Capítulo 18 — Preço da Desobediência

1478 Palavras
Ethan O pior de perder o controle não é o ato em si. É o rastro que ele deixa. O beijo que compartilhamos na sala trancada persistia em minha boca, uma sensação de erro que carregava o peso da verdade. Eu havia dedicado anos a treinar meu corpo para seguir a razão, mas Isabella, em meros segundos, reduziu todo esse esforço a pó. Como sempre faço quando sou ameaçado internamente, reagi imediatamente: ergui uma barreira ainda mais alta. Sem gritos. Sem espetáculo. Sem drama. Só método. Na manhã seguinte, às 06h10, eu já estava no escritório com Mason e Naomi. A tela principal exibia o mapa de acesso da penthouse como se fosse um banco. E, de certa forma, era. Só que o capital ali não era dinheiro. Era controle. — Quero todas as senhas trocadas — eu disse. — Painel das câmeras, fechaduras, rede interna, elevadores, sistema de cortinas. Tudo. Mason assentiu. — E os cartões de acesso? — Reemitidos. — Eu não pisquei. — Cancelar os antigos. Inclusive o dela. Naomi levantou o olhar, calculando o impacto. — Ethan… — Isabella não vai ficar com uma chave que não foi registrada — eu cortei. A palavra “chave” queimou, porque eu sabia exatamente o que significava: alguém dentro da casa colocou um segredo na mão dela. E segredos, na minha vida, sempre terminam em sangue ou manchete. Mason deslizou uma lista na tela. — Sobre o staff: Júlia R. pediu demissão ontem à noite. Disse que a avó passou m*l. Meu corpo ficou imóvel. Por dentro, tudo acelerou. — Ótimo — eu respondi, com uma calma que não era calma. — Ela não sai do país. E ninguém toca nela até eu falar com ela. Mason entendeu. Naomi também. A punição não era um castigo teatral. Era o fechamento do cerco. A aproximação lenta da grade até a pessoa sentir o metal sem eu precisar encostar a mão. — E a governanta? — Mason perguntou. Eu vi, por um instante, Isabella segurando a chave, o rosto cheio de raiva e coragem, e a nota rasgada falando sobre Célia. Não era prova. Era pista. E pistas, sem prova, são só armadilhas prontas. — Dona Célia continua — eu disse. — Mas com vigilância discreta. Eu quero saber tudo o que ela toca, sem que ela sinta. Naomi cruzou os braços. — E Isabella? A pergunta ficou no ar como uma lâmina. Eu sabia o que eu deveria dizer: controle total. Eu sabia o que eu queria dizer: não encostem nela. Só que o desejo não pode ser ordem. Desejo abre brecha. — Isabella vai receber um novo protocolo — eu respondi. — Horários, rotas, acesso limitado. Sem improvisos. E o telefone antigo… quero rastreio de sinal passivo. — Ela vai odiar — Naomi murmurou. — Ódio é previsível — eu repeti, como mantra. O que não era previsível era o modo como eu ainda sentia a boca dela quando fechava os olhos. Às 08h00, eu fui até o quarto dela. Bati uma vez. Entrei sem esperar resposta, porque o “esperar” naquele lugar era só um tipo de ilusão. Isabella estava de pé, cabelo preso de qualquer jeito, a faixa no pulso como um detalhe que eu não conseguia ignorar. Ela me encarou como se eu fosse o próprio sistema de câmeras. — Veio me dar outra lição? — ela disparou. Eu coloquei, sobre a cômoda, um cartão novo. — Novo acesso — eu disse. — Só para o seu quarto, a sala de estar e a cozinha. E o elevador de serviço, acompanhado. O olhar dela endureceu. — Você tá me punindo. — Eu estou fechando portas — eu corrigi. — Você beija e depois tranca? — ela perguntou, e a frase veio com veneno e uma honestidade absurda. Por um segundo, o impulso de responder com algo humano quase escapou. Quase. Eu engoli. — O que aconteceu ontem foi… inadmissível — eu disse, mantendo o rosto impassível. — Você invadiu um espaço que existe para sua proteção também. Ela deu um passo à frente. — Proteção? Você me escondeu cartas da sua mãe. Me transformou em dossiê. E ainda quer que eu confie? Eu vi o brilho nos olhos dela — não lágrimas, mas fogo. Ela era feita de fogo. E fogo, na minha vida, sempre foi risco. — Confiança não é um direito — eu respondi, seco. — É uma construção. E você acabou de provar que ainda não tem estrutura pra certas verdades. Ela riu, sem alegria. — Você fala como se eu fosse