Isabella
O ar do lado de fora do restaurante tinha um gosto de metal e de flash. No instante em que a porta se abriu, senti a cidade faminta nos esperando. A noite estava fria, mas o que me causou arrepios não foi o vento. Eram os gritos, as câmeras, a certeza de que, ali, eu não era mais uma pessoa. Eu era apenas uma manchete ambulante.
— Ethan! Ethan! Aqui!
— Isabella, olha pra cá!
— Vocês casaram por amor? Ela tá grávida?
— É verdade que ela veio de “nada”?
As perguntas vinham como pedras. Algumas atingiram. Outras só sujava.
Eu segurei a clutch com força, os dedos rígidos no tecido, e tentei manter o sorriso que Naomi me ensinou. Seda por fora. Lâmina por dentro. Só que, do lado de fora, a lâmina sempre encontra um jeito de cortar a própria mão.
Ethan apareceu ao meu lado como uma parede. O terno escuro, a postura de quem não desvia, o olhar frio que transforma gente em ruído. Ele colocou a mão nas minhas costas, firme, guiando, e eu senti o corpo inteiro reagir de um jeito que me irritou: meu estômago se apertou, minha pele se acendeu, como se o toque dele fosse ao mesmo tempo abrigo e algema.
— Cabeça erguida — ele murmurou, tão baixo que só eu ouvi.
Eu ergui. Eu respirei. Eu tentei.
Mas os paparazzi não deixam você tentar. Eles empurram.
Um deles se aproximou demais. Outro cortou nossa frente. Um flash estourou a centímetros do meu rosto, me cegando por um segundo. E, naquele segundo, eu ouvi a frase que me atravessou como veneno:
— Ela nem combina com ele.
— Olha a cara dela… interesseira.
Meu peito queimou. A raiva subiu, pronta para explodir, e eu ia dizer qualquer coisa qualquer coisa que fosse verdade quando Ethan fez o que ele sempre faz: decidiu por nós dois.
Ele parou de andar.
O movimento foi tão abrupto e tão controlado que o mundo ao redor pareceu travar junto. Eu virei o rosto para ele, surpresa, e encontrei os olhos dele fixos nos meus, escuros, afiados, como se ele estivesse lendo minha raiva em tempo real.
— Fica comigo — ele disse, sem suavidade. Um comando disfarçado de orientação.
— Eu tô aqui — eu respondi, mas minha voz saiu baixa demais, humana demais.
Os gritos aumentaram.
— Ethan! Um beijo!
— Mostra pra gente se é real!
— Beija ela, Hale!
Eu senti o sangue ferver. A humilhação teve um gosto amargo na língua. Eles queriam espetáculo. Queriam me transformar em prova pública. Queriam que eu fosse usada como selo de “estabilidade” com direito a flash.
Ethan inclinou o rosto um pouco, o suficiente para parecer casual para as câmeras. Mas a voz dele, quando veio, foi só para mim e tinha gelo e fogo misturados.
— Você quer que eles te devorem viva… ou quer que eu feche a boca deles agora?
Eu abri a boca para responder “eu não preciso de você”. Era o que meu orgulho queria. Era o que eu deveria dizer.
Mas então vi o mar de lentes, vi o sorriso predador de quem me odiava sem me conhecer, e lembrei do bilhete: Não se case com ele. Lembrei da foto maldosa. Lembrei que, naquele mundo, as pessoas não atacam por acaso. Elas atacam porque podem.
Ethan podia impedir.
Eu podia odiar isso depois.
— Fecha — eu sussurrei, e a palavra saiu como rendição e desafio ao mesmo tempo.
O olhar dele escureceu um grau, como se tivesse acabado de receber permissão para algo que ele já queria tomar.
A mão dele na minha cintura apertou, firme, me puxando um pouco mais para perto. Eu senti o calor do corpo dele atravessar o tecido do meu vestido e atingir minha pele como uma faísca.
E, antes que eu conseguisse me preparar, ele me beijou.
Não foi delicado.
Foi preciso. Foi um gesto de guerra com aparência de romance.
