ainda assim soou como uma ordem.
Lucas pigarreou, desconfortável, tentando manter o profissionalismo.
— Senhor Hale. Eu sou o Dr. Lucas Sampaio, residente. Estava atualizando a senhora Isabella sobre os exames.
Ethan entrou no quarto com dois passos precisos, ocupando espaço como se fosse dono do lugar — e, de certa forma, ele sempre agia como se fosse.
— Eu não fui informado dessa atualização — Ethan respondeu, frio.
Lucas manteve a calma, mas eu vi a tensão subir pelos ombros dele.
— Ela tem direito à informação, senhor. Eu só—
— Ela tem direito à segurança — Ethan cortou.
Eu senti a raiva subir como febre.
— E eu tenho direito de respirar sem você transformar cada pessoa em suspeito — eu disse, antes que meu orgulho pedisse autorização.
Os olhos de Ethan se fixaram nos meus.
— Respira. Mas não esquece que estão tentando te usar — ele falou baixo, e eu ouvi mais medo do que controle naquelas palavras.
Lucas olhou de Ethan para mim, claramente percebendo que tinha coisa demais ali para um quarto de hospital.
— Eu posso deixar o laudo impresso — Lucas ofereceu, educado. — E qualquer dúvida, vocês chamam a enfermagem.
Ele se aproximou para me entregar a folha, e nesse movimento inocente… Ethan se adiantou um milímetro.
Não foi um empurrão. Não foi agressão. Foi pior: foi posse silenciosa.
A mão de Ethan tocou minha cintura com firmeza controlada, como se dissesse para o mundo inteiro: ela não está disponível. E o toque acendeu duas coisas em mim ao mesmo tempo: indignação e um arrepio traidor.
Lucas congelou por meio segundo. Depois entregou o laudo na minha mão, mas os olhos dele ficaram em Ethan por tempo demais.
Ethan olhou de volta, sem piscar.
O homem que olhou.
Não era Lucas. Era Ethan, olhando como quem promete guerra sem levantar a voz.
Eu respirei fundo, segurando o papel como se fosse âncora.
— Ethan, para — eu sussurrei, porque minha mãe estava ali. Dormindo. Frágil. E eu não permitiria que minha vida virasse espetáculo naquele quarto.
Ethan soltou minha cintura devagar, mas a expressão dele não suavizou.
— Vamos — ele disse.
— Eu não terminei.
— Terminou — ele insistiu, e a calma dele era a calma de uma tempestade contida.
No corredor, um barulho estourou — clique de câmera, passo rápido, alguém tentando capturar uma imagem pela fresta da porta. Um vulto recuou quando viu Ethan.
Ethan virou o rosto na direção do som com uma precisão assustadora.
Dois homens surgiram do nada e fecharam o corredor como muralha. O fotógrafo sumiu como rato.
Lucas arregalou os olhos, entendendo que aquilo não era paranoia. Era realidade.
Eu olhei para Ethan, e o vi por um ângulo que me confundia: o homem que me sufocava com regras… e, ao mesmo tempo, o homem que mantinha monstros do lado de fora.
Ele voltou o olhar para mim, e por um segundo, a dureza dele vacilou só um fio quando viu o laudo na minha mão.
— Sua mãe vai melhorar? — ele perguntou, baixo, como se fosse a única coisa que importava.
Eu queria odiar.
Mas eu só consegui responder a verdade:
— Vai.
E, naquele segundo, no meio do hospital e do perigo, eu senti o pior tipo de liberdade: a liberdade de perceber que eu estava presa… e ainda assim, escolhendo ficar perto dele.