Isabella
A faixa no meu pulso latejava como um lembrete: eu não estava segura. Eu só estava… vigiada.
A chave que Dona Célia me deu pesava no bolso do meu robe como pecado. Pequena, fria, simples demais para abrir qualquer coisa importante — e, ainda assim, eu sentia que ela podia abrir uma parte de mim que eu não conseguiria fechar depois.
Ethan tinha dito “Donovan Pierce”. Tinha dito “ameaça por dentro”. Tinha dito “você virou alvo por minha causa” como se fosse uma pedra jogada na água. Só que, depois daquela frase, eu não conseguia mais fingir que minha vida era só contrato e aparências. Existia algo escondido na penthouse. Algo que ele guardava como se fosse sangue.
E eu já estava sangrando por tabela.
Esperei a casa cair no tipo de silêncio que parece definitivo. O ar-condicionado sussurrava, as luzes do corredor estavam em modo noturno e os passos do staff haviam sumido. As câmeras… as câmeras estavam lá, claro. Sempre lá. Mas eu tinha aprendido os ângulos, os pontos cegos, os segundos em que a lente piscava quando alternava para visão infravermelha. Aprender a ser observada é uma forma amarga de inteligência.
Saí do quarto devagar, descalça, e caminhei pelo corredor como quem volta para o lugar do próprio crime. A porta trancada no corredor leste me esperava como uma boca fechada.
A fechadura não tinha poesia. Só função.
Eu tirei a chave do bolso com dedos firmes e encaixei. O clique veio baixo, quase respeitoso como se a casa estivesse sussurrando: não devia.
Eu girei.
A porta cedeu.
Um cheiro de papel velho e metal tomou meu rosto. Não era mofo. Era… arquivo. Segredo conservado. Como se alguém quisesse manter o passado intacto para poder usá-lo quando necessário.
A luz acendeu automática, fraca, amarela, e eu vi a sala.
Não era um quarto. Era um cofre disfarçado de escritório: armários de aço, gavetas com etiquetas, caixas plásticas empilhadas, uma mesa com uma luminária antiga e, na parede, um mural de recortes e fotos preso por alfinetes.
Meu estômago virou.
No mural, o nome HALE aparecia em letras grandes em manchetes antigas, e, logo abaixo, palavras que sangravam mesmo anos depois: escândalo, fundação, investigação, traição. Uma foto do pai de Ethan, sério, entrando num prédio. Outra, borrada, dele sendo cercado por repórteres. Uma terceira… um carro amassado, uma lona, um flash c***l demais.
Eu aproximei o rosto sem perceber. Meu coração batia no pulso enfaixado, como se o corpo quisesse fugir e a curiosidade o prendesse.
Na mesa, havia dossiês. Muitos. Pastas pretas, algumas marcadas com letras brancas.
DONOVAN PIERCE
CONSELHO — VOTOS / PRESSÃO
Vazamento Interno — Suspeitos
E então, como um soco:
ISABELLA MONTEIRO / HALE
Meu sangue gelou.
A raiva subiu primeiro, quente, injusta: ele me investigou como se eu fosse inimiga.
Depois veio uma segunda coisa, pior: ele me guardou aqui.
Abri a pasta com meu nome. Folhas com fotos antigas, eu na porta do hospital, eu entrando na firma, eu no restaurante, eu… sendo observada em momentos em que eu achei que estava sozinha. Relatórios curtos, frios, com horários e rotas. A vida transformada em tabela.
Eu senti vontade de rasgar tudo.
Meu dedo tremia, mas eu respirei fundo. Procurei o que não estava ali por acaso. E encontrei, no fundo de uma gaveta, um envelope amarelado, fechado com um selo antigo.
A caligrafia era delicada: Ethan.
Eu abri.
Cartas.
Mais de uma. Papel grosso, dobrado com cuidado, como se quem escreveu soubesse que palavras também podem ser arma. No topo, um nome que me deu um nó na garganta: Margaret Hale.
A mãe dele.
Li a primeira linha e senti o peito apertar:
“Meu filho, eu sei que você está se transformando em pedra porque acha que pedra não sangra…”
Eu engoli seco. Não era o tipo de coisa que se guarda trancado por segurança. Era o tipo de coisa que se guarda trancado por fraqueza. Por vergonha. Por dor.
Passei as folhas rápido, o coração disparado, e algo caiu no chão com um som seco.
Uma nota rasgada.
Dois pedaços.
Peguei e juntei. As palavras estavam incompletas, mas o suficiente para arrepiar minha nuca:
“…a ameaça vem de dentro. Não confie em—”
“…Júlia tem acesso. E Célia sabe da chave.”
Meu estômago despencou.
A governanta. A chave. A ameaça.
Eu ouvi, então, o som que não combinava com aquela sala: passos firmes no corredor. O tipo de passo que não hesita.
Virei rápido, segurando a nota como prova.
A porta abriu de uma vez.
Ethan estava ali.
A luz do corredor recortou o rosto dele por um segundo, e eu vi algo que eu raramente via: não o CEO impecável, mas um homem com o olhar feroz de quem foi invadido no único lugar onde não permite invasão.