O mundo lá fora explodiu em flashs, gritos, como se o beijo fosse uma moeda lançada para a multidão. Mas, no primeiro segundo, eu ainda consegui fingir que era só fachada — até que a boca dele se moveu de um jeito diferente, lento demais para ser apenas estratégia.
O toque dele não era só “imagem”.
Era intenção.
Minha respiração falhou, e eu odiei isso imediatamente. Odiei meu corpo por reagir. Odiei a tensão que subiu pela minha nuca como se eu estivesse sendo puxada por um fio invisível. Odiei a forma como meus dedos, sem autorização, apertaram o paletó dele para não perder o equilíbrio.
Ethan aprofundou o beijo com uma calma c***l, como se estivesse testando um limite meu — e, pior, como se soubesse exatamente onde ele ficava. A mão na minha cintura deslizou um pouco, não indecente, mas íntima o suficiente para me lembrar: ele manda até nos detalhes.
Eu senti o gosto dele limpo, amargo de vinho, perigoso e, por um segundo vergonhoso, eu esqueci do flash. Esqueci do ódio. Esqueci das câmeras.
Só existia a pressão da boca dele, a respiração quente roçando meu rosto e uma parte de mim, pequena e traidora, tremendo por dentro como se estivesse acordando.
Quando ele se afastou, foi devagar. Demais.
Os olhos dele ficaram nos meus, e eu vi algo ali que me deu um frio: não era só controle. Era satisfação contida. Como se ele tivesse sentido o meu tremor — e guardado aquilo como prova.
— Sorria — ele murmurou, roçando a palavra na minha pele como uma ameaça gentil.
Eu sorri, porque eu era seda agora. Seda que cortava.
A multidão gritou mais. Os seguranças abriram caminho. Ethan me conduziu para o carro como se eu fosse parte da própria imagem. E eu fui, com o corpo inteiro em chamas e o rosto frio o bastante para enganar o mundo.
Dentro do carro, quando a porta fechou e o som lá fora virou abafado, eu finalmente respirei. Ou tentei.
Ethan não me olhou de imediato. Ele ajeitou a gravata, como se nada tivesse acontecido, como se o beijo tivesse sido só mais um gesto num relatório. Mas a mandíbula dele estava tensa. A mão dele a mesma que me segurou ficou por um segundo a mais no encosto do banco, como se ainda lembrasse do meu corpo.
Eu odiei o silêncio. Odiei o modo como meu coração batia rápido demais por causa de um beijo que deveria ser só contrato.
— Foi… suficiente? — eu perguntei, a voz seca.
Ethan virou o rosto devagar.
— Foi necessário — ele respondeu. Pausa. O olhar dele desceu rápido para minha boca e voltou para meus olhos como se nada. — E você foi convincente.
Convincente.
Eu quis cuspir uma resposta ácida. Mas minha garganta estava cheia de algo que não era raiva.
Quando chegamos na penthouse, eu saí do carro sem olhar para ele, porque eu me recusava a dar mais um pedaço de mim naquela noite.
No quarto, eu joguei os sapatos no chão e fui direto ao espelho. Meu batom estava levemente borrado. Meus olhos brilhavam demais. Minha pele parecia mais viva do que deveria.
Eu me odeei.
— Ridícula — eu sussurrei para o reflexo. — Você tremeu.
Passei os dedos pela boca, como se pudesse apagar. Como se pudesse desfazer.
Foi quando senti.
Algo dentro da clutch. Um volume fino, esquecido. Eu abri com pressa, o coração disparando e encontrei um bilhete dobrado, papel simples demais para estar ali.
A caligrafia era firme, quase agressiva.
“Ele destruiu outras antes de você.”
Meu rosto empalideceu. O beijo ardia na minha memória, mas agora com um sabor diferente: não de vinho, e sim de puro perigo.
Pela primeira vez desde que coloquei minha assinatura naquela linha pontilhada, percebi que aquele jogo era muito mais do que amar ou odiar Ethan Hale. Era, na verdade, uma luta para sobreviver a ele e a todos que o cercavam.