Espinhos Vermelho

1263 Palavras
Lavínia Calzeoni Dias atuais Naquela semana, desde que pedi o divórcio, Dario vinha me evitando como se as palavras que eu havia pronunciado não merecessem sequer resposta. Como se não houvesse nada a discutir, nada a dissolver, como se a vida que ele arquitetou para mim devesse permanecer intacta. No fundo, percebia que o silêncio dele não era recuo, era domínio. Ele acreditava que eu ficaria ali, servindo-o como a esposa fiel que ele sempre exigiu. Mas eu não conseguia mais respirar naquela mansão. Até o ar parecia me sufocar. Saí para caminhar e tentar aliviar o peso no peito. A paisagem me pareceu mais triste do que nunca, cada árvore e cada pedra refletindo a mesma sensação de prisão. O único lugar que não havia mudado era meu jardim de rosas. Sempre amei rosas, principalmente as vermelhas. Belas por fora, mas cheias de espinhos. Elas são como eu, atraentes para quem olha, mas capazes de perfurar até sangrar. Toquei uma delas e, ao me distrair, espetei o dedo. O sangue escorreu, pingando sobre a terra escura. E então ouvi a voz que me persegue como um fantasma: — Lavínia, você deveria ter mais cuidado. Nem para pegar uma rosa consegue sem se machucar. Meu corpo enrijeceu. Virei-me lentamente e encarei Dario. Ele estava todo de preto, com a camisa aberta revelando parte do peito. Havia um desenho ali, uma tatuagem que não reconheci. Eu já o havia visto despido inúmeras vezes, quando ele ia treinar sem camisa, mas aquela marca devia ser recente. Meu olhar demorou mais do que devia e ele percebeu. Sorriu. — Está gostando da vista, Lavínia? Nunca imaginei que tivesse esse fascínio por mim. Achei que o único desejo que guardava era me atravessar com uma faca. Esse homem era um descarado. Dario sempre soube usar cada palavra para me irritar, para testar meus limites. Não permiti que minha expressão vacilasse. — O que faz aqui, Dario? Ele se aproximou sem pressa, tomou minha mão sem que eu tivesse tempo de recuar e pressionou um lenço contra meu dedo ferido. O toque dele queimava, como se tivesse alcançado até meus ossos. — Vim ver minha amada esposa. — Não seja hipócrita. Você nunca aparece nesse jardim. Acha que esqueci o que fez aqui? Seus olhos escureceram, ficando nublados com a lembrança que eu ousava trazer à tona. — Já disse para esquecer isso, Lavínia. — Nunca irei esquecer. Nunca vou te perdoar. Ele me agarrou com brutalidade, controlando-se para não deixar transbordar a raiva que eu despertava. Eu o encarei de volta, reconhecendo nos olhos dele o mesmo ódio da infância. — Você nunca vai crescer, não é? — rosnou. — Sempre com essas birras. Mas agora não tem mais Romero para passar a mão na sua cabeça. O desprezo subiu pela minha garganta e o empurrei com força. — Passar a mão na minha cabeça? Meu pai nunca fez nada por mim, a não ser me obrigar a casar com você. — Lavínia… — ele inclinou a cabeça, o olhar penetrando em mim como uma lâmina. — Me diga a verdade. Você pediu isso para o papai, não pediu? — Você se acha demais. Preferia dormir em uma cama de escorpiões a pedir algo assim. Acha mesmo que eu escolheria me casar com você por livre vontade? O rosto dele se fechou. Virou-se, as costas eretas, mas antes de sair deixou o veneno pingar dos lábios: — Se prepare. Temos uma festa para ir. Quero você arrumada… e sorridente. Finja, pelo menos. Isso você sabe fazer muito bem. O ódio me queimou por dentro. Festas eram meu inferno particular: mulheres exibindo as joias que os maridos compravam, homens se embriagando de poder e arrogância. Sempre detestei. Dario sabia, e era justamente por isso que me obrigava a ir. Ele me