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1214 Palavras
Christian. Vozes. Um bip constante, mecânico, ritmado. Depois silêncio. Depois mais vozes. Os sons entram e saem da minha percepção como se alguém estivesse girando um botão invisível dentro da minha cabeça. O zumbido nos meus ouvidos vibra no mesmo compasso, às vezes alto demais, às vezes distante demais. Minha mente parece submersa em algo espesso, pesado. Meu crânio lateja. Não é apenas dor — é pressão. Como se minha cabeça tivesse sido comprimida numa prensa e esquecida lá. Estou respirando. Ar entra. Ar sai. Vivo. A constatação chega devagar, atravessando camadas de confusão. Vivo. Contra todas as probabilidades. Junto com ela, vem a náusea. Ela cresce rápido, girando no meu estômago como uma maré suja. Engulo em seco. Minha língua está grossa. Minha boca tem gosto de metal. Onde estou? O que deu errado? Forço minha mente a funcionar. Há vozes próximas. Duas femininas. Uma masculina. Reconheço a diferença de timbre, mesmo com o cérebro latejando como um tambor de guerra. Estão falando uma língua que não identifico. Não é russo. Não é árabe. As palavras são curtas, rápidas, com vogais abertas. A náusea piora. Abro os olhos. A luz me atinge como um tiro. Um tubo fluorescente pisca acima de mim, c***l e impiedoso. A claridade atravessa minha visão, desce direto pelo nervo óptico e explode dentro do meu crânio. Fecho os olhos de novo imediatamente. Alguém diz algo — uma exclamação curta. Passos rápidos. Uma mão toca meu rosto. Dedos frios pressionam minha pálpebra para cima. Luz novamente. Meu corpo reage antes do pensamento. Meus músculos tentam se contrair. Minhas mãos se fecham em punhos. Mas meus braços não se movem. A dor dispara outra vez, mais violenta. Um relâmpago branco atravessa minha cabeça. Meu instinto é atacar. Eliminar a ameaça. Mas não consigo mover os braços. — Cuidado agora. A voz masculina fala inglês, com um sotaque pesado. — A enfermeira só está examinando você. A mão se afasta. Obrigo meus olhos a permanecerem abertos, mesmo que cada segundo pareça uma tortura. A visão está borrada, mas começa a se ajustar. Um homem está ao lado da cama. Uniforme militar. Postura rígida. Cinquenta e poucos anos. Rosto anguloso. Olhos frios, avaliadores. Ele não parece surpreso por eu estar consciente. — Sou o coronel Sharipov — diz ele com voz controlada. — Pode me dizer seu nome? Tento mover os braços novamente. Nada. Não estão apenas pesados. Estão presos. Olho para baixo, e o movimento quase me faz vomitar. Algemas prendem meus pulsos às grades da cama. — Onde eu estou? — Minha voz sai arranhada. — O que aconteceu? Tento mexer as pernas. A direita responde. A esquerda não. Ela está envolvida em algo pesado. Gesso. Quando tento forçar, uma dor aguda sobe pelo osso como um choque elétrico. Escapa um som entre meus dentes. — Você está em um hospital em Dominic luca — o coronel responde. — Uzbequistão. Sua perna esquerda está quebrada. Você também sofreu uma concussão severa. Recomendo que não tente se mover. Dominic luca. Uzbequistão. Fronteira com o Tajiquistão. As memórias voltam de forma fragmentada. O cheiro de combustível. O impacto. O som ensurdecedor da explosão. O fogo. Merda. — Onde estão os outros? — A fúria surge rápido, queimando através da dor. Puxo as algemas com força. — Zaytsev. Onde está Zaytsev? — Eu responderei — diz Sharipov, impassível. — Mas primeiro, seu nome. Não há vantagem em mentir. Se ele sabe o nome de Zaytsev, já sabe quem somos. — Christian de luca — respondo com os dentes cerrados. — Segundo no comando. Ele me observa por alguns segundos, como se estivesse medindo algo invisível. — Nesse