Ethan
O beijo não terminou quando eu afastei a boca.
Ele terminou quando a porta do carro fechou… e ainda assim ficou.
Ficou na minha pele como um erro que não podia ser desfeito. Ficou na minha cabeça como uma repetição involuntária: a forma como Isabella prendeu o ar, o instante em que a resistência dela vacilou e, por uma fração de segundo, o contrato deixou de ser contrato.
Eu odeio frações de segundo. Elas são brechas.
No elevador da penthouse, eu mantive o rosto neutro e as mãos onde deveriam estar longe dela. O silêncio entre nós era necessário. Eu sabia que, se eu olhasse por tempo demais, se eu falasse uma palavra a mais, alguma coisa escaparia do controle. E eu não construí um império para perder o controle por causa da boca de uma mulher.
Mesmo que eu quisesse.
Quando entramos, Mason já estava no corredor, postura firme, olhos atentos.
— Houve mais um movimento estranho nas câmeras do corredor leste — ele disse, direto. — Quatro minutos. Não é falha do sistema.
Eu não respondi de imediato. Meu corpo estava inteiro ligado numa memória que eu não queria ter. Os lábios dela. O gosto. A pressão. O jeito como ela me odiava… e ainda assim ficou.
Eu me obriguei a puxar o foco de volta para o que importa.
— Feche a casa — eu ordenei. — Troca de turnos. Ninguém entra e ninguém sai sem meu aval. E dobra a escolta dela.
Mason assentiu.
— Ela vai surtar.
— Ela pode surtar em segurança — eu respondi, frio.
A palavra segurança era a mentira mais aceitável. Era como eu justificava cercas sem admitir medo. Sem admitir que o bilhete dentro da clutch não era só um recado — era um dedo encostado no meu vidro.
Isabella atravessou o corredor com passos duros, indo para o quarto dela sem olhar para trás. Não disse nada. Não me deu o prazer de uma reação. E isso deveria me irritar.
Mas o que me irritou foi outra coisa: eu quis segui-la.
Quis encostar nela de novo. Quis sentir aqueles lábios uma segunda vez, não para a imprensa, não para o mercado para mim. Para confirmar o que meu corpo já tinha entendido e minha cabeça insistia em negar.
Eu fechei a mão em punho.
Nunca mais vulnerável.
Esse voto não era poesia. Era sobrevivência.
Entrei no meu escritório e fechei a porta com um clique controlado. Só então respirei de verdade. Abri o celular e mandei uma única mensagem para Naomi: “Sem novas fotos dela por 48h. Derrubem qualquer coisa.”
Em seguida, chamei Mason por áudio criptografado.
— Quero o bilhete.
— Já pegamos as imagens do trajeto do carro até a penthouse e do corredor — ele disse. — Mas o bilhete… foi descoberto no quarto dela, depois do evento. A clutch passou por mãos de staff no camarim do restaurante. Duas pessoas tocaram.
Duas.
Meu maxilar travou.
— Nomes.
— Uma assistente do evento, contratada pelo restaurante. E uma pessoa da nossa equipe… do suporte.
“Suporte” era a palavra que se usava para quem circulava sem ser notado. Quem arrumava, quem recolhia, quem abria portas. Quem podia colocar um papel dentro de uma bolsa sem deixar rastro.
— Quero a lista completa de acessos à clutch — eu disse. — E quero o histórico de mensagens do telefone oficial dela. Alguém tentou contato por número oculto. Eu quero saber de onde veio.
— Já estamos cruzando — Mason respondeu. — Tem mais: o bilhete não é o primeiro. A mensagem “Não se case com ele” veio antes. Mesma caligrafia? Não dá pra garantir. Mas o padrão é o mesmo: avisos dirigidos, sempre quando ela está sendo “moldada”.
Eu encarei o vidro da janela, a cidade lá embaixo piscando como se nada importasse.
— Alguém quer ela instável — eu disse, mais para mim do que para ele. — Alguém quer quebrar a peça.
