Scarlett.
Meu telefone vibra dentro da bolsa, insistente. Eu o puxo com dedos dormentes e levo ao ouvido.et
— Sim?
— Onde você está? — A voz de Petrov está tensa, desgastada nas bordas, exatamente como eu me sinto. — O líder da equipe está ficando nervoso. Ele quer estar do outro lado da fronteira antes que o Kremlin sequer termine de fazer perguntas.
— Ainda estou na cidade — digo, ofegante. — A pé, por enquanto. O trânsito está completamente parado.
A neve estala alto sob minhas botas quando entro no parque. Ninguém se deu ao trabalho de limpar os caminhos aqui; o chão está coberto por uma camada espessa e escorregadia de gelo que reflete o brilho fraco dos postes.
— Merda — Petrov murmura.
— Pois é. — Desvio com cuidado de um monte congelado de fezes de cachorro, meu pé quase escorregando. — Estou fazendo tudo o que posso para chegar aí hoje à noite. Eu prometo.
Há uma pausa na linha. Longa o suficiente para apertar meu estômago.
— Certo — ele diz por fim. — Scarlett … — Hesita, e quando volta a falar, sua voz está mais baixa. Quase pesarosa. — Você sabe que vamos ter que retirar a equipe se você não chegar até de manhã.
— Eu sei. — Mantenho o tom firme, profissional, apesar do medo que atravessa meu peito como uma lâmina. — Eu estarei aí.
— Ótimo. Certifique-se disso.
A ligação termina.
Guardo o telefone e acelero o passo, impulsionada por uma ansiedade crescente. Se a equipe for embora sem mim e eu for capturada, estou morta. Sem julgamento. Sem negociação. O Kremlin não é conhecido por tratar espiões com gentileza — e o fato de que minha agência oficialmente não existe torna tudo dez vezes pior.
A Ucrânia não virá me buscar.
Eles nem sabem que eu existo.
Estou quase saindo do parque quando ouço risadas masculinas, altas e arrastadas, seguidas pelo som inconfundível de sapatos esmagando neve.
Olho por cima do ombro.
Um grupo de homens vem atrás de mim, talvez a cem metros de distância. Seis deles. Garrafas presas nas mãos enluvadas, andando de forma desajeitada, ziguezagueando pelo caminho — mas a atenção deles está claramente focada em mim.
— Ei, mocinha! — um deles grita, arrastando as palavras. — Quer vir festejar com a gente?
Desvio o olhar e ando mais rápido. Estão bêbados. Provavelmente inofensivos.
Provavelmente.
Mas “provavelmente” já matou muita gente.
— Mocinha! — ele grita de novo, mais alto. — Isso é falta de educação, sabia?
Os amigos dele explodem em risadas — sons agudos, feios, animalescos que fazem os pelos dos meus braços se arrepiarem.
— Vai se f***r, sua v***a! — ele berra. — Se não quer festejar, era só dizer, p***a!
Eu não respondo.
Em vez disso, enfio a mão esquerda na bolsa, meus dedos tocando o metal frio da arma.
Só por precaução.
Quando saio do parque e volto para a rua, as vozes deles começam a se afastar. Arrisco um último olhar.
Eles não estão mais me seguindo.
O alívio afrouxa meu peito, ainda que minimamente. Tiro a mão da bolsa e diminuo um pouco o ritmo. Minhas pernas doem, os músculos queimam, e sinto a ardência quente de uma bolha se formando no calcanhar. Botas baixas são confortáveis — até deixarem de ser.
Agora estou numa área mais residencial. Menos carros. O trânsito flui melhor.
Mas há menos postes de luz.
Menos pessoas.
Mais sombras.
A cidade parece oca aqui.
Uma gargalhada masculina distante ecoa novamente, carregada pelo vento gelado, e meu desconforto retorna com força total. Aumento o passo, igRayzando a dor, minha respiração formando nuvens brancas no ar.
Cinco quadras depois, vejo salvação.
Um táxi está encostando do outro lado da rua, cerca de cinquenta metros à frente. Um homem baixo e magro está saindo do carro, mexendo em algo
O resto do mundo acontece rápido demais.
Luzes surgem no canto da minha visão.
O rugido de um motor.
Reajo por instinto.
Atiro-me para o lado no último segundo, atingindo o chão com força quando um carro passa em disparada por onde eu estava.
Rolo pelo asfalto congelado, o impacto arrancando o ar dos meus pulmões. Ouço o motorista gritando algo — uma gargalhada bêbada e triunfante.
Então algo duro atinge o lado da minha cabeça.
Uma explosão de dor, me atinge.
E enquanto a escuridão me engole, meu último pensamento é simples, brutal:
Eu deveria ter atirado naqueles bêbados malditos.