Lavínia Calzeoni
Me olhando no espelho, vejo como sou de uma maneira totalmente diferente. Meu corpo, que escondi por tanto tempo, está evidente; minha pele brilha sob aquele vestido. Aquela seda parece fazer parte de mim. Prendi os cabelos num coque e deixei alguns fios soltos, peguei um brinco pequeno para completar, mas ainda falta algo… deve ser minha felicidade, porque desaparece assim que estou na frente de Dario. Sinto-me nua diante dele. Esse homem fez isso de propósito; não é possível escolher um vestido tão vulgar se não tiver pensamentos de me ridicularizar.
Sinto o peito apertado. Passo meu perfume e respiro profundamente. Caminho até a sala para esperar meu marido. Dario aparece, e seu sorriso de satisfação me corta a pele. Mais uma vez ele me forçou a usar o que ele queria.
— Está satisfeito, Dario? Na próxima vez, só compre um pedaço de pano maior.
— Lavínia, acha que quero você andando igual a uma empregada ao meu lado?
Achei que ele não se importasse com minhas roupas. Admito, eu nunca me importei com isso, não porque não goste, mas porque não irei me arrumar para um homem que desprezo.
Dario se aproxima. Seu rosto chega tão perto que sinto seu hálito.
— Lavínia, espero que você se comporte e não diga tonteiras.
— Dario, que dia não fui uma ótima esposa? — pergunto com desprezo. — Esqueceu que somente isso posso te oferecer?
— Ótimo, Lavínia. Vamos.
Dario anda na frente com pressa, como se quisesse distância. No carro, afasto-me; não precisamos realmente estar perto, mas ainda assim o perfume dele invade minhas narinas. Ele se aproxima.
— O que quer?
Ele sorri e ajeita meu cabelo, fitando meus lábios. Não sei por que ainda se preocupa comigo.
— Lavínia, sua mãe me contou a discussão que tiveram hoje. Espero que não faça mais isso. Sua mãe ainda está se recuperando da morte do seu pai.
— Dario, digo com desprezo, não se meta nos meus assuntos. Você pode governar a merda de tudo ali, mas não venha se meter na minha família. Minha mãe nunca esteve se recuperando de nada; talvez tenha até dado graças a Deus pela morte dele.
Dario segura meu rosto; seus olhos negros estão em brasa.
— Lavínia, como pode ser tão mimada e c***l? Como pode dizer essas palavras sobre sua mãe?
Vejo que ele está a ponto de me bater. Dario nunca levantou a mão para mim, mesmo na infância, quando joguei pedra nele. Mas agora sua raiva é tão intensa e transparente que quase posso tocá-la.
— Lavínia, você merece um tapa. Seu pai foi muito bom com você…
— Dario, se você ousar me tocar, arranco suas mãos.
— Vejo que minha esposa tem sangue quente. Mas Lavínia, não se esqueça do seu lugar na minha vida. Seu pai me deixou a missão de cuidar de você e de sua mãe, e irei cumprir meu papel.
— Ou talvez, Dario, se eu arrumar um novo homem, não precisarei de você.
Ele me aperta mais forte contra o banco. O motorista finge não perceber a guerra que se trava ali.
— Você nunca ouse, Lavínia. Se ousar, eu trarei pessoalmente a cabeça desse desgraçado.
— Por que se importa com isso? Não somos marido e mulher. Você mesmo me disse que nunca iria me mudar por este casamento. Empurro-o e seguro seu rosto com minhas unhas vermelhas e compridas. Vejo um sorriso formar-se nos lábios dele, maldito, parece se divertir, mas eu continuo apertando seu rosto com minhas unhas.
— Porque se importa de ter um homem entre minhas pernas? — pergunto, desafiadora.
Ele me segura pela cintura. Dou um gritinho ao sentir sua mão na minha perna e sua voz grave sussurrando:
— Você já sabe a resposta, Lavínia. Então não me teste.
Ele me empurra para o meu banco. Sinceramente, é um desgraçado desprezível. Tenho vontade de socá-lo até minha raiva passar, mas sei que mesmo se ele estivesse picado no chão, o ódio que sinto nunca iria embora.
Finalmente, o motorista para o carro. Onde irá acontecer a tal festa que Dario faz questão de me obrigar a ir? Desço e observo o lugar.
— Tem certeza que essa festa irá acontecer aqui? — pergunto. — O lugar é tão decadente… um jardim m*l cuidado, a calçada quebrada.
Dario apenas sorri.
— Sim.
Sinto um frio na espinha. Esse lugar não combina com o vestido que ele me escolheu. Caminhar por ali é quase um desafio; quase caio nos buracos, mas Dario me segura:
— Cuidado por onde anda, Lavínia. Aqui não é seu palácio, princesa.
— Se eu fosse uma princesa, teria prazer em mandar arrancar sua cabeça.
Ele ri. Continuo caminhando e paramos em frente a uma grande mansão. Vejo muitos empregados; está tudo iluminado, mas nada cuidado. Cada passo meu parece que pode desmoronar o lugar sobre mim. Muitos homens armados de Dario nos cercam.
Quando entramos no grande salão, está lotado. Mulheres com vestidos provocantes, algumas quase nuas, circulam. Viro-me para Dario e, sem esperar, seguro seu colarinho.
— Você está brincando comigo? Por que me trouxe aqui? Acha que não percebo o que é essa merda?
Ele tira minha mão da roupa com calma. Muitos homens me olham com desejo; sinto repulsa, como se fosse vomitar. Por que ele está fazendo isso comigo? Por que me humilhar dessa maneira?
Algumas mulheres se aproximam. Dario sorri:
— Don Vitali, que bom que veio.
— Sandra, há quanto tempo. — A mulher sorri para ele, fria e provocante.
Sinto que estou sonhando; não pode ser real. Essas mulheres são putas sujas, e Dario não se importa com minha raiva. Continua agindo como um filho de uma c****a.
— Sabe, Lavínia, você se sente melhor que todos aqui? — sua voz baixa, cortante. — Essas pessoas, essas mulheres… se sente superior? Vejo isso nos seus olhos. Mas saiba, você é tão pequena.
— Você me trouxe aqui só para me dar um sermão? Ou pretende me vender para um estranho me f***r? — pergunto, furiosa.
Ele me segura por trás; sua mão pousa no meu pescoço.
— Só estou te lembrando do que me fez, Lavínia. Aquela noite, nunca irei esquecer. E farei questão de te lembrar: o inferno será mais doce do que estar comigo.