Mason ficou em silêncio por um segundo.
— Ou quer empurrar ela pra abrir portas.
A frase bateu como uma sombra. A porta trancada. O corredor escuro. O sistema que registrava tudo. O que existia atrás daquela fechadura que nem o ar parecia ter permissão de atravessar.
— Reforça o perímetro do corredor leste — eu ordenei. — E mantém Isabella longe dali.
— Ela já esteve perto da porta — Mason disse.
Meu sangue esfriou.
— Como você sabe?
— Câmera do corredor pegou movimento. E… alguém desligou o feed por alguns segundos logo depois. Não foi falha. Foi mão humana.
A ameaça vinha de dentro. E agora ela tinha encostado na minha mulher.
Minha mulher.
A expressão surgiu na minha mente com a naturalidade de um hábito antigo, e eu odiei o modo como ela soou certa.
Desliguei e abri o dossiê que Mason enviou. Nomes, horários, logins de sistema, entradas e saídas. Eu não lia gente como gente; eu lia como padrão. O padrão sempre entrega quem mente.
A assistente do evento do restaurante era descartável, fácil demais. O segundo nome, o da nossa equipe, era mais interessante.
Júlia R.— Assistente de apoio / closet / ajustes finais
Acesso autorizado ao camarim. Acesso autorizado ao corredor de serviço. Acesso em duas noites seguidas ao painel de manutenção das câmeras “por solicitação da governanta”.
Meu dedo parou sobre a tela.
“Solicitação da governanta” podia ser verdade… ou podia ser alguém usando o nome de Dona Célia como máscara. O tipo de coisa que gente esperta faz: incrimina a pessoa mais silenciosa da casa.
Eu levantei e fui até o corredor, passos sem pressa, mente acelerada.
A penthouse estava quieta, mas não era paz. Era a quietude de um lugar que esconde dentes.
Bati na porta do quarto de Isabella apenas uma vez. Não para pedir entrada — para anunciar presença.
Ela abriu alguns centímetros, ainda com o batom apagado, mas com os olhos acesos de raiva controlada.
— O que foi agora? — ela perguntou, seca.
Eu mantive meu rosto no lugar de sempre: frio, CEO, pedra.
Porque se eu deixasse o olhar descer para a boca dela, eu perderia o fio.
— A escolta vai dobrar — eu disse. — E você não sai sem aviso.
— Você tá me punindo pelo bilhete? — ela retrucou, e eu vi a ofensa viva ali, latejando. — Ou tá me punindo pelo beijo?
A palavra “beijo” me atingiu por dentro. Eu não deixei aparecer.
— Eu estou te mantendo viva — eu respondi.
Ela riu, amarga.
— Do seu jeito.
Eu quis dizer: eu não consigo parar de pensar em você.
Quis dizer: se eu te tocar de novo, eu não sei onde isso termina.
Quis dizer qualquer coisa humana.
Eu disse apenas:
— Dorme. Amanhã você vai precisar estar impecável.
Ela me encarou como se quisesse me rasgar com as unhas. Então fechou a porta com um clique que parecia uma sentença.
Eu fiquei parado um segundo no corredor, sentindo o impulso i****a de colocar a mão na madeira e entrar mesmo assim.
Não entrei.
Voltei ao escritório e mandei uma mensagem curta para Mason:
“Traga Júlia R. para conversar. Agora. E ninguém encosta na governanta sem prova.”
A resposta veio em menos de um minuto:
“Entendido. Rastros confirmam: ela acessou o camarim e o corredor de serviço na hora do bilhete. Temos imagem parcial.”
Uma imagem incompleta já bastava para despertar a faísca inicial.
Apoiei as mãos sobre a mesa e cerrei os olhos brevemente. Aquele desejo retornava mas não a ânsia por castigo ou controle.
Era o desejo por Isabella.
Minha mente clamava por limites, mas meu corpo pedia um incêndio.
E, no meio desse conflito, alguém em minha própria casa parecia estar brincando perigosamente, soltando fósforos perto da gasolina.