fraca. — Eu falo como alguém que já viu gente forte morrer por curiosidade — eu rebati, e a minha voz traiu um milímetro de algo mais antigo. Isabella ficou quieta por um segundo. O silêncio entre nós se esticou. Eu senti, de novo, a lembrança do beijo tentando atravessar a parede que eu ergui. Eu saí antes que a parede caísse. Porque naquele mesmo dia havia um evento. Não uma gala grande, mas um coquetel fechado da fundação — um palco perfeito para ataques sutis. Ataques que não deixam hematoma. Só deixam dúvida. Valentina Sloane estava confirmada. E eu sabia que ela vinha com sorriso e veneno. No evento, Isabella apareceu impecável — a seda perfeita, com a lâmina escondida no jeito como ela sustentava o olhar. Eu a observei de longe por dois segundos e senti uma coisa irracional: orgulho. O tipo de sentimento que eu não tinha tempo para sentir. — Sorriso — eu murmurei quando me aproximei. — Eu sei — ela respondeu, e sorriu do jeito certo. O sorriso que engana o mundo. E quase me engana. Valentina chegou como se fosse dona do lugar. Vestido claro, joias discretas, olhos que analisavam tudo como quem escolhe onde cortar. — Ethan — ela disse, tocando meu braço com i********e velha. Eu não me movi, mas meu corpo inteiro ficou alerta. Valentina era passado. E o passado sempre tenta cobrar juros. — Valentina — respondi, neutro. Ela virou para Isabella com um sorriso de porcelana. — Você é ainda mais… interessante ao vivo. A imprensa fez você parecer… diferente. Isabella sustentou o sorriso. — A imprensa faz muita gente parecer menor do que é. Valentina riu, como se fosse elogio. — Corajosa. Só toma cuidado. Esse mundo mastiga quem chega sem manual. Eu vi Isabella endurecer por dentro. E vi Valentina mirar exatamente onde doía, com a precisão de quem conhece minhas fraquezas. Ela inclinou o corpo, diminuindo a voz, mas não o suficiente para não ser percebida. — Ouvi dizer que você gosta de abrir portas proibidas — Valentina sussurrou, doce. — Deve ser emocionante brincar com coisas que não são suas. O sangue gelou na minha nuca. Aquilo não era provocação social. Era recado. Isabella piscou uma vez, mínima, e eu soube: Valentina sabia da sala. Da chave. Do que aconteceu. A ameaça vinha de dentro… e, às vezes, também vinha do lado de fora com perfume caro. Eu me aproximei antes que Isabella respondesse com uma lâmina mais afiada do que o lugar permitia. Coloquei minha mão na base das costas dela, firme, e puxei sutilmente para perto de mim — um gesto de casal. Um gesto de dono. Um gesto de proteção. Valentina ergueu a sobrancelha, satisfeita. Ela queria reação. Queria instabilidade. Eu entreguei outra coisa: frieza absoluta. — Valentina — eu disse, baixo, educado, perigoso. — Você não fala com minha esposa desse jeito. Ela sorriu mais ainda. — Sua esposa. Que rápido você aprendeu a usar essa palavra. Eu a encarei sem piscar. — Eu aprendo rápido o que é necessário. Valentina inclinou o rosto, fingindo inocência. — Eu só estava sendo gentil. — Gentileza não deixa rastros — eu respondi. — E você deixa. O brilho do olhar dela vacilou por um instante. Isabella permaneceu imóvel ao meu lado, sentindo minha mão, e eu senti o corpo dela reagir — não como medo, mas como presença. Real. Demais. Eu mantive a postura. CEO. Controle. Público. Só então eu me inclinei, perto o suficiente para Valentina ouvir e para o resto do salão só enxergar um marido “atencioso”. — Se tocarem em você, eu acabo com todos. — Eu disse para Isabella, mas foi para o mundo inteiro entender. Isabella respirou fundo, e o sorriso dela não caiu. Valentina recuou meio passo, o bastante para não parecer derrotada, mas o suficiente para o recado entrar. Ela ergueu a taça. — À felicidade, então. — À sobrevivência — Isabella respondeu, suave, cortante. Senti uma faísca perigosa, cheia de orgulho. A seda dela se tornava mais afiada... e isso, ao mesmo tempo, me acalmava e me apavorava. Porque eu estava erguendo barreiras para mantê-la segura do mundo. E, nesse processo, eu estava percebendo que a única coisa verdadeiramente capaz de me descontrolar... era ela.
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