queria cativa, me queria sufocada. Fingi tantas vezes antes… fingirei outra vez, até conseguir o divórcio. Voltei a olhar para minhas rosas. As lembranças vieram sem pedir permissão. Por que você fez isso, Dario? Por que destruiu o que eu mais amava? Você já havia me tirado tudo… e ainda assim roubou aquilo também. Lembro do desprezo dele, frio e calculado: — Isso é só o começo, Lavínia. Apenas uma amostra do que acontece quando você ousa me desafiar. Maldição. Pensar nisso me rasgava por dentro. O jardim, que sempre foi meu refúgio, agora também era prisão. Entrei de volta na mansão e trombei com minha mãe. Estava, como sempre, impecavelmente arrumada para sair às compras. Meu pai havia morrido, mas ela não derramara uma lágrima sequer no enterro. — Lavínia, filha, não quer ir comigo? — perguntou, me observando com reprovação. — Você, mesmo sendo esposa de Dario, se veste como uma empregada. Olhei para mim: jeans e camisa simples. Ela bufou. — Não sei quem puxou. Uma mulher que não cuida da própria aparência… Escute o conselho da sua mãe: cuide-se, senão alguma mulher vai roubar seu marido. Aquela secretária dele mesmo… você já viu como é bonita, sempre perfumada, impecável. — Roubar? — soltei uma risada amarga. — Que leve ele, de bom grado. Acha que me importo com Dario ou com quem ele leva para a cama? Esse casamento nunca foi escolha minha. Papai me obrigou. Não esperei o tapa. O estalo cortou o ar, meu rosto ardeu. — Lavínia — disse ela, entre dentes —, você é egoísta. Seu pai fez tudo por você, e Dario cuida de nós. É assim que planeja retribuir? Vi nos olhos dela a mesma sentença de sempre: eu era o erro. Dario, o preferido. Ela jamais me apoiaria. Virei as costas, engolindo a dor. Preciso cuidar de mim mesma. Preciso me libertar. Dario deve ter amantes… posso usar isso ao meu favor. As palavras dela, porém, ecoaram: A secretária dele é impecável. Como podia me comparar a uma amante? Eu, a esposa legítima, que nunca tivera sequer um beijo dele? Vitória, minha única amiga, filha da empregada-chefe, sempre me chamava de boba por isso. Dizia que eu desperdiçava o prazer de ter um homem entre minhas pernas, Vitória era a única que Dario não conseguia arrancar de mim. Levantei os olhos e vi, na janela do escritório, Dario me observando como um corvo. Mostrei o dedo do meio. Ele sorriu. Maldito. Sempre assim. Entrei bufando. Além de tudo, ainda teria de me arrumar para aquela festa. Subi para meu quarto, meu único refúgio. O espaço amplo me recebia com seus móveis modernos, o aroma das rosas que vinham da varanda, o vento carregando o perfume adocicado que me sufocava tanto quanto me embalava. Foi então que vi a sacola sobre a cama. Reconheci de imediato a boutique preferida da minha mãe. Abri, desconfiada, como se estivesse prestes a desmontar uma bomba. Dentro havia uma caixa. Soltei o laço e, quando vi o conteúdo, meu coração disparou. Um vestido vermelho. Vermelho como sangue. Seda pura, decote profundo nas costas e f***a ousada na perna. A cor de minhas lágrimas, a cor da minha dor. Havia também uma caixa menor: sandálias de salto, igualmente vermelhas. E um bilhete. Lavínia, use essa roupa. E antes que venha atrás de mim dizendo que não usará… não me desafie. Se for preciso, eu mesmo arranco sua roupa e colocarei esse vestido. Dario Amaldiçoei-o em silêncio. Até minhas roupas ele escolhia. E, mesmo assim, ousava acertar minha cor favorita. Vermelho, a cor que me lembra tudo o que perdi, e tudo o que ele fez questão de me lembrar. Mesmo quando eu lutava, Dario sempre encontrava uma forma de estar lá.
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