— Isabella. — Meu nome saiu como advertência.
Eu levantei o queixo, mesmo com o peito em chamas.
— Então é aqui que você guarda as suas verdades? Trancadas? — ergui a nota rasgada. — Você me colocou em uma caixa também, Ethan.
O maxilar dele travou. Ele deu dois passos e fechou a porta atrás de si com um golpe curto. O som ecoou.
— Você não devia estar aqui.
— Eu não devia estar em metade da minha vida nos últimos dias — eu cuspi. — Mas aqui estou.
Os olhos dele foram para a pasta aberta com meu nome. Por um instante, a frieza dele vacilou. Só um instante. Depois voltou — mais dura.
— Isso é proteção.
Eu ri, amarga, apontando o mural de manchetes.
— Isso é obsessão. É medo. É… controle travestido de cuidado.
Ethan veio mais perto, e a sala ficou pequena. O ar ficou mais pesado. A raiva dele tinha cheiro — algo metálico, perigoso, que me fazia querer recuar e avançar ao mesmo tempo.
— Você mexeu no que não entende — ele disse, baixo.
— Eu entendo o suficiente para saber que você mentiu por omissão. — Minha voz falhou um milímetro, e eu odiei isso. — “A ameaça vem de dentro.” E você não me contou tudo. Você só… me cercou.
Ele estendeu a mão para a nota rasgada.
— Me dá isso.
Eu puxei para trás.
— Não.
O olhar dele se aprofundou e senti o calor subir pela minha espinha, a mesma sensação do beijo. A mesma eletricidade. No entanto, agora estava carregada de perigo.
— Isabella.
— Ethan. — eu o desafiei com o próprio nome. — Você disse que eu virei alvo por sua causa. Então para de me tratar como criança. Para de me esconder coisas. Para de—
Ele avançou, rápido, e segurou meu pulso enfaixado com cuidado demais para ser violência e firme demais para ser casual. Me puxou um passo. Eu perdi o ar.
— Para de me desafiar quando você não faz ideia do que eu estou segurando sozinho — ele rosnou, e a voz dele saiu com um desgaste real, quase bruto.
Aquilo me atravessou como verdade.
A mão dele se estendeu rapidamente para pegar a nota, não em um gesto de agressão. Eu a segurei com firmeza; nossos dedos se roçaram no papel em uma disputa ao mesmo tempo ridícula e intensamente íntima.
De repente, a tensão da briga se transformou em algo diferente.
Sua respiração se acelerou. Os olhos dele, traindo sua habitual compostura, desceram para a minha boca. Senti meu corpo reagir instantaneamente, em uma mistura incontrolável de aversão e desejo. Meu coração disparou.
— Você não tem direito— eu comecei.
Ethan parou a um centímetro do meu rosto, respirando a mesma respiração que eu. A raiva dele era um fio esticado. A minha, também.
— Eu tenho direito ao controle — ele sussurrou, e a frase devia soar monstruosa… mas o que me queimou foi outra coisa por baixo: um medo antigo, uma fome contida, um homem lutando contra si mesmo.
Eu engoli seco, encarando-o.
— Então controla isso — provoquei, quase sem voz.
Ele fechou os olhos por uma fração de segundo, como se estivesse perdendo uma guerra interna.
Quando abriu, a máscara já tinha rachado.
— Você quer que eu pare? — ele perguntou, tão baixo que parecia só pensamento.
Meu orgulho gritou para eu dizer sim.
Meu corpo disse não.
E eu… eu escolhi a verdade mais perigosa.
— Não.
O som m*l saiu e ele já estava me beijando.
Não como o beijo do lado de fora do restaurante, calculado, exibido. Isso aqui era fechado, secreto, visceral. A boca dele tomou a minha com uma urgência que me fez esquecer o chão. A mão dele desceu para minha cintura, me segurando como se eu fosse a única coisa real naquela casa de vidro. Eu senti a pressão, o calor, o gosto dele — e senti meu próprio tremor de novo, só que agora eu não odiava.
Eu correspondia.
Minha mão agarrou o lapel do paletó dele e puxou, porque eu precisava sentir que eu também escolhia. Que eu também mandava em alguma coisa.
O beijo ficou mais profundo, mais lento por um segundo, como se ele estivesse se permitindo — e isso foi o mais assustador de tudo.
Ele se afastou de repente, a testa quase encostando na minha, a respiração pesada e desorganizada… humana.
— Isso não devia acontecer — ele murmurou, e eu ouvi o controle dele tentando voltar como um muro levantado às pressas.
Eu toquei minha própria boca, atordoada, e vi o papel rasgado ainda entre nossos dedos.
— Mas aconteceu.
Os olhos dele passaram pelo mural, pelas cartas da mãe, pela pasta com meu nome. Depois voltaram para mim, duros e brilhando de algo que eu não sabia nomear.
— Você abriu uma porta que eu mantenho trancada há anos — ele disse.
Eu levantei o queixo, sentindo meu pulso latejar sob a gaze.
— Então me diz a verdade, Ethan… ou vai me trancar junto com ela?