Lavínia Calzeoni
10 anos atrás
Meu pai sempre deixou claro que teria preferido um filho homem. Ele não suportava nem olhar para meu rosto. Mesmo com apenas doze anos, eu entendia: para ele, eu era um erro. Como se eu tivesse culpa por ser menina. No começo, eu me culpava, uma criança tola que só desejava afeto e amor de um homem que nunca quis me dar.
Naquela manhã gelada, eu corria pela mansão com meus cabelos ruivos desgrenhados pelo vento. Não tinha amigos, vivia dentro do meu pequeno mundo. Ali, sozinha, conseguia inventar uma felicidade. Mas o vento daquela manhã parecia anunciar que algo iria mudar.
Meu pai saiu cedo. Vi quando entrou no carro, sozinho, sem escolta. Eu nunca o tinha visto dirigir. Estava nervoso. Corri para dar bom dia, mas ele respondeu com aspereza:
— Lavínia, vá para seus estudos, estou ocupado.
— Mas, pai, só queria dar bom dia…
— Depois conversamos.
E partiu.
Corri até mamãe, que se arrumava para mais um de seus passeios fúteis. Adorava gastar horas comprando roupas e joias.
— Mamãe, para onde papai está indo sozinho? Ele nunca fez isso…
— Cuide mais de você, Lavínia — respondeu, ríspida, sem sequer me olhar.
Ri sozinha. Cuidar de mim? Eu era apenas uma criança. Que pecado poderia cometer? Mas o olhar dela sempre me pesava como se eu fosse uma falha. E talvez fosse mesmo. Não me parecia com nenhum dos dois. Mamãe tinha cabelos escuros e olhos azuis. Meu pai, cabelos e olhos negros. Eu, sozinha, era ruiva.
Pesquisei em meus livros escondidos: descobri que o gene MC1R, do cromossomo 16, era responsável por cabelos ruivos. Eu me agarrava a isso. Queria acreditar que era apenas uma variação dentro da família Calzeoni, não um erro.
Mas tudo caiu quando o carro voltou.
Corri para receber meu pai, ainda esperando, no fundo, um gesto de carinho. Ele desceu sorrindo. Sorrindo. Eu jamais o vi sorrir exceto, raramente, para minha mãe. Não entendi até que ele abriu a porta do carro.
De lá saiu um garoto alto, cabelos negros como o de meu pai, olhos tão escuros que a pupila e a íris pareciam uma única sombra. Ele me olhou com desdém.
— Papai, quem é esse garoto?
Meu pai se aproximou dele, pousou a mão em seu ombro e sorriu de novo.
— Lavínia, este é Dario. A partir de hoje, ele irá morar conosco.
Meu estômago se contraiu. Meu destino foi selado ali, diante daqueles olhos de corvo.
Segui-os pela mansão. Meu pai mostrava cada cômodo como se fosse um empregado daquele garoto. Subiu as escadas, parou diante do quarto que eu sempre sonhei em ter, e declarou:
— Dario, este será o seu quarto. Espero que seja do seu agrado.
— Romero, está perfeito.
Ardia de raiva. Como aquele intruso ousava chamar meu pai pelo primeiro nome? Só eu e mamãe tínhamos esse privilégio.
— Garoto, meu pai é Don Romero. Não tem educação?
Meu pai me cortou, ríspido:
— Lavínia, não se intrometa com Dario. Dei permissão a ele para me chamar assim. Pedi que me chamasse de pai, mas ele prefere usar meu nome.
— Pai? Como assim?!
— Lavínia, vá para o seu quarto.
Não saí. Não podia. Vi o sorriso discreto de Dario, satisfeito com a minha derrota. O ódio queimou pela primeira vez dentro de mim.
Um empregado entrou, anunciando uma ligação importante para meu pai. Ele se retirou, nos deixando sozinhos.
Aproximei-me do garoto. Queria lembrá-lo de que, naquela casa, ele não passava de um mendigo que meu pai resgatou. Quando cheguei perto, percebi o quanto ele era maior que eu; precisei erguer o rosto para encará-lo.
— Quem é você? Por que meu pai o trata como alguém especial?
Ele me ignorou. Maldito. Segurei seu braço, mas ele puxou com força. A voz grave me arrepiou, tão densa para alguém que não parecia ser muito mais velho que eu.
— Escuta, pirralha. Não tenho que te dizer nada. Só precisa saber de uma coisa: não se meta comigo nem com os meus assuntos. Eu não vou me misturar com você, e quero o mesmo.
Entrou no quarto e bateu a porta.
Fiquei ali, imóvel. Pela primeira vez, senti algo que não sabia nomear. Descobri que tinha sentimentos, porque até então jamais havia experimentado algo tão puro e c***l quanto o ódio.