Scarlett.
Porra. Sete horas e meia.
O trem ficou preso naquele túnel sufocante por sete horas e meia intermináveis. Quando as portas finalmente se abrem na estação seguinte, o alívio que me invade é tão intenso que minhas mãos começam a tremer.
Talvez seja alívio.
Talvez seja fome. Ou desidratação. Ou exaustão.
Já não consigo distinguir.
Ao sair do trem amaldiçoado, empurro a multidão de passageiros esgotados e irritados e subo pela escada rolante até a superfície. Minha cabeça lateja por causa do ar reciclado e das luzes fluorescentes. Preciso ligar para Petrov imediatamente. A essa altura, meus contatos devem estar desesperados.
A ligação completa no primeiro toque.
— Scarlett ? Que p***a é essa? — a voz de Petrov explode no meu ouvido. — Onde você está?
— Em Rizhskaya — respondo, citando a estação que fica quase vinte paradas distante do meu destino. — Eu estava na linha Kaluzhsko-Rizhskaya.
— Ah, merda. Você ficou presa por causa daquele i****a.
— Sim.
Encosto-me na parede gelada de azulejos no topo da escada enquanto as pessoas passam apressadas por mim. De acordo com o último anúncio do condutor, o atraso foi causado por uma situação com reféns dois trens à frente. Um russo maldito teve a brilhante ideia de vestir um explosivo caseiro e ameaçar se detonar se suas exigências não fossem atendidas. A polícia conseguiu neutralizá-lo, mas levou horas.
Dadas as circunstâncias, é um milagre termos sido liberados antes de anoitecer.
— Certo — diz Petrov, um pouco mais calmo. — Vou mandar a equipe voltar ao ponto de extração. Os trens voltaram a funcionar?
— Não essa linha. Disseram que só retoma mais tarde esta noite. Vou ter que pegar um táxi.
Minha bexiga pulsa em protesto. Meu estômago parece vazio e ácido ao mesmo tempo. Preciso urgentemente de um banheiro e de comida — mas há algo mais importante.
— Mikhail Zeitsev — digo com cuidado, usando seu nome completo e secreto. —, a operação… foi bem-sucedida?
Uma pausa.
— O avião foi abatido há uma hora.
O mundo gira.
Meus joelhos cedem, e por um segundo aterrorizador tudo fica fora de foco. Se não fosse a parede atrás de mim, eu teria caído.
— Houve sobreviventes? — Minha voz sai estrangulada. Limpo a garganta. — Quer dizer… o alvo foi eliminado com certeza?
— Ainda não recebemos o relatório de vítimas — responde Petrov. — Mas não vejo como Zaytsev poderia ter sobrevivido.
Ah.
Ótimo.
A palavra tem gosto de veneno.
A bile sobe pela minha garganta, e eu a engulo com esforço.
— Preciso encontrar um táxi — consigo dizer.
— Mantenha-nos informados.
— Vou manter.
A ligação termina. Baixo o telefone e apoio a cabeça na parede congelante, puxando goles de ar frio. Sinto-me enjoada, o estômago revirando de vazio e acidez. Sempre tive um metabolismo rápido e nunca lidei bem com fome — mas não me lembro de já ter me sentido assim.
Olhos azul-claros, vazios, sem vida.
Sangue escorrendo por uma mandíbula dura e marcada.
Não. Para.
Afasto-me da parede.
Eu não estou sofrendo por ele.
Estou com fome. Com sede. Exausta. Só isso.
Depois que resolver isso, tudo ficará bem.
Tem que ficar.
Antes de tentar pegar um táxi, entro em um pequeno café ao lado da estação. O espelho do banheiro reflete uma versão pálida e tensa de mim mesma. Meus olhos estão brilhantes demais. Febris.
Jogo água fria no rosto.
Depois peço chá — bem quente — e devoro três bolinhos tradicionais daqui recheados de carne sem sentir o gosto. A comida pesa no estômago como uma pedra, mas pelo menos o tremor diminui.
Sinto-me quase humana de novo.
Lá fora, as ruas são um caos.
O trânsito está completamente parado. Faróis se estendem infinitamente em ambas as direções. Todos os táxis que passam estão ocupados. O colapso do metrô despejou milhares de pessoas nas ruas.
Irritante — mas previsível.
Começo a andar rápido. Não adianta entrar em um carro que não se move. Preciso chegar aos meus contatos o quanto antes.
O avião.
Meu fôlego falha.
Não sei por que não consigo parar de pensar nisso. Nele.
Eu conheci Christian por menos de vinte e quatro horas.
Passei a maior parte desse tempo com medo dele.
E o resto desse tempo eu passei gritando o nome dele de prazer.
Não.
Acelero o passo, desviando de pedestres mais lentos.
Não pense nele.
Não pense nele.
Você está voltando para Misha.
As palavras se repetem no ritmo dos meus passos.
Voltando para Kiev.
Voltando para casa.
Para o único que realmente importa.
Ando mais rápido. Quase correndo agora. A velocidade me aquece contra o frio brutal de Moscou e mantém meus pensamentos fragmentados.
Não pense nele. Você está indo para casa.
Mas a memória é c***l.
O peso do corpo dele sobre o meu. A aspereza das mãos. A gentileza inesperada depois.
O jeito como ele me olhou como se eu fosse algo raro.
Aperto os lábios e acelero ainda mais.
Quando os postes de luz se acendem, o céu já escureceu para um azul profundo. Confiro o celular.
17h52.
Estou andando há mais de duas horas.
E o trânsito continua péssimo.
Paro, frustrada, com o peito apertado. Fiquei nas grandes avenidas achando que aumentaria minhas chances de conseguir um táxi. Claramente, foi um erro.
Talvez ruas menores.
Menos congestionamento.
Motoristas podem arriscar atalhos.
Viro em uma rua lateral. Um parque se estende a um quarteirão adiante — árvores escuras recortadas contra o céu que escurece. Decido cortar caminho em diagonal por ele e sair em uma avenida mais tranquila do outro lado.
Ainda estarei indo na direção certa.
Só… menos visível.
O parque está quase vazio. A neve estala sob minhas botas. O ar é metálico e cortante. Minha respiração se transforma em vapor.
Pela primeira vez no dia, há silêncio.
Silêncio demais.
Um arrepio de inquietação percorre meu corpo.
Diminuo o passo, observando as sombras entre as árvores.
Você está sendo paranoica.
Mesmo assim, minha mão desliza até a bolsa, tocando o metal frio da arma.
Só por precaução.
Tem que haver um jeito de chegar ao ponto de extração esta noite.
Tem que haver um jeito de sair de Moscou antes que alguém comece a ligar os pontos.
Antes que façam perguntas.
Antes que o local da queda revele respostas.
Uma rajada de vento sacode os galhos acima de mim, lançando neve fina sobre meus ombros.
Estremeço.
E por um segundo terrível, me pergunto — E se ele não tiver morrido instantaneamente?
E se ele ainda estiver lá fora, em algum lugar daquele deserto congelado?
Vivo.
Queimando.
Esperando.
Paro de andar.
Meu coração dispara.
Não.
O míssil teria destruído a aeronave.
Não teria sobrado nada.
Nada humano.
Engulo em seco e volto a andar, forçando cada passo.
Se Chris
tian de luca está morto ou vivo não deveria importar.
Porque, de qualquer forma — Eu nunca mais vou vê-lo.