Scarlett.
A primeira coisa que faço ao chegar em casa é ligar para meu chefe e transmitir tudo o que descobri.
— Então era como eu suspeitava — diz Mikhail Petrov quando termino. — Eles vão usar Zaytsev para armar aqueles malditos rebeldes em Cazã.
— Sim. — Chuto os sapatos para longe e caminho até a cozinha para preparar um chá. — E Romanov exigiu exclusividade. Zaytsev agora está totalmente alinhado com os russos.
Petrov solta uma sequência de palavrões, a maioria envolvendo combinações criativas de “p**a”, “mãe” e “inferno”. Eu o ignoro enquanto encho a chaleira elétrica com água e a ligo.
— Certo — ele diz quando finalmente se acalma um pouco. — Você vai vê-lo esta noite, não vai?
Respiro fundo. Aqui vem a parte desagradável.
— Não exatamente.
— Não exatamente? — A voz de Petrov fica perigosamente baixa. — Que p***a isso quer dizer?
— Eu ofereci companhia. Ele não se interessou. Disse que vai embora em breve e que estava exausto.
Sempre é melhor dizer a verdade nessas situações.
Petrov começa a xingar de novo. Aproveito para rasgar um sachê de chá, colocá-lo na xícara e despejar a água fervente.
— Tem certeza de que não vai vê-lo de novo? — ele pergunta depois de terminar o acesso de raiva.
— Razoavelmente certa. — Soprei o chá, observando o vapor subir. — Ele simplesmente não demonstrou interesse.
Silêncio do outro lado da linha.
— Certo — diz ele por fim. — Você errou, mas resolvemos isso depois. Agora precisamos descobrir o que fazer com Zaytsev e com as armas que vão inundar nosso país.
— Eliminá-lo? — sugiro.
O chá ainda está quente demais, mas mesmo assim tomo um gole, sentindo o calor descer pela garganta. É um prazer simples. E são sempre os prazeres simples que valem a pena: o cheiro das ervas na primavera, a maciez do pelo de um gato, a doçura de um morango maduro. Aprendi, nos últimos anos, a valorizar essas pequenas coisas. A arrancar delas cada gota de alegria possível.
— Mais fácil falar do que fazer — Petrov responde, frustrado. — Ele é mais protegido que o próprio Putin.
— Imagino. — Dou outro gole, fechando os olhos por um instante para apreciar o sabor. — Tenho certeza de que você vai encontrar uma solução.
— Quando ele disse que vai embora?
— Não especificou. Só disse “em breve”.
— Certo. — Ele soa impaciente de repente. — Se ele entrar em contato com você, me avise imediatamente.
E antes que eu possa responder, ele desliga.
Como estou oficialmente dispensada pelo resto da noite, decido me permitir um banho demorado.
Minha banheira, assim como o resto do apartamento, é pequena e um tanto decadente — mas já vi lugares piores. Tento melhorar o ambiente colocando algumas velas perfumadas na pia e adicionando espuma à água. Quando entro, suspiro de alívio ao sentir o calor envolver meu corpo.
Se dependesse de mim, eu estaria sempre aquecida.
Quem disse que o inferno é quente estava errado.
O inferno é frio.
Frio de inverno russo.
Estou aproveitando o banho quando a campainha toca.
Instantaneamente, meu coração dispara. A adrenalina explode nas veias.
Não estou esperando ninguém.
O que significa que só pode ser problema.
Saio da banheira às pressas, enrolando uma toalha no corpo, e corro até o quarto principal do meu pequeno estúdio. Minhas roupas ainda estão jogadas sobre a cama, mas não tenho tempo para me vestir. Pego um roupão, visto rapidamente e abro a gaveta da mesa de cabeceira.
Retiro a arma.
Respiro fundo.
Então caminho até a porta, apontando a pistola na direção dela.
— Sim? — chamo, mantendo alguns passos de distância.
A porta é de aço reforçado, mas o buraco da fechadura não é. Alguém poderia atirar através dele.
— É Christian de luca.
A voz grave, falando em inglês, me faz estremecer tanto que a arma vacila em minha mão. Meu pulso acelera ainda mais, e uma fraqueza estranha atinge meus joelhos.
Por que ele está aqui?
Zaytsev descobriu algo?
Alguém me traiu?
As perguntas atravessam minha mente em chamas, mas então a explicação mais lógica surge.
— O que deseja? — pergunto, esforçando-me para manter a voz firme.
Há uma possibilidade que não envolve minha morte: Zaytsev mudou de ideia. Nesse caso, preciso agir como a intérprete civil inocente que deveria ser.
— Quero conversar com você — diz de luca. Há um leve traço de diversão em sua voz. — Vai abrir a porta ou vamos continuar conversando através de três polegadas de aço?
Droga.