caso, senhor de luca, ficará satisfeito em saber que Otávio Zaytsev está vivo. Ele também está neste hospital. Braço quebrado. Costelas trincadas. Ferimento na cabeça, aparentemente superficial. Ainda está inconsciente. Um peso que eu nem sabia que carregava diminui um pouco. Zaytsev é muitas coisas. Frio. Calculista. Letal. Mas é meu comandante. E, apesar de tudo, eu o respeito. Morrer por um erro grotesco seria inaceitável. — O que aconteceu? — pergunto, mais baixo agora, mas mais perigoso. — Quem nos derrubou? O coronel hesita. Quase imperceptível. — A causa exata está sendo investigada. Pode ter havido… uma falha de comunicação. Eu encaro ele. — Falha de comunicação? As imagens voltam. Homens gritando. Fogo engolindo o compartimento traseiro. — Você está me dizendo que alguém apertou o botão errado? Ele mantém o olhar firme. — É possível que tenha ocorrido um erro operacional. — Um erro operacional matou quarenta e cinco homens — rosno. — Isso não é erro. Isso é incompetência ou traição. A mandíbula dele se contrai. — Estamos investigando. — Onde estão os sobreviventes? Ele respira fundo. — Além do senhor e de Zaytsev, apenas três homens sobreviveram. Estão em estado crítico. Inconscientes. Meu estômago afunda. Cinco. De cinquenta. Cinco. — Quero ver. Ele tira o celular do bolso e me mostra a primeira foto. Meu peito aperta. James Stone. Ou o que sobrou dele. Metade do rosto está carbonizada. Pele n***a, enrugada. — A aeronave explodiu — diz Sharipov. — Queimaduras de terceiro grau. Prognóstico reservado. — James Stone — vdigo, a voz mais baixa do que pretendia. Deslizo para a próxima imagem. Lúcio Evans. Reconhecível apenas pela cicatriz no canto do olho. A terceira foto é quase impossível de encarar. Carne queimada. Tecido destruído. — Ele ainda está vivo? — pergunto. — Em estado crítico. Olho mais de perto. Então vejo. Uma tatuagem parcialmente exposta sob o uniforme rasgado. Um pássaro. — Gian Montreau. O único francês do time. Baixo o telefone. Cinco de cinquenta. O resto virou fumaça. — Por que eu não estou queimado? — pergunto. — Por que Zaytsev não está? — Vocês estavam na cabine do piloto. Ela se separou do corpo principal durante a queda. A parte traseira explodiu. O fogo não alcançou vocês. Fecho os olhos. Imagino o que eles viram. O fogo avançando. Sem saída. Aperto os dentes até sentir a dor irradiar pela mandíbula. Isso não foi erro. Não pode ter sido. Abro os olhos de novo. — Você precisa colocar homens armados na porta do quarto de Zaytsev. Sharipov franze a testa. — O hospital é seguro. — Não é. Minha voz sai firme, apesar da dor pulsando. — Ele tem inimigos. Inclusive grupos ativos do outro lado da sua fronteira. Se descobrirem que ele está aqui, vulnerável… Deixo a frase incompleta. Ele entende. — Vou providenciar segurança adicional. — Não adicional. Massiva. Pelo menos quarenta homens. Ele parece considerar exagero. — Seus aliados no Kremlin não vão gostar se ele desaparecer sob sua custódia — acrescento. Isso atinge. Ele faz um gesto curto com a cabeça. — Providenciarei reforços. — Também preciso falar com Peter Ivanovisk. — Já falamos com ele. Ele sabe onde vocês estão. Um avião está sendo preparado para transferência. Eu abro a boca para insistir. Então sinto a picada. Rápida. Aguda. Olho de lado. Uma enfermeira recua com uma seringa vazia. — O que você… Tarde demais. O peso desce sobre mim como concreto líquido. A dor diminui. Os pensamentos ficam lentos. O coronel observa enquanto minha visão escurece. Antes de perder a consciência, uma única certeza permanece clara: Se isso foi um erro… Alguém vai pagar.
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