Capítulo 16 — Sangue e Seda

1374 Palavras
Ethan O sangue no pulso dela era pouco. Quase nada. Mas eu vi como se fosse demais. No corredor do hospital, depois que o segurança afastou o paparazzi e a polícia foi chamada, eu arrastei Isabella para longe de curiosos com a mesma precisão com que eu tiro um ativo valioso de um incêndio. A mão na cintura dela não era gentileza. Era direção. Era barreira. Ela tentou se soltar duas vezes. — Para de me puxar — ela rosnou, com o rosto vermelho de raiva e… algo mais. Eu não respondi. Porque se eu respondesse naquele momento, eu diria coisas que não cabiam em público. Eu diria coisas que eu não deveria nem saber sentir. Encontrei uma sala vazia, uma espécie de consultório de apoio, com uma maca, uma pia e uma luz fria demais. Fechei a porta. O silêncio caiu como um peso. Um silêncio sem flashes, sem vozes. Só ela, eu, e a lembrança incômoda do beijo — e do tremor dela. Isabella finalmente olhou para o próprio pulso, onde a pele tinha um corte fino, provavelmente do atrito brusco quando o homem segurou. O sangue já secava nas bordas. Ela apertou os dedos como se quisesse negar a dor. — Isso não é nada — ela disse. Eu dei um passo e segurei o pulso dela com cuidado controlado, não firme o suficiente para ser ameaça, não leve o suficiente para ser indeciso. — É o suficiente — eu respondi. Ela tentou puxar de novo, mas eu não soltei. Não por autoridade. Por uma coisa mais primitiva, mais estúpida: impulso de reparar. — Ethan… — a voz dela veio baixa, perigosamente humana. Eu abri um armário, encontrei um kit simples de primeiros socorros do hospital e voltei para ela. Algodão, gaze, antisséptico. Coisas pequenas. E, ainda assim, minhas mãos tremiam por dentro — não visivelmente, não como as dela. Mas eu senti a tensão. Senti a vontade de quebrar a garganta do homem que a tocou. Senti o desejo irritante de encostar minha boca na pele dela de novo e apagar o mundo. Eu odiei isso com a mesma intensidade com que senti. — Vai arder — eu avisei, antes de passar o antisséptico. Ela não piscou. — Eu já ardi pior. A frase deveria ser só teimosia. Em vez disso, bateu em mim como acusação. Porque eu sabia exatamente o tipo de “pior” que o meu mundo causava. Quando o líquido tocou o corte, ela inspirou rápido, um microespasmo, e eu vi o esforço dela para não demonstrar. Aquele orgulho era a armadura dela. Eu reconhecia. Orgulho é a última coisa que sobra quando todo o resto é tomado. Eu segurei o pulso dela mais perto, como se a proximidade pudesse impedir a dor. E então aconteceu o problema. Eu esqueci que eu era pedra. Meu polegar roçou o lado interno do pulso dela, num gesto automático, quase carinhoso, como se eu estivesse checando se ela ainda estava inteira. A pele dela estava quente. Viva. E aquilo atravessou minhas defesas com uma facilidade absurda. Isabella percebeu. Os olhos dela subiram para os meus com uma mistura confusa de raiva e choque, como se ela tivesse acabado de ver um fantasma. Eu era esse fantasma. O Ethan que não devia existir. Eu puxei o foco de volta na mesma hora, endurecendo o rosto, apertando o maxilar, voltando ao meu papel. Mas já era tarde. O instante tinha acontecido. — Você não devia ter ido sozinha — eu disse, frio, só para reconstruir a parede. Ela riu, amarga. — Eu fui com “Paulo”. Um motorista que não era motorista. — O olhar dela estreitou. — Você sabia. Eu não neguei. Negar seria insultá-la. — Eu preferi te seguir a te proibir — eu respondi. — Você ia quebrar do mesmo jeito. Ela ficou quieta por um segundo, e eu aproveitei para colocar a gaze sobre o corte e prender com um esparadrapo. Minhas mãos foram cuidadosas demais. Eu me forcei a ser rápido. A lentidão, com ela, era perigosa. A lentidão virava i********e. E eu não podia. — Quem foi aquele