Isso não soa como se Zaytsev o tivesse enviado.
Avalio rapidamente minhas opções. Posso permanecer trancada, esperando que ele não consiga entrar — ou que não me espere do lado de fora quando eu inevitavelmente tiver que sair. Ou posso arriscar, presumindo que ele não sabe quem eu realmente sou, e agir com naturalidade.
— Por que quer falar comigo? — pergunto, ganhando tempo. É uma pergunta razoável. Qualquer mulher seria cautelosa nessa situação. — O que você quer?
— Você.
A única palavra, dita naquela voz grave e controlada, me atinge como um soco.
Meus pulmões param por um segundo. Fico encarando a porta, tomada por um pânico irracional.
Então eu não estava errada.
Quando senti o olhar dele sobre mim… quando me perguntei se poderia ser apenas atração… talvez fosse exatamente isso.
Sim. Claro.
Ele me quer.
Forço meu corpo a voltar a respirar.
Isso deveria ser um alívio.
Não há motivo para pânico.
Homens me desejam desde que eu tinha quinze anos. Aprendi a lidar com isso. Aprendi a transformar desejo em ferramenta. A converter luxúria em vantagem.
Isso não é diferente.
Não deveria ser.
Mas, por algum motivo, com Christian de luca do outro lado da porta, não parece tão simples assim.
Exceto que de luca é mais duro. Mais afiado. Mais perigoso do que a maioria.
Não.
Eu silencio aquela pequena voz traiçoeira na minha cabeça e inspiro lentamente, com cuidado, abaixando a arma centímetro por centímetro. Pânico é inútil. Pânico mata.
Enquanto baixo a arma, meu olhar encontra meu reflexo no espelho estreito do corredor.
Por um segundo, m*l reconheço a mulher que me encara de volta.
Meus olhos azuis estão arregalados demais em meu rosto pálido, a adrenalina ainda os deixando brilhantes. Meu cabelo está preso de maneira desleixada, mechas úmidas grudadas no meu pescoço e na clavícula. O roupão felpudo está envolvido de forma descuidada ao redor do meu corpo, amarrado às pressas na cintura. E a arma em minha mão — fria, preta, letal — parece completamente fora de lugar naquela cena de domesticidade suave.
Eu não pareço em nada com a jovem elegante e bem-vestida que tentou seduzir Otávio Zaytsev mais cedo naquela noite.
Aquela mulher estava composta. Calculista. Elegante.
Esta parece encurralada.
Tomando uma decisão, chamo:
— Só um minuto.
Eu poderia negar a entrada de Christian de luca. Não seria suspeito que uma mulher morando sozinha hesitasse antes de abrir a porta para um homem como ele. Na verdade, seria o esperado.
Mas mantê-lo do lado de fora também significaria desperdiçar uma oportunidade.
E oportunidades são raras na minha linha de trabalho.
A jogada mais inteligente é deixá-lo entrar.
Se ele está aqui por atração, posso usar isso. Se está aqui por suspeita, preciso saber. No mínimo, posso tentar extrair algo útil — quando Zaytsev vai partir, para onde estão indo, quão apertado realmente está o cronograma deles.
Informação.
Mesmo um pequeno detalhe pode compensar parcialmente o meu fracasso anterior.
Movendo-me rapidamente, deslizo a arma para dentro da gaveta rasa sob o espelho do corredor. Fecho-a com cuidado, certificando-me de que não faça barulho. Então levo a mão ao cabelo e retiro os grampos um a um, deixando as grossas mechas loiras caírem livres pelas minhas costas.
A transformação é sutil, mas eficaz.
Já lavei a maquiagem. Minha pele é suficientemente limpa sem ela, e meus cílios são naturalmente escuros. Se é que muda alguma coisa, a ausência de maquiagem me suaviza. Faz com que eu pareça mais jovem.
Menos perigosa.
Mais acessível.
Mais como “a garota da casa ao lado”, como os americanos gostam de dizer.
Inclino levemente a cabeça, analisando o resultado. Cabelo úmido. Rosto limpo. Um roupão que sugere vulnerabilidade sem revelar demais.
Inofensiva.
Ensaio um pequeno sorriso hesitante — calor suficiente, timidez suficiente.
Confiante de que estou razoavelmente apresentável — e convincentemente civil — caminho até a porta.
Minha mão paira sobre a fechadura por um breve segundo.
Meu coração ainda bate forte, frenético no peito, cada batida ecoando nos meus ouvidos. Tento ignorar. O medo é natural. O medo me mantém alerta.
Mas há algo mais ali também.
Curiosidade.
E algo perigosamente próximo de antecipação.
Deslizo o ferrolho, destranco a porta e forço minha respiração a desacelerar, obrigando meu pulso a se acalmar.
Então giro a maçaneta.