homem? — ela perguntou, a voz mais baixa. — Não parecia só um paparazzi. Eu joguei o algodão usado no lixo com mais força do que precisava. — Não era. A palavra ficou no ar. Isabella não respirou por um momento, como se estivesse esperando o próximo golpe. Eu me aproximei da pia, lavei as mãos, encarei meu reflexo no pequeno espelho acima dela. O mesmo rosto. O mesmo controle. O mesmo fantasma atrás dos olhos. Voltei para ela. — O nome dele é Donovan Pierce. O nome saiu como se eu estivesse abrindo uma gaveta antiga cheia de lâminas. Isabella franziu a testa. — Eu nunca ouvi falar. — Você não deveria. — Eu mantive a voz nivelada. CEO. Relatório. — Donovan não gosta de aparecer. Ele gosta de puxar fios. Ela se apoiou na maca, confusa. — E por que ele me atacaria? Eu vi a pergunta atravessar o corpo dela com atraso, como se uma parte dela já soubesse a resposta e outra parte se recusasse. Eu respirei uma vez. Só uma. — Porque ele me odeia. Silêncio. O hospital, do outro lado da porta, parecia distante. Como se o mundo tivesse dado um passo atrás para ouvir. — Donovan Pierce era parceiro do meu pai… antes do escândalo. — Eu senti o gosto metálico do passado na boca. — Um investidor com ambição demais e ética de menos. Quando meu pai caiu, Donovan perdeu dinheiro, posição… e, principalmente, uma chance de tomar a Hale Holdings por dentro. Os olhos de Isabella ficaram mais atentos, mais frios. Ela estava montando as peças rápido. — Então ele quer se vingar de você. — Ele quer me desestabilizar. — Eu me aproximei mais um pouco, sem perceber, como se falar aquilo me puxasse para perto dela por necessidade de controle. — E você é a rota mais fácil. O pulso dela, enfaixado, ficou entre nós como prova do que eu estava dizendo. Ela engoliu seco. — O bilhete… — Foi dele ou de alguém a serviço dele. — Eu disse. E então, pela primeira vez, deixei escapar um fragmento de verdade que eu normalmente enterraria. — Você virou alvo por minha causa. As palavras não foram dramáticas. Não foram ditas como pedido de desculpa. Foram ditas como sentença. E eu vi o impacto no rosto dela — a raiva querendo nascer, o medo tentando ocupar espaço, a dignidade lutando para não desmoronar. — Então eu sou… dano colateral — ela sussurrou. Eu senti uma coisa horrível: vontade de negar. Vontade de dizer que ela era mais do que isso. Vontade de dizer que ela estava se tornando… um problema diferente, um risco diferente, um lugar que eu não queria perder. Mas eu não podia oferecer isso. Eu não podia nem pensar isso. Então eu ofereci o que eu sabia oferecer: segurança em forma de cerca. — Você é alvo, Isabella. E eu não vou deixar Donovan Pierce encostar em você de novo. Ela levantou o queixo. — E o preço é eu viver vigiada. — O preço é você viver — eu respondi, duro demais para ser só lógica. Ela me encarou como se quisesse achar a rachadura no meu controle. Por um segundo, eu achei que ela ia dizer alguma coisa que me derrubaria. Mas ela apenas olhou para o próprio pulso enfaixado. — Você foi… cuidadoso — ela disse, como se a palavra doesse. Eu senti o meu corpo reagir como reagiu no beijo: um choque mínimo, real demais. A mão dela fechou a clutch com força, e eu notei — tarde demais — que ela tremia de novo, tentando esconder. Eu me afastei um passo, reconstruindo distância, porque distância era o único jeito de eu não cometer a fraqueza de tocá-la como eu queria. — Vamos pra casa — eu disse. “Casa.” A palavra soou errada. Porque aquela penthouse era muitas coisas. Proteção. Prisão. Campo minado. Aquário. E, agora, também era onde eu teria que manter Isabella viva… sem deixar que ela descobrisse o quanto, em algum lugar inaceitável dentro de mim, eu queria sentir aqueles lábios